Afazeres

Na minha lista de coisas a fazer está uma visita a uma exposição de listas. A Morgan Library de Nova York vai exibir, em junho, listas feitas por artistas garimpadas no imenso arquivo de arte americana da Smithsonian Institution, em Washington. Estou debruçada sobre o catálogo, curiosa sobre o lado mundano de grandes figuras. Uma das satisfações do voyeur é espiar a própria falibilidade nos outros.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2011 | 00h00

Picasso soletrou errado o nome de Marcel Duchamp na lista de recomendações para o lendário Armory Show de 1913, a primeira grande mostra de arte moderna nos Estados Unidos. Mas acertou em cheio na sugestão. O Nu Descendo a Escada, de Duchamp, causou sensação naquele ano, em Nova York.

O grande pintor abstrato Franz Kline soletrou banana com dois "n" na sua lista de compras no mercado. E, se alguém ainda duvida que o álcool ajudou a tirar o gênio do expressionismo abstrato da garrafa, é só olhar o recibo da loja de bebidas frequentada por Kline. No dia 31 de dezembro de 1960, ele mandou entregar no seu loft do Greenwhich Village, US$ 274.51 - uma nota preta, então - em vinho, uísque, conhaque, champanhe e vermute. Os convidados? Willem de Kooning, Philip Guston, Mark Rothko, Larry Rivers. Já não era mais uma carraspana de ano-novo, era uma instalação humana multimídia.

Noto que dependo cada vez mais de listas. Distraída - está aí um adjetivo que vai se tornando impiedoso com a idade. Tenho reputação de distraída, mas a passagem dos anos torna evidente que é impossível manter o mesmo número de pratos da memória no ar.

Não estou nem falando do dia em que fui surpreendida aqui perto, numa esquina da Broadway, com o telefone de casa no ouvido, convencida de que estava conversando ao celular (a ligação caiu, é claro). Os amigos tentam ser gentis: "Você faz coisas demais".

Faço listas e esqueço de consultá-las. Então, começo a espalhar listas e lembretes em papéis pela casa. Às vezes o apartamento parece uma via de Nápoles com tantas listas penduradas. Não esquecer: excesso de listas neutraliza sua eficácia.

Agora dei para fazer listas mentais negativas. Listas do que quero evitar. Queria que meu controle remoto tivesse um dispositivo para emudecer entrevistas diárias de Donald Trump sobre sua candidatura a presidente. Com o seu comb over - o cabelo crescido de um lado e penteado ao contrário para esconder a careca, Trump já ensaiou outras candidaturas para se promover. Agora que comanda um reality show, ele parecia ter desistido de ser levado a sério. Mas, de repente, disparou nas pesquisas de candidatos republicanos e mantém a tenda do circo armada. Sua bandeira política? Cobrar a certidão de nascimento de Barack Obama.

Como, por ofício, não posso deixar de consumir notícias em várias mídias ou abrir o email, gostaria que alguém inventasse um software para bloquear assaltos aos sentidos. Um software que me permitisse uma certa alienação seletiva. Não é melhor ter a ilusão de que vivemos num mundo onde Toddlers and Tiaras, além de não ser um reality show, não é realidade? Explico: Toddlers and Tiaras explora o asqueroso e pornográfico mundo dos concursos de beleza para crianças de menos de 6 anos. É um desfile de abuso infantil travestido de entretenimento que seria fechado por qualquer juiz de menores.

Mas a melhor lista é a que contém promessas ("Não esquecer que volto a ver sir Derek Jacob ao vivo num palco, em maio"). Nessa categoria, a exposição da Morgan Library traz um exemplo adorável. É o rol de qualidades que o grande arquiteto modernista finlandês Eero Saarinen encontrou numa jornalista nova-iorquina.

Aline Bernstein Louchheim era crítica de arte do New York Times, em 1953, quando foi entrevistar o arquiteto para escrever um artigo sobre um prédio que ele havia projetado em Michigan. Saarinen era casado e a atração mútua foi instantânea. Aline lembra que, já no segundo encontro, eles se sentiram "estranhos, espantados e ofegantes". O casamento aconteceu no ano seguinte e o arquiteto escreveu, em elegantes letras maiúsculas, a lista em que celebra, com variações, a inteligência (primeiro item), a beleza, a generosidade e o senso de humor da nova mulher. O décimo segundo e último item era:

"Que quanto mais escavo as fundações, mais e mais encontro o granito mais sólido sobre o qual você e eu podemos construir a nossa vida juntos". Uma pequena seta aponta para a frase, com a observação: "Eu sei que esta sentença não está boa".

Imagino que a bela Aline teve a inteligência e o bom humor de não reclamar.

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