Aerosmith chega arranhado, mas com o som ileso

Banda toca enxurrada de hits para 38 mil fãs no Parque Antártica e reafirma um preciso timing de entretenimento

Crítica: Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2010 | 00h00

Alma. Tyler, do Aerosmith, no Parque Antártica: “Comme ci, comme ça”, disse à plateia

    Parece piada que o Aerosmith tenha cogitado continuar sem Steven Tyler à frente da banda, porque não há Aerosmith sem Steve Tyler. Isso ficou evidente no show de sábado à noite, em São Paulo, da excursão Cocked, Locked, Ready To Rock Tour, para um Parque Antártica lotado, cerca de 38 mil afortunados fãs. A boca descomunal, os gritinhos de traveco animado, a aeróbica incansável, a voz estridente um tanto arranhada pelo tempo, a habilidade teatral em passar de um tema romântico para um blues tradicional pungente: Tyler é a alma desse circo mambembe de excessos.

A provocação contínua da figura quixotesca de Steven Tallarico, o Steven Tyler, está na base do sucesso de quatro décadas do grupo. Sexagenário que volta e meia vai às clínicas de reabilitação, ele surpreende com a boa forma e a disposição. Deita-se sobre as caixas de som, abre a bocarra para as câmeras, atropela e cai sobre o baixista de propósito, faz percussão de penetra na bateria do colega Joey Kramer.

Sim, é claro que está ali ao lado a figura mítica de um guitar hero, o sobrenatural Joe Perry, que (tanto quanto Keith Richards, Eric Clapton e Jimi Page) sabe precisamente onde nasceram as faíscas dos solos de guitarra que empunha com tanta propriedade: num certo Delta do Mississippi, como faz questão de lembrar a todo momento.

A longevidade do Aerosmith, então (que não está apenas fundada numa infinidade de baladas "posers", como dizem seus detratores), está ancorada em uma facilidade em brincar com os dogmas do hard rock, tornando-o francamente híbrido, e de reciclar-se através dos anos - chegou a dialogar com o hip-hop de Run DMC. Com Steven Tyler na gaitinha, Joe Perry na Gibson e Kramer "dublando" John Paul Jones, esfolando uma versão de Baby Please Don"t Go, eles conseguem evocar tanto a era do Led Zeppelin quanto de Muddy Waters. "O que Muddy Waters fez por nós é o que devemos fazer pelos outros", diz Keith Richards no livro recém-lançado O Que Keith Richards Faria no Seu Lugar? (Editora Fontanar).

Baby, Please Don"t Go é um blues tradicional composto por Big Joe Williams, bluesman dos anos 1960, e que tem servido para o rock"n"roll prestar tributo aos originadores - já foi regravada, além do Aerosmith, por AC/DC, Van Morrison, Ted Nugent, Budgie, entre outros. Tocá-lo como o tocaram Joe Perry e Steven Tyler é algo que requer mais do que vontade.

Penachos. Logo após cantar o hit Jaded, já uma atualização da era da MTV, alguma fã mais ouriçada atirou uma calcinha vermelha ao palco, que Tyler recolheu com uma interjeição engraçada e pendurou no microfone do colega Joe Perry. Tyler, num momento Roberto Carlos ecológico, apareceu em cena às 21h40 com uns penachos pendurados nos cabelos, calça e raincoat prateados. Joe Perry vestia uma espécie de roupa de Nick Shield, o agente secreto das HQs, com uma bandeira norte-americana estilizada em volta do pescoço e um cavanhaque cafa que o assemelhava ao saudoso Clóvis Bornay.

Impressiona o desfile de hits do grupo, o que reforça seu sucesso na atualização permanente: Dream On, Crazy, Cryin", Livin" on the Edge, Sweet Emotion e Back in the Saddle (recentemente tocada no mesmo palco, no mesmo Parque Antártica, pelo metaleiro Sebastian Bach, que abriu para o Guns "N Roses).

Calado e postado ao lado direito do Deus Pai estava o baixista Tom Hamilton, que fundou a banda na Filadélfia nos estertores dos anos 60 e ajuda a reagrupar o combo quando este já estava entrando em combustão espontânea (muitas vezes, dizem, a última em dezembro). Hamilton é o elemento contemporizador do grupo, um frágil elemento de equilíbrio mantendo o caos afinado. Ao fundo, o baterista Joey Kramer foi chamado, após Cryin", para dar o seu recado, e fez o número já conhecido tocando a bateria com os punhos na abertura de Lord of the Thigs. Sempre funciona.

Quando voltou para o bis, com Walk This Way, o Aerosmith já podia enxergar lá de cima os fãs extenuados, mas ainda firmes esperando pelo desfecho. Foram duas horas de um show que tinha cheiro de despedida definitiva. Dizem que o adjetivo "competente" nunca deveria ser usado para descrever uma banda de rock. Mas, nesse caso, é difícil fugir dele.

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