Afirmação poética

Evaldo Mocarzel investe numa vertente mais sensorial em Quebradeiras

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2011 | 03h07

Evaldo Mocarzel é um dos mais ativos documentaristas brasileiros. Em outubro, lançou Cuba Libre; em novembro, À Margem do Lixo. E, agora, Quebradeiras. Na apresentação do filme, resumiu rapidamente as novidades que o traz para o seu cinema. "Nos anteriores, usei e abusei das entrevistas. Aqui, não faço entrevista e a palavra é só cantada. Também é meu filme de câmera parada, que eu fiz para ensaiar as composições do plano e a plasticidade. E, finalmente, é meu filme com música, com uma partitura encomendada a dois compositores."

Sobre a tal câmera parada, Evaldo contou a observação que lhe fez o também cineasta Arthur Omar. "É teu filme japonês." O diretor imprime aos personagens o rigor austero de Yasujiro Ozu, com a ressalva de que o mestre japonês filmava com a câmera baixa, do ponto de vista de um observador sentado na esteira de tatami. Evaldo também não coloca sua câmera na altura do olho. Mas o espectador provavelmente nem se dá conta dessas sutilezas. A paisagem é tão exuberante - os coqueirais da região do Bico do Papagaio, na divisa dos Estados de Maranhão, Tocantins e Pará - que o olho tende a se dispersar por aquele mundaréu de verde.

As protagonistas - as quebradeiras - andam para lá e para cá. Sentam-se no solo para desempenhar sua função. Elas quebram o coco de babaçu, tirando dele o seu sustento, desde a polpa, o caldo, até a casca. "É meu filme mais sensorial. Iniciou uma fase na qual prossigo." Um pouco na mesma vertente ele fez depois outro documentário sobre a São Paulo Cia. de Dança.

Quebradeiras foi feito com recursos de um edital do EtnoDoc. É o documentário mais etnográfico do autor. E o que significa isso para o espectador? A etnologia é o ramo da ciência que trata da divisão da humanidade em raças e culturas, estabelecendo suas características e peculiaridades. E a etnografia é o ramo da etnologia que trata da descrição das culturas - sem fazer comparações nem análises. As mulheres quebram coco, cantam canções próprias da região. Em alguns casos, Evaldo está fazendo o primeiro registro gravado - e filmado - dessas manifestações.

Sensorialidade, e por que não sensualidade? "As quebradeiras têm toda uma tradição cultural que identifica o coqueiro com o feminino. Em outros filmes, feitos antes, Evaldo colocou a ênfase no social. E não renega esse passado. "As quebradeiras têm um nível de organização e mobilização muito grande. Elas obtiveram reconhecimento social para a sua atividade e o que o filme faz é um reconhecimento poético para uma função que tem de ser resguardada." Evaldo gosta de citar o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu ao não fazer distinção entre ficção e documentário. "São irmãos siameses na arte cinematográfica. A ficção é mais uma camada da realidade."

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