Afetos dissecados

Em uma França dividida pela questão do casamento gay, Kechiche põe na tela a relação de duas jovens para discutir a linguagem do corpo, em A Vida de Adèle

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2013 | 02h07

Está sendo uma temperatura tão inusitada, nesta época do ano, em toda a França, que os franceses já inventaram uma definição - é a primavera (printemps) pourri. Pequenos rasgos de sol, muito frio e chuva. Como em São Paulo, é possível ter todas as estações do ano num só dia, na Côte d'Azur.

Com o brilho de seu tapete vermelho empanado - ninguém espera para ver Leonardo DiCaprio e Marion Cottilard desfilarem sob guarda-chuvas -, o 66.º festival pode ter proporcionado algumas decepções, mas ainda há grande expectativa para os filmes de James Gray e Roman Polanski, reservados para hoje e amanhã (as sessões de imprensa e oficiais).

Ontem, e anteontem, a programação teve um upgrade de qualidade, como se a organização estivesse particularmente empenhada em confirmar uma das regras da Croisette - o melhor, quase sempre, fica reservado para o final. Houve bons filmes no começo - os de Jia Zhang-ke (Um Toque de Pecado) e Hirokazu Kore-eda (Tal Pai, Tal Filho) -, depois um ótimo Paolo Sorrentino (La Grande Bellezza) e aí vieram Abdellatif Kechiche (A Vida de Adèle) e Alexander Payne (Nebraska) Um autor magrebino francês e um norte-americano independente.

O cinéfilo que já espera com ansiedade pelos filmes do ainda jovem Kechiche - nasceu na Tunísia, em 1960 -, podem ir se preparando paras as ousadias de La Vie d'Adèle. Em La Captoive e Le Graine et la Mullet, o autor mostrou que, acima de tudo, a linguagem é o grande tema do seu cinema. Um pouco a linguagem do próprio cinema, mas a linguagem no seu sentido mais amplo, as transformações da língua francesa - a língua clássica de Corneille e Racine - pelos seus imigrantes.

Há muito disso em A Vida de Adèle. A personagem-título é uma garota estudante de literatura. Fala-se muito de livros, de pintura, Adèle, lá pelas tantas, vai lecionar numa escola para crianças, onde elas são alfabetizadas, mas a verdadeira linguagem em discussão é a do corpo. Adèle, como qualquer adolescente de sua idade, vive um turbilhão de transformações - no próprio corpo. Com as colegas, discute a urgência do seu desejo. Vai para a cama com um garoto. Ele é mignon, como dizem, as colegas, mas não é Brad Pitt. O sexo é bom, mas não um estouro. Adèle começa a ter fantasias com, garotas, e faz suas iniciação no lesbianismo com Emma.

São cenas de pegação como o público não vê com frequência no cinema de arte. Línguas, dedos, esfregação. Mas Kechiche não filma isso para estimular os baixos instintos de seu público. O que ele quer é discutir a linguagem do corpo, e quando há uma crise entre Adèle e Emma, ele filma a separação. Kechiche não é Asghar Farhadi, para quem o sexo termina sublimado. A cultura iraniana usa véus, as mulheres usam. O sexo fica fora da tela. Kechiche enche a tela com duas atrizes prodigiosas, Adèle (como sua personagem) Exarchopoulos e Léa Seydoux.

Hollywood se assustaria com elas e nenhuma das duas vai ganhar um Oscar, como Jennifer Lawrence. Pior para a Academia. Mais até do que Jia Zhang-ke em seu comentário sobre a China contemporânea (Um Toque de Pecado), A Vida de Adèle termina sendo o grande filme político desse festival.

A França está dividida pela questão do casamento gay. Todo dia ocorrem manifestações a favor e contra pelo país. Uma Palma de Ouro outorgada por um cineasta com o currículo de Steven Spielberg - e um jurado como Daniel Auteuil - agregaria bastante à causa. E ninguém levantaria sequer a suspeita de que o filme não teria (terá?) ganho por suas qualidades. A Palma poderá até não vir, mas esquecer as suas atrizes, especialmente, Adèle, é coisa que Spielberg não poderá fazer, sob risco de ser acusado de lesa-arte.

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