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Aforismos ou historietas

Os velhos têm uma vantagem: eles não têm futuro. A mocidade é afligida pela responsabilidade dos amanhãs

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 03h00

Depois de 80 anos, há mais o que recordar do que esperar, dizia-me outro dia uma linda aluna. Ou será o contrário, respondi com uma ousadia de velho?

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A Antropologia me ensinou que o bicho-homem precisa de radicalismos, justamente porque é desprogramado. Necessita de muitos mediadores: fogo, abrigo, instrumentos, mitos, crenças e regras. Mas o que ele mais precisa é de coragem para carregar suas contradições. 

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Escrever é pensar. E o pensamento é como um passarinho que voa quando um estranho dele se aproxima. A escrita escancara um estranho diálogo de você com você mesmo. Ela o despe de invisíveis roupas convencionais. 

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O traidor é um de dentro que pulou a janela; o ingrato é um próximo que se distanciou. 

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Quando perco o sono e me transformo num ganhador de loterias, eu durmo o sono dos justos. Mas e se eu fosse premiado? A possibilidade produz agonia... Sucesso – êxito – é literalmente saída. Mas para onde a porta pode se abrir?

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Os velhos têm uma vantagem: eles não têm futuro. A mocidade é afligida pela responsabilidade dos amanhãs.

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Deu goteira aqui em casa – uma casa velha. Chamamos um telhadista. Ele verificou o apodrecimento das ripas e prometeu um conserto com 20 anos de garantia! Quando mencionei minha idade, fizemos um acerto realista porque eu não penso mais em termos de décadas...

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Fale menos com os outros e mais com você mesmo.

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A essa altura vale perguntar, com um velho jornalista, se é ele quem escreve no jornal ou se é o jornal que nele se escreve. 

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Deus nos expulsou do Paraíso e nossos pecados nos fizeram mortais. Mas ele foi misericordioso: não nos permitiu saber o dia da nossa morte.

Que Nossa Senhora Aparecida tenha piedade de nós.

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O político pensa que “faz política”, mas é justamente a “Política” quem o faz e desfaz. Ele, a despeito de seus planos secretos, está sujeito às circunstâncias e ao inesperado...

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Temos muitas formas de amor que vão das amizades fraternas das nossas adolescências, quando nossos amigos e nós éramos uma só pessoa, até aqueles laços nervosos com as moças que perturbavam porque pensávamos apenas nos seus rostos. Mas, um dia – eis que um dia –, elas ressurgem com lábios, braços, seios, coxas e púbis. Experimentamos o agitado amor genital e, com ele, a política: até onde ir e tocar.

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Tenho pensado em usar uma bengala. Meus oito netos (cinco mulheres e três homens) – todos eretos e luminosos nas suas juventudes e no seu generoso amor ao avô – dizem que eu vou chegar aos cem que eu secretamente sei que é, no fundo, um “sem”.

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O maior problema dos narcisistas é que eles não podem admirar a si mesmos como fazem os outros.

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Discurso de um canhoto: o fato é que minha mão e pé esquerdos são imanentes ao meu ser. Eles não me foram ensinados. Pelo contrário, o que tentaram fazer comigo foi corrigir-me, tratando meu canhotismo como um defeito. “Robertinho é canhoto...”, diziam resignados, e para meu espanto, os pais, avós e tios. Meus irmãos e amigos, porém, submetidos às opressões do mesmo “processo de socialização” que nos mandava calar a boca e a descobrir que “criança não tem vontade”, achavam bacana os meus surpreendentes chutes de esquerda.

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Numa certa universidade americana, dois diretores cujo mau-caráter era patente, tentaram expulsar um professor honesto. Atônito, ele superou sua pusilanimidade, reagiu e trabalhou naquela instituição por mais uma década. Está vivo, bem de saúde e, conquanto não tenha ficado rico ou famoso, continua ensinando e bebendo o seu uísque. Já os invejosos diretores morreram.

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Eu odeio listas e uniformes justamente que vão além do igualar e, nisso, conseguem realçar os que devidamente vestidos são os que mandam. Todos somos listados em algum lugar e por alguém. O problema é quando o alistamento não é motivado pelo alfabeto.

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Mark Twain dizia: “Tudo o que eu preciso saber é se trata de ser humano. Isto me é suficiente, pois não se pode ser coisa pior”.

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