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Afeto e bactérias

Alguém se aproxima e me dá a mão. Isso é imensamente maior do que toda regra

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2017 | 03h00

Aprendi na infância: nunca cumprimente alguém que está comendo. Evite tocar quem está no meio de uma refeição. Jamais beije uma mulher que está entretida com a picanha. Cresci achando tais normas sábias. Há motivos de higiene básica. Também há certo constrangimento de estar com os lábios engordurados e ter de beijar alguém. Diante de comensais, a pessoa que chega deveria fazer um gesto de cabeça ou uma palavra de saudação e evitar o contato físico. Parece lógico, educado e respeitoso e com o intuito de preservar o direito e o espaço alheio. Sempre segui a regra.

De uns tempos para cá tem sido frequente alguém tentar me dar a mão enquanto como. Já tive várias reações: sorrir, saudar sem encostar, dizer algum elogio que atenue o fato de que não darei a mão que se ocupa de um temaki naquele instante. Os médicos são assertivos: as mãos são um foco privilegiado de condução de elementos infectantes. Não sou dotado de ablutomania (mania de lavar as mãos), mas eu me vejo constrangido com a tentativa. 

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Ter álcool gel ajuda a diminuir o problema. Você cumprimenta a pessoa e, novamente, volta ao campo cirúrgico da refeição com o auxílio do recurso desinfetante. O perigo permanece: se a pessoa observa você usar um elemento de assepsia ao se afastar, fica claro que você é um chato e maníaco. Recusar a mão estendida a outra pessoa é grave. O que fazer?

Não se trata de problema grave. O Brasil não está mal por causa de cumprimentos ou aulas de educação cabuladas por alguém. Nossa corporalidade costuma enfatizar o contato físico e o dano de recusá-lo é mais visível do que as bactérias invisíveis. Continuamos divididos entre a grosseria de se recusar o contato físico e o risco de estafilococos.

O cobertor é curto: ou descobrimos o pé da higiene ou sentimos frio no pescoço da amabilidade. Não existe boa solução. Como eu disse, o problema é menor. O central é uma divisão básica em toda ação humana sobre qual o mal menor, o dano mais controlável e a ação menos agressiva a tomar. 

Em quase todas as sociedades do planeta Terra, o toque tem mais códigos e é mais difícil do que na brasileira. Nós tocamos, pegamos, espanamos ombros, penteamos a pessoa a nossa frente, mexemos em seus botões, abraçamos com estardalhaço e a beijamos com devoção: uma, duas, três vezes; na bochecha, na fronte, nas mãos. Nosso hábito submerge tríptico mãos/refeição/higiene em um mar de afabilidade invasiva. O corpo, no Brasil, não é um perigo ou o inviolável hospedeiro de minha existência, é um convite e um mundo a ser compartilhado.

Há sociedades nas quais o contato físico, especialmente no mundo fora da família, é distinto. Rabinos tradicionais não apertam as mãos de mulheres que não sejam as de sua esposa. Famílias islâmicas conservadoras jamais aceitam, com tranquilidade, estranhos dando beijinhos nas suas filhas e mulheres. O norte-americano usual evita grandes toques corporais. Japonesas ficam muito constrangidas se invadimos suas pálidas bochechas com nossos lábios ocidentais. Aqui no Brasil, conservadores ou não, tocamo-nos sem liturgia, abraçamo-nos com força, beijamo-nos como norma: reordenamos o espaço físico do outro sem muita cerimônia. Corpo também é cultura. Esta crônica não teria razão de existir fora da Terra de Santa Cruz. 

Além da corporalidade específica do nosso ser tupiniquim, existe nossa relação com a regra. Somos sempre intérpretes da norma, raramente cumpridores do seu desiderato. “Sim, eu sei professor que não é para cumprimentar alguém que está comendo, mas é que eu fiquei feliz em encontrá-lo.” “Sim, ensinaram-me que não se deve beijar quem almoça, porém foi só essa vez.” Acrescentamos jurisprudência, exceções, subjetividades e alíneas aos artigos da lógica jurídica da etiqueta. O Brasil tem 207 milhões de técnicos de futebol e idêntico número de juristas experimentados. Discordar do magistrado, que decidiu por impulso, por ocasião, abandonando a jurisprudência, é incorrer em crime pior: ser chato, antissocial, pernóstico. 

Volto ao ponto. Como resolver o choque entre minhas mãos, a afetividade, a refeição e a septicemia? Há uma agravante. Tornei-me uma pessoa pública. Com isso, uma recusa minha em apertar as mãos é crime triplamente qualificado. Torno-me grosso, ranheta e meu gesto fruto da soberba absoluta, da vaidade imensa de quem é mais conhecido. Sucesso público é uma sinfonia complexa e muitos buscam as dissonâncias para abafarem a dor dos narcisos não exaltados. Amamos algumas pessoas públicas e, com a mesma rapidez, lançamos Ícaro ao mar se ele não louva o sol da nossa própria vaidade. 

Da batalha de egos ao mundo pedestre e cotidiano, como ficamos? A regra de educação existe. A contaminação é possível. A invasão de privacidade é terrível. Isso deve prevalecer? Concluo que não. O afeto deve prevalecer, mesmo sendo lógico o interdito. Alguém se aproxima e me dá a mão. Isso é imensamente maior do que toda regra. Minha mão já andou em regiões mais complexas do que outra mão humana e eu sobrevivi. Estenderei a mão sorrindo. O coração falará mais alto. Alguém me estendeu sua alma no gesto da mão. Eu aceito e me alegro. Bem, são minhas altas intenções. Em todo caso, sempre levo meu álcool gel... Perdoem-me. Boa semana para todos. 

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