Afrescos do século 13 são descobertos em Roma

A descoberta de alguns afrescos medievais na igreja romana de S. Maria in Aracoeli, ao lado do Campidoglio, reabre uma velha discussão entre professores de história da arte e pode obrigar muitos deles a rever livros e teorias. Isto porque segundo alguns indícios , que ainda precisam ser comprovados, essas pinturas seriam a demonstração de que Giotto não foi o autor principal do ciclo de afrescos da basílica superior de Assis. Segundo a tese que alguns historiadores defendem há muito tempo, as pinturas que ilustram a vida de São Francisco teriam sido obra de artistas da escola romana. E, superando a arte bizantina, seriam eles os verdadeiros precursores da pintura moderna italiana, e não o mestre florentino. Os afrescos foram encontrados na capela de S. Pascoal Baylon? a última do lado direito da igreja, perto do altar. Teriam sido realizados no final de 1200, mas para uma datação mais exata são necessários estudos aprofundados e o exame detalhado de documentos. Quanto à questão da autoria, os elementos disponíveis a atribuem a Pietro Cavallini? um dos principais artistas daquele período em Roma, sobre quem há pouquíssima informação na literatura ? ou então a um aluno de sua escola.Durante séculos, essas imagens ficaram escondidas sob pinturas e telas mais recentes e ninguém sabia que existiam porque também não há referências em livros de arte. Trinta anos atrás, uma operação de limpeza evidenciou um pequeno fragmento que ilustrava parte de uma coluna e indicava que existia algo debaixo das pinturas do seculo 19. Só que os restauradores não foram adiante e tudo ficou parado até a retomada das obras, no começo desse ano, por iniciativa de um jovem especialista em historia da arte de 27 anos, Tommaso Strinati. Os restauradores, otimistas, acreditam que a pequena capela ? atualmente tomada por andaimes e fechada para visitas, deve estar forrada de afrescos, mas para conhecer tudo o que lá está escondido é preciso esperar o fim dos trabalhos, previsto para 2002. Todo o cuidado é pouco para não comprometer as pinturas. São usados bisturis, radiografias e diversas técnicas não invasivas, raspando muito delicadamente poucos centímetros por dia. Por ora só uma pequena parte foi totalmente revelada. As primeiras imagens surgiram em setembro passado. Numa das paredes, um retrato de Nossa Senhora com o menino Jesus é ladeado por S. João Batista e S. João Evalgelista. Na outra parede, Cristo está entre dois anjos, S. Pedro e um santo barbado ainda não identificado. Segundo os especialistas do Ministério da Cultura da Itália, a qualidade e o estado de conservação dos afrescos são extraordinários. O anúncio oficial da descoberta foi feito mês passado pela ministra da Cultura, Giovanna Melandri, na própria igreja de S. Maria in Aracoeli, uma das mais ricas de Roma. Essa igreja, que guarda uma imagem miraculosa do menino Jesus, é também a sede da ordem dos franciscanos e concentra um rico acervo artístico, de vários períodos. Mas a notícia já tinha sido divulgada de modo informal em setembro, logo que os restauradores encontraram as primeiras imagens.A euforia de Tommaso Strinati, responsável pelo grande achado, é indisfarçável.?Não se trata de uma competição entre Roma e Florença?, pontualiza ao indicar alguns detalhes iconográficos que comprovam a relação entre as duas escolas (de Roma e de Florença), como uma torre e alguns cupidos citados alguns anos depois nos afrescos da basílica de Assis e que foram danificados pelo terremoto de 1997. Em sua opinião isso comprovaria a tese de vários estudiosos, entre eles os italianos Federico Zeri e Bruno Zanardi, de que há componentes romanos nas histórias franciscanas de Assis e a participaçao de Giotto teria sido menos significativa. A genialidade do artista viria à luz mais tarde, com a capela Scrovegni de Pádua.Segundo a professora de história da arte medieval da Universidade de Roma, Marina Righetti, a descoberta tem um valor extraordinário porque ajuda a definir a história da pintura romana do final do século 13. E, devidamente e cientificamente analisada, pode ajudar a compreender melhor uma das articulações fundamentais da nova arte que vai levar ao humanismo e ao renascimento. Sobre a identidade do autor dos afrescos, Marina Righetti prefere esperar antes de citar nomes e chama a atenção para outro detalhe muito importante que vai animar o debate: ?Do lado esquerdo da capela há uma visão de edifícios arquitetônicos já com grande capacidade de representação em perspectiva, outro dado interessante para a arte romana de 1200?. Ela lembra que a Roma de então era uma cidade multicultural para onde afluíam os principais artistas da história da arte italiana e européia.

Agencia Estado,

02 de dezembro de 2000 | 13h54

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