Kimberly White/Reuters
Kimberly White/Reuters

'Afinal, tudo é possível'

Nem um marca-passo conseguiu parar o jazzista Dave Brubeck, que comemorou seus 90 anos no palco do Blue Note

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Os 90 anos do pianista e compositor norte-americano Dave Brubeck foram comemorados no último dia 6 com um concerto do próprio no Blue Note, o clube nova-iorquino de todas as grandes lendas do jazz - ele, inclusive, que revolucionou o gênero há 51 anos com o disco Time Out, usando compassos incomuns para os ouvidos da época. Brubeck entrou no palco do Blue Note com alguma dificuldade - ele colocou um marca-passo em outubro -, mas logo se sentiu em casa. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, ele fala do CD comemorativo que está sendo lançado no Brasil, Legacy of a Legend (Sony), do documentário que Clint Eastwood produziu sobre sua vida e escolhe seu disco favorito, entre os gravados por ele desde 1949.

Em Legacy of a Legend, acompanhamos os primeiros anos de seu quarteto. Como era, na época, sua relação com os artistas de vanguarda de outras áreas, como Jackson Pollock? Existia uma correspondência com a vanguarda visual americana?

As pessoas, às vezes, me comparam a Jackson Pollock por causa da ênfase na improvisação. Não o conheci pessoalmente e nem aos outros expressionistas abstratos, mas a capa de Time Out é uma pintura de Neil Fujita, então chefe do departamento de arte da Columbia Records. Na verdade, eu queria uma pintura de Miró, depois usada na capa de Time Further Out, mas como se aproximava a data de lançamento de Time Out sem termos uma resposta de Miró, Neil Fujita sugeriu uma de suas pinturas. Achei que era o quadro certo para Time Out. Essas pinturas da série Time foram escolhidas por expressar visualmente a música dentro da capa desses discos. Pessoalmente, eu era mais ligado aos poetas de vanguarda de San Francisco, como Kenneth Rexroth (um dos pais da geração beat) e Kenneth Patchen (pioneiro da poesia visual).

O senhor foi homenageado com um documentário produzido por seu amigo Clint Eastwood, In His Own Street Way. Duas passagens do filme nos lembram sua formação musical, a primeira sobre seu professor Darius Milhaud, que viveu no Brasil, e a segunda sobre a origem exótica de Blue Rondo à la Turk, em que revela como aprendeu com músicos de rua de Istambul e os pássaros o som inaudito desse clássico do jazz. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

Milhaud falava com frequência da época em que viveu no Brasil e como o país influenciou sua linguagem musical. Ele me relatou suas viagens pelo interior do país para ouvir canções folclóricas que o inspiraram a escrever algumas de suas mais populares e encantadoras peças. O conselho que me deu, então, foi viajar e manter os ouvidos abertos. Ele acreditava firmemente na importância de ouvir música folclórica de diferentes culturas, citando particularmente o caso de Stravinski e Bartók, cujos trabalhos foram marcados por essa aproximação. De algum modo, a introdução de ferramentas clássicas no jazz é semelhante à adoção de métodos de composição clássica de Milhaud para incorporar a música folclórica brasileira.

O senhor e o maestro e pianista João Carlos Martins costumam ignorar boletins médicos por causa da música. O que mudou em sua vida desde que saiu do hospital? Foi seu estilo de tocar, que, como definiu um crítico, trocou o "ataque do martelo e da bigorna" por uma abordagem mais suave?

Se você ouvir o disco Jazz Impressions of Japan (lançado em 1964) com o antigo quarteto, vai notar esse approach delicado ao piano, tanto como no recente Indian Summer (que ele gravou aos 86 anos). Esse toque delicado sempre esteve lá, ainda que pouco notado. Quanto à doença, você encontra meios de ajustar sua condição física à realidade. O maior exemplo disso é nosso amigo João Carlos Martins. Eu também fui inspirado pela memória de meu velho professor Milhaud, que continuou compondo por toda a vida, mesmo em seus grandes momentos de sofrimento.

Nos anos 1960 o senhor compôs um oratório sobre os ensinamentos de Jesus e uma cantata, The Gates of Justice, que fazia referência a textos bíblicos e às palavras do pastor e ativista político Martin Luther King. Ambas as experiências revelam um homem lutando contra o preconceito, a injustiça e o sentimento bélico no mundo, mais reforçado em outra cantata sua, Truth Is Fallen, o que faz do senhor um exemplo raro de músico engajado e religioso na história do jazz. Como é ser um homem de fé num mundo materialista como o nosso?

Mahatma Gandhi, Jesus, Buda, São Francisco de Assis e milhares de outros menos conhecidos viveram num mundo materialista e conseguiram se manter fiéis a seus princípios éticos e à fé espiritual. Em The Light in the Wilderness, por exemplo, eu tratei musicalmente a tentação de Cristo por Satanás quando este diz que pode colocar o mundo a seus pés. Lembrei-me de um episódio que aconteceu comigo logo após o término da 2.ª Guerra, quando visitei a Kehlsteinhaus de Hitler (projetada como uma casa de chá para o ditador numa montanha de Berchtesgaden, Alemanha). Hitler dominou tudo o que ele podia ver do alto dessa montanha, mas sabemos o que aconteceu com ele, um homem sem nenhum entendimento espiritual da vida.

Quando o senhor analisa a obra que construiu, o que sente ao recordar o fim do histórico quarteto com Paul Desmond, Eugene Wright e Joe Morello? Qual é o disco com essa formação que o senhor tem como seu favorito? O senhor usaria outra linguagem jazzística se tivesse de refazer Take Five hoje?

É difícil escolher, mas um de meus favoritos do clássico quarteto é o disco gravado ao vivo no Carnegie Hall (no dia 21 de fevereiro de 1963). Acho que foi, de fato, nossa melhor performance tocando músicas que estavam em Time Out e Time Further Out. Naturalmente, o álbum Time Out deve figurar também no topo da lista dos favoritos. Quanto a regravar Take Five, não mudaria algo que funciona há 50 anos. Ainda tocamos Take Five em todos os nossos concertos. Nunca me canso de tocá-la e acho que há ainda muito a explorar nela.

O senhor é o pianista oficial dos presidentes americanos desde John Kennedy, passando por Nixon e Reagan. O que sentiu quando Barack Obama foi eleito?

Senti que foi a concretização de tudo o que desejei e do ideal pelo qual lutei toda a minha vida. Sua eleição foi a afirmação os ideais dos EUA. Estava em Washington na época e a alegria das pessoas nas ruas era contagiante. Ele herdou uma situação terrível e está fazendo o melhor possível para resolvê-la, trabalhando contra a oposição e com ajuda mínima de políticos, que parecem mais interessados em se reeleger do que em resolver os problemas do país.

Sua música renasce entre as pessoas da nova geração. Ao que o senhor atribui o interesse dos jovens por álbuns como Time Out? Será seu potencial revolucionário ou sua natureza clássica?

Pelo que tenho testemunhado, diria que os jovens que se tornaram músicos de jazz creditam à série Time o mérito de despertar o interesse deles pelo gênero, isso há várias gerações. De algum modo, títulos como Blue Rondo à la Turk são redescobertos pelas novas gerações não apenas por causa da música, mas pela ideia de que, afinal, tudo é possível.

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