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A advogada Manuela Lourenção, de 36 anos, foi a primeira a fazer a ligação entre o vídeo de Roberto Alvim e o discurso de Joseph Goebbles Arquivo Pessoal

Advogada que apontou ligação de discurso de Alvim com nazismo diz que foi 'por acaso'

A primeira a fazer a ligação foi a advogada trabalhista Manuela Lourenção, de 36 anos, que assistiu ao vídeo em que o então secretário de Cultura parafraseia o ministro da Propaganda de Adolf Hitler

Julia Lindner, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 18h14

BRASÍLIA — A associação do discurso de Roberto Alvim com o do nazismo foi feita quase por acaso. A primeira a fazer a ligação foi a advogada trabalhista Manuela Lourenção, de 36 anos, que assistiu ao vídeo em que o então secretário de Cultura parafraseia o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, com dois amigos na noite de quinta-feira, 16.

Em conversa com o Estadão/Broadcast, Manuela disse que na hora não percebeu a referência, mas que estranhou o cenário e a trilha sonora. "Foi ao acaso, não trabalho com isso. Era meio que uma brincadeira de teoria da conspiração", afirmou.

No vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, o agora ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, faz um discurso em tom nacionalista ao som de uma ópera de Richard Wagner, compositor alemão admirado por Hitler.

Manuela então transcreveu um dos trechos do discursos de Alvim e pesquisou no Google. O resultado a surpreendeu: uma discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels a diretores de teatro em maio de 1933.  

A referência está no livro Joseph Goebbels: Uma Biografia, de Peter Longerich.

O trecho que chamou a atenção da advogada foi: "Ou então não será nada". 

"Estava vendo o vídeo com dois amigos e começamos a ver a estética, a cruz presente brasão da Hungria... E aí um deles falou que a música é do (Richard) Wagner (compositor alemão). Pensei, 'deve ter mais referências (ao nazismo), vamos ver'", disse Manuela.

"A frase 'ou então não será nada" me chamou muito a atenção, eu encafifei com ela porque parecia uma frase de efeito, e aí surgiu a biografia do Goebbels."

Após a descoberta, por volta das 23h, Manuela foi ao Twitter e comentou que a citação de Alvim era "plágio" propagandista nazista. A música de Wagner, compositor que Hitler admite em sua biografia ter servido como uma inspiração, segundo Manuela, foi identificada por um amigo.

 


Ela afirmou que começou a ver a repercussão do caso, inicialmente compartilhado pelo site Jornalistas Livres, cerca de duas horas depois de sua publicação, no início da madrugada. Pela manhã, o termo "Goebbels" já era o tema mais comentado da rede social.

"Para uma pessoa fazer uma associação tão clara (com o nazismo), achei que tivesse algum respaldo do governo", disse a advogada, que afirmou não imaginar que o secretário seria demitido.

"O conteúdo (do vídeo de Alvim) não é diferente do que prega o governo Bolsonaro. Todo o resto que ele falou, de acabar com 'arte degenerada', tudo está de acordo com o discurso do Bolsonaro", afirmou a advogada.

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Regina Duarte é convidada para a secretaria de Cultura de Bolsonaro

Uma das mais famosas apoiadoras do presidente Jair Bolsonaro, atriz havia criticado a nomeação de Alvim

Tânia Monteiro e Mateus Vargas, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 18h33
Atualizado 22 de janeiro de 2020 | 12h15

BRASÍLIA — A atriz Regina Duarte foi convidada para assumir a secretaria de Cultura do governo federal após a demissão de Roberto Alvim, demitido nesta sexta-feira depois de divulgar vídeo com discurso com referências nazistas. Em entrevista à Rádio Jovem Pan, a atriz disse estar avaliando ainda se aceita. Segundo apurou o Estado, a ideia do governo é levar um nome de peso, reconhecido no meio cultural, para assumir o posto.

"Estou com este convite, me assusta muito", afirmou Regina em entrevista à Jovem Pan. "Não é a primeira vez que sou convidada para esse cargo, me assusta muito, porque tem um ministério complicado aí (risos)..."

Regina Duarte já havia sido convidada para integrar o governo no início do ano passado, mas recusou. A atriz é uma das mais famosas apoiadoras do presidente Jair Bolsonaro e já elogiou a política do governo no setor. "Eu não estou preparada, não me sinto preparada para isso, acho que a gestão pública é uma coisa muito complicada e uma pasta como a da cultura muito mais", disse a atriz à rádio. Segundo ela, a resposta deve ser dada até segunda-feira.

 

 

A aproximação de Duarte com Bolsonaro começou ainda na campanha eleitoral de 2018. Na ocasião, a atriz visitou o então candidato em sua casa, no Rio de Janeiro, e imagens do encontro foram divulgadas nas redes sociais.

Quando Bolsonaro foi eleito, o ministro da  Cidadania, Osmar Terra, foi até São Paulo se encontrar com ela para discutir políticas do governo para a área da cultura. A atriz, segundo apurou o Estado, foi uma das defensoras de Alvim na época em que ele assumiu uma diretoria da Fundação Nacional das Artes (Funarte), cargo que ocupou antes de ser alçado a secretário.

Em novembro, no entanto, quando Alvim assumiu a Secretaria de Cultura, ela criticou a nomeação de Alvim. Nas redes sociais ela elogiou a decisão de Bolsonaro em mudar a pasta de ministério (da Cidadania para o Turismo), mas também disse não 'aprovar' totalmente a escolha do ex-diretor da Funarte para o cargo.

"Não posso dizer que aprovo esta nomeação. Quem me conhece sabe que se eu pudesse opinar, teria sugerido outro perfil de pessoa para ocupar cargo de tal responsabilidade. Alguém com mais experiência em gestão pública e mais "agregadora" da classe artística", escreveu na época.

Não é a primeira vez que a atriz se envolve na política. Em 2002, Regina Duarte foi destaque da campanha “Eu tenho medo”, contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. No vídeo da propaganda eleitoral do então adversário de Lula, o tucano José Serra (PSDB), a atriz declarou que tinha “medo” de Lula e que estava preocupada com um possível retrocesso na área econômica com a vitória do PT.

Há mais de 50 anos na televisão brasileira, Regina Duarte contou em entrevista ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, em maio do ano passado, que após declarar apoio a Bolsonaro passou a ser chamada de "fascista".  “Em 2002, fui chamada de terrorista e hoje sou chamada de fascista, olha que intolerância?”, desabafou na ocasião. 

A atriz afirmou que sente uma certa censura por parte de pessoas que são oposição. “E eu achando que vivia em uma democracia, onde eu tenho o direito de pensar de acordo com o que eu quero. Eu respeito todo mundo que pensa diferente de mim. Não saio xingando as pessoas por aí”, disse à época.

Na mesma entrevista, a atriz afirmou que estava escrevendo uma biografia, relembrou trabalhos históricos na TV, como a série Malu Mulher, e a participação em novelas, sempre no papel de Helena. 

Sobre o protagonismo de Regina Duarte interpretando Malu, uma personagem essencialmente feminista e contra os ditos valores morais da época, a atriz revelou: “Eu nunca me declarei feminista, mesmo fazendo a Malu (a série Malu Mulher). Eu não acho que as coisas são por aí. Acredito que há caminhos intermediários. Eu fui e continuo conservadora. Eu só tenho medo de ficar velhinha e dizer: ‘Ah, esse mundo está perdido!’. Que horror!”, concluiu.

 

Outros nomes são cotados: André Sturm e Josias Teófilo

Além da atriz, outros dois nomes foram citados nos bastidores por integrantes do governo como possíveis substitutos de Alvim na Secretaria de Cultura. São eles André Sturm, atual secretário de Audiovisual do governo federal, e Josias Teófilo, diretor de O Jardim das Aflições, que retrata as ideias do escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo.

O Estado apurou que Sturm está em São Paulo e não procurado. Antes de entrar no governo federal, em dezembro, ele havia sido secretário de Cultura do governo de João Doria (PSDB) na cidade de São Paulo.

O próprio Alvim convidou Sturm ao governo de Jair Bolsonaro durante um almoço na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Ele foi anunciado à época como nome de "conciliação" em meio a atritos do então chefe da Cultura com o setor.

Já Teófilo é lembrado no governo por ter sido cotado a secretário do Audiovisual do governo no passado. Ele defendeu nesta sexta-feira, 17, nas redes sociais, a saída de Alvim do cargo e disse que rompeu com o então secretário quando Katiane Gouvêa foi nomeada ao governo. "Ele a demitiu e me ligou pedindo desculpa e pedindo indicação para a Secretaria do Audiovisual. Me neguei a indicar um nome porque sabia da gravidade da situação", disse Teófilo.

Pessoas da área de cultura do governo afirmam estar assistindo ao "bombardeio" causado pelo discurso de Alvim. Eles afirmam estar à espera de uma definição sobre para onde caminhará a pasta. A dúvida é se Bolsonaro dobrará a aposta em nome conservador, discípulo de Olavo de Carvalho, ou se apostará em alguém mais “técnico”, e que não seja uma usina de polêmicas.

Existe ainda indefinição sobre o futuro da equipe trazida por Alvim para a Cultura. Entre eles, Sérgio Camargo, que disse existir um “racismo nutella” no Brasil e teve nomeação à Fundação Palmares suspensa pela Justiça.

A saída de Alvim deixa pontas soltas na Cultura. No fim do mês, o Conselho Superior de Cinema se reuniria para direcionar incentivos ao setor. A situação agora é de "insegurança".

Há ainda indefinições sobre o Prêmio Nacional das Artes, anunciado com o discurso que causou a queda de Alvim, que distribuiria cerca de R$ 20 milhões. Além disso, apesar do comando da Cultura ter sido levado ao Ministério do Turismo, ainda falta um decreto para levar cargos comissionados à pasta de Marcelo Álvaro Antônio.

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Bolsonaro demite Roberto Alvim da Secretaria de Cultura

Após polêmica em vídeos com referências ao nazismo, presidente determina a saída do responsável pela pasta

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 11h25
Atualizado 17 de janeiro de 2020 | 18h49

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro demitiu o secretário de Cultura, Roberto Alvim, após a polêmica referência ao nazismo em vídeo divulgado nas redes sociais. Segundo o Estado apurou com auxiliares próximos de Bolsonaro, a situação de Alvim ficou "insustentável". A exoneração foi publicada numa edição extra do Diário Oficial da União (DOU).

"Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência", postou o presidente no Facebook no início da tarde desta sexta. "Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum". afirma o presidente.

Em vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, Alvim cita textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels. Após a demissão de Roberto Alvim, o vídeo foi excluído das redes sociais.

"A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", diz Alvim no vídeo.

"A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

A frase causou polêmica entre artistas e até mesmo entre apoiadores do governo de Bolsonaro, que cobram a demissão do secretário. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também foi às redes sociais dizer que é preciso afastar Alvim "urgentemente" do cargo.

Durante a manhã de hoje, Bolsonaro recebeu diversos telefonemas de aliados para demitir Alvim. Segundo apurou o Estado, uma ligação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi decisiva para que o presidente decidisse afastar o secretário. O argumento foi de que Alvim "ultrapassou todos os limites da civilidade". Alcolumbre é judeu e divulgou nota em que repudiou o discurso do auxiliar de Bolsonaro.

"Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo", afirmou Alcolumbre na nota.

A entrevista exclusiva do secretário ao Estado pela manhã também foi levada em consideração. Na conversa,  Alvim admitiu que trecho de seu discurso foi inspirado declaração do ideólogo nazista Joseph Goebbels. Ele afirmou que repudia o nazismo, mas que "as ideias contidas na frase são absolutamente perfeitas". O secretário disse que "assina embaixo" da frase. "A filiação de Joseph Goebbels com a arte clássica e com o nacionalismo em arte é semelhante a minha e não se pode depreender daí uma concordância minha com toda a parte espúria do ideal nazista", disse o secretário.

Na Esplanada dos Ministérios, a sensação foi de alívio com a decisão de demitir Alvim. A avaliação é de que o secretário deu "um tiro de bazuca" e provocou sua própria saída.

Mais cedo, em entrevista ao Estado, o secretário disse ter conversado com o presidente Jair Bolsonaro e o "convencido" de que a citação de uma frase similar a do propagandista do nazismo foi uma "coincidência retórica". Segundo ele afirmou à reportagem, o presidente disse a Alvim que o secretário permaneceria no cargo.

 

Na entrevista exclusiva ao Estado, Alvim admitiu que trecho de seu discurso foi inspirado declaração do ideólogo nazista Joseph Goebbels. Ele afirmou que repudia o nazismo, mas que "as ideias contidas na frase são absolutamente perfeitas". O secretário disse que "assina embaixo" da frase. "A filiação de Joseph Goebbels com a arte clássica e com o nacionalismo em arte é semelhante a minha e não se pode depreender daí uma concordância minha com toda a parte espúria do ideal nazista", disse o secretário.

O dramaturgo Roberto Alvim foi nomeado em novembro ao cargo de secretário de Cultura, semanas após ofender a atriz Fernanda Montenegro nas redes sociais. Ele já estava no governo desde junho, quando foi nomeado diretor da Funarte.

Alvim surpreendeu a classe artística ao declarar voto em Bolsonaro em 2018, após o atentado a facada sofrido pelo então candidato a presidente. O dramaturgo dirigiu por três décadas peças de sucesso de crítica, mas afirma ter mudado radicalmente de perfil político após se curar de uma grave doença.

Para Entender

As idas e vindas da Cultura no governo Bolsonaro

Ministério foi extinto em janeiro para criação da Secretaria Especial de Cultura, que foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, depois, ao do Turismo; trocas nas lideranças dos órgãos geraram críticas ao governo

 

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Secretário da Cultura diz que apesar de 'origem espúria', 'assina embaixo' de frase de nazista

Roberto Alvim disse ter 'convencido' o presidente Jair Bolsonaro de que a citação a Joseph Goebbels foi uma 'coincidência retórica'

Mateus Vargas, de Brasília, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 10h17

O secretário de Cultura, Roberto Alvim, afirmou ao Estado na manhã desta sexta-feira, 17, ter "convencido" o presidente Jair Bolsonaro de que a citação de uma frase similar a do propagandista do nazismo, Joseph Goebbels, em um discurso nas redes sociais, foi uma "coincidência retórica". Apesar de reconhecer a associação e afirmar repudiar o regime de Adolf Hitler, Alvim disse concordar com o conteúdo da frase.

"A origem é espúria, mas as ideias contidas na frase são absolutamente perfeitas e eu assino embaixo", disse o secretário. Segundo Alvim, na conversa com Bolsonaro, o presidente lhe garantiu que não será demitido.

Mais tarde, no entanto, o presidente Jair Bolsonaro decidiu demitir o secretário de CulturaRoberto Alvim. Segundo o Estado apurou com auxiliares próximos de Bolsonaro, a situação de Alvim ficou "insustentável"

 

 

Questionado sobre a opinião de Goebbels em relação à arte, Alvim diz repudiar o nazismo, mas admite proximidade com a "filiação" que o propagandista tinha com a arte.

"A minha opinião sobre o regime nazista é a opinião de qualquer ser humano dotado de um mínimo de sanidade mental. Trata-se de um regime genocida. Tão genocida quanto o regime de [Joseph] Stalin, de Mao Tsé-Tung, portanto um regime absolutamente execrável. A filiação de Joseph Goebbels com a arte clássica e com o nacionalismo em arte é semelhante à minha e não se pode depreender daí uma concordância minha com toda a parte espúria do ideal nazista", afirmou ao Estado.

 

 

Em vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, Alvim cita textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels.

"A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", diz Alvim no vídeo.

"A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

Assista abaixo:

O texto lido por Alvim em tom solene e pausado é bem mais longo, com outros trechos claramente inspirados pela ideia copiada de Goebbels. Em sua longa fala, o secretário diz que a cultura sob Bolsonaro terá inspiração nacional, religiosa.

"Trata-se de um marco histórico nas artes brasileiras", diz ele sobre o prêmio. "2020 será o ano de uma virada histórica. 2020 será o ano do renascimento da arte e da cultura do Brasil", encerra.

 

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As idas e vindas da Cultura no governo Bolsonaro

Ministério foi extinto em janeiro para criação da Secretaria Especial de Cultura, que foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, depois, ao do Turismo; trocas nas lideranças dos órgãos geraram críticas ao governo

 

A frase causou polêmica entre artistas e até mesmo entre apoiadores do governo de Bolsonaro, que cobram a demissão do secretário. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também foi às redes sociais dizer que é preciso afastar Alvim "urgentemente" do cargo. Leia mais sobre as críticas a Alvim aqui.

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Saiba quem é Roberto Alvim, o ex-secretário da Cultura que citou ideólogo nazista

Conservador, o dramaturgo já esteve à frente da Funarte, atacou a atriz Fernanda Montenegro e é discípulo de Olavo de Carvalho; secretário foi demitido

Redação, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 10h33
Atualizado 17 de janeiro de 2020 | 18h37

O ex-secretário especial da Cultura do Ministério da Cidadania, Roberto Alvim, que citou trechos do ideólogo nazista Joseph Goebbels ao anunciar o Prêmio Nacional das Artes na última quinta-feira, era apontado nos bastidores do Palácio do Planalto como um nome de confiança do presidente Jair Bolsonaro, fiador de sua indicação ao governo federal. Alvim foi demitido do cargo nesta sexta-feira, 17.

Antes de assumir a secretaria especial da Cultura, o dramaturgo já havia trabalhado no governo à frente do Centro de Artes Cênicas (Ceacen) da Funarte.

Alvim é discípulo do escritor Olavo de Carvalho e defende o engajamento de artistas conservadores em pautas do governo. A aproximação com Bolsonaro se deu durante a campanha eleitoral de 2018, tendo declarado apoio ao então candidato do PSL ao Palácio do Planalto.

Quando estava na Funarte, em setembro, Alvim provocou forte reação da classe artística ao atacar com ofensas a atriz Fernanda Montenegro. Em uma postagem no Facebook, chamou Montenegro de "intocável" e "mentirosa". Em outro post, fez comentários sobre "arte de direita" de "arte de esquerda". "Arte de esquerda é doutrinação de todos os espectadores; arte de direita é emancipação poética de cada espectador."

O convite para Alvim trabalhar no governo se deu pelo fato de mostrar-se alinhado com as ideias do presidente e ter apresentado um projeto que impressionou aliados de Bolsonaro. Não à toa, quando o presidente nomeou Alvim para o cargo mais alto da pasta de Cultura, em novembro, disse que ele teria “porteira fechada”. A expressão é usada quando o gestor tem total liberdade para compor sua equipe e uma forma de dizer que ele chega ao cargo com prestígio.

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As idas e vindas da Cultura no governo Bolsonaro

Ministério foi extinto em janeiro para criação da Secretaria Especial de Cultura, que foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, depois, ao do Turismo; trocas nas lideranças dos órgãos geraram críticas ao governo

Mudanças feitas por Alvim na pasta acentuaram o perfil mais conservador para a área. Diversos funcionários nomeados por ele são alinhados com o perfil ideológico cristão e conservador do secretário. Há, por exemplo, entre os integrantes do seu grupo membros da Cúpula Conservadora das Américas e defensores da promoção de filmes que destacam valores patrióticos e de preservação da família, além do fim da Ancine, a Agência Nacional de Cinema.

Entre as peças dirigidas por Alvim como dramaturgo está Kiev, de 2017. O espetáculo trata sobre a Revolução Russa e mostra a história de uma família que retorna à Rússia após o governo de Stalin e encontra sua casa prestes a ser demolida, com uma piscina apodrecida cheia de cadáveres de presos políticos. Formado em Artes Cênicas pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras – RJ), Alvim traduziu obras de autores como Ésquilo, Harold Pinter, Samuel Beckett, Gregory Motton, Arne Lygre, Henrik Ibsen, Jean Genet, William Shakespeare e Richard Maxwell. É autor do livro teórico Dramáticas do Transumano, publicado em 2012.

Club Noir

Fundado em 2008 por Alvim e sua mulher, a atriz Juliana Galdino, o Club Noir (espaço teatral situado na Rua Augusta, em São Paulo) foi palco de experimentações dramatúrgicas, especialmente do teatro do inglês Harold Pinter – um dos primeiros trabalhos foi O Quarto, desse escritor. Eram experimentações, marcadas por atores estáticos em cena e uma iluminação quase nula. Os trabalhos foram premiados pela APCA, além de indicações para o Prêmio Shell.

Ao mesmo tempo em que promovia experimentações, o espaço padecia pela falta de recursos a ponto de, em junho de 2019, Alvim e Juliana serem obrigados a fechar o espaço, alegando uma dívida de R$ 30 mil referente a aluguel, IPTU e contas de luz.

O dramaturgo é o terceiro nome no comando da Cultura no governo Bolsonaro. Antes, passaram pelo cargo o economista Ricardo Braga e Henrique Pires, que deixou o governo por se opor à suspensão do edital que selecionava obras sobre a temática LGBT para exibição em TVs públicas.

Repercussão de vídeo de Roberto Alvim

Após a polêmica em que se envolveu, o secretário de Cultura, Roberto Alvim, afirmou ao Estado na manhã desta sexta-feira, 17, ter "convencido" o presidente Jair Bolsonaro de que a citação de uma frase similar a do propagandista do nazismo, Joseph Goebbels, em um discurso nas redes sociais, foi uma "coincidência retórica". Apesar de reconhecer a associação e afirmar repudiar o regime de Adolf Hitler, Alvim disse concordar com o conteúdo da frase.

"A origem é espúria, mas as ideias contidas na frase são absolutamente perfeitas e eu assino embaixo", disse o secretário. Horas depois, ele foi exonerado do cargo.

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Antes de demissão, Alvim brinca com boneco que ‘assassina’ Lula e ironiza polêmica sobre nazismo

'Continuamos no âmbito da Segunda Guerra Mundial', ironizou, horas antes de deixar o governo. 

Mateus Vargas, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 14h47

BRASÍLIA - "Chegou bem no dia em que o pau tá quebrando, né? Chegou no dia ‘D’”, disse o dramaturgo Roberto Alvim ao Estado, nesta sexta-feira, 17, quatro horas antes de sua demissão. O comentário do agora ex-secretário de Cultura foi feito logo no começo da entrevista, antes de ele se opor ao nazismo, mas “assinar embaixo” das ideias “perfeitas” de Joseph Goebbels, ideólogo do governo alemão de Adolf Hitler, adaptadas para o discurso de lançamento do que seria o carro-chefe da gestão de Jair Bolsonaro para a área cultural.

 

 

“Continuamos no âmbito da Segunda Guerra Mundial”, ironizou Alvim, até então sorridente e em tom confiante. Em sua mesa, além de uma cruz da Região das Missões (RS) e de um frasco de água benta, o então secretário exibia um pequeno boneco armado do “Doutrinador”, personagem que assassina políticos acusados de corrupção em uma história em quadrinhos. 

“É o Doutrinador. Ele matou o Lula num quadrinho”, explicou Alvim, emendando com uma longa risada, numa referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O boneco custa cerca de R$ 90 em lojas virtuais. Uma delas o descreve como “um  anti-herói genuinamente brasileiro”, que escolheu “combater a roubalheira da elite política de uma forma radical: aniquilando os mau políticos, caçando corruptos de todas as matizes ideológicas”.

 Àquela altura, o ainda secretário dizia acreditar que continuaria na mesma cadeira, porque Bolsonaro havia garantido sua permanência na equipe. “Conversei com o presidente hoje de manhã. Ele se convenceu plenamente do que falei. Ele sabe, me conhece. Sabe que minhas intenções são absolutamente nobres nesse campo”, disse Alvim. Quatro horas depois, o presidente confirmou, em nota, a demissão que já era dada como certa.

Na mesma manhã, após repercussão da entrevista ao Estado, Alvim cancelou as agendas que restavam no dia. Foi ao Palácio do Planalto e colocou o cargo à disposição. “A filiação de Joseph Goebbels com a arte clássica e com o nacionalismo em arte é semelhante à minha e não se pode depreender daí uma concordância minha com toda a parte espúria do ideal nazista”, afirmou. “Gravou essa p*?”, emendou ele, ao cobrar que a frase fosse incluída na reportagem.

Alvim disse não saber quem havia incluído a adaptação da frase nazista no seu discurso, mas avisou que não faria “caça às bruxas” para encontrar um culpado. Afirmou, ainda, que um trecho pode ter sido inspirado na declaração nazista sem que ele soubesse.

Ao Estado, Alvim destacou que o Prêmio Nacional das Artes, iniciativa que distribuiria cerca de R$ 20 milhões, seria o começo da “refundação” da cultura brasileira, baseada em conceitos conservadores de artes, mas sob a promessa de não promover bandeiras da direita política. Ainda fazendo planos, o então secretário afirmou torcer para que a população, num futuro breve, consumisse obras clássicas em massa. O cenário idealizado não impediria a reprodução do funk ou hip hop, apesar de ele “abominar” os ritmos. “Agora, nada impede que se crie uma música com a batida do funk e que seja uma música interessante em alguns sentido estético, embora eu ache muito complicado”, argumentou.

 

 

Derrocada. Na quinta-feira, 16, ao lançar um edital de prêmios da Cultura, durante transmissão nas redes sociais com Bolsonaro, Alvim ouviu elogios do chefe. “Agora temos, sim, um secretário de Cultura de verdade. Da maioria da população brasileira. População conservadora e cristã. Muito obrigado por ter aceitado essa missão”, disse o presidente.

Alvim foi o terceiro nome a ocupar o cargo em cinco meses. O primeiro, Henrique Pires, deixou a pasta em agosto do ano passado, acusando o governo de censurar obras LGBT. O economista Ricardo Braga, por sua vez, ficou apenas dois meses e foi transferido para uma secretaria no Ministério da Educação.

A repercussão negativa sobre a frase adaptada do nazismo fez Alvim virar alvo nesta sexta, 17, até mesmo do escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, além de outros conservadores. Isolado, ele anunciou nas redes sociais que colocava o cargo à disposição. O dramaturgo foi nomeado como secretário de Cultura em novembro, semanas após ofender a atriz Fernanda Montenegro nas redes sociais. Mas ele já estava no governo desde junho como diretor da Fundação Nacional das Artes (Funarte). 

 

Para Entender

As idas e vindas da Cultura no governo Bolsonaro

Ministério foi extinto em janeiro para criação da Secretaria Especial de Cultura, que foi incorporada ao Ministério da Cidadania e, depois, ao do Turismo; trocas nas lideranças dos órgãos geraram críticas ao governo

 

Na curta passagem pelo cargo, Alvim ganhou a briga com os ministros da Cidadania, Osmar Terra (MDB), e do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), ao receber aval de Bolsonaro para nomear quem quisesse. À época, o presidente chegou a mudar a estrutura da Esplanada para retirar a secretaria de Alvim do guarda-chuva de Terra e evitar atritos entre os dois.

O dramaturgo dirigiu por três décadas peças de sucesso de crítica, mas disse ter mudado radicalmente de perfil político após se curar de uma grave doença, por meio de orações. Ele afirmou que sofreu uma “metanoia” e explicou: “É uma mudança espiritual, de posicionamento existencial radical”. Alvim surpreendeu a classe artística ao declarar voto em Bolsonaro em 2018, após o atentado a faca sofrido pelo então candidato do PSL ao Palácio do Planalto.

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Goebbels e Wagner: entenda quem foram as referências no vídeo de Roberto Alvim

Ministro da Propaganda de Adolf Hitler e seu compositor preferido aparecem em discurso do atual secretário de Cultura do governo Bolsonaro

João Ker, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 11h56

Durante um vídeo publicado em suas redes sociais na noite desta quinta-feira, 16, o atual secretário de Cultura, Roberto Alvim, anunciou o Prêmio Nacional das Artes e, simultaneamente, fez referências a duas figuras importantes do regime nazista: o político alemão Joseph Goebbels, que serviu como ministro da Propaganda de Adolf Hitler entre 1933 e 1945; e o músico Richard Wagner, uma das principais inspirações do ditador.

Conheça abaixo as histórias de Goebbels e Wagner, e suas ligações com o Nazismo de Adolf Hitler:

Quem foi Joseph Goebbels? E Richard Wagner?

Joseph Goebbels entrou para o Partido Nacional-Socialista de Hitler em 1924 e, nove anos depois, ascendeu a ministro da Propaganda de Adolf Hitler no mesmo ano em que ele se tornou chanceler da Alemanha

Sua escalada política na ditadura de Hitler foi meteórica e de importância fundamental para convencer o povo alemão sobre o Nazismo, utilizando para isso todos os meios de comunicação e aparelhos culturais possíveis. Teatro, cinema, rádio, TV, livros, quadros e músicas eram vistoriados por Goebbels, enquanto ele também liderava a criação de cartazes, campanhas e manifestações de apoio ao Führer.  

Goebbels foi um dos principais responsáveis por disfarçar o antissemitismo e o ódio aos judeus pregado pelo Nazismo como nacionalismo e amor à pátria alemã. Foi ele quem comandou a primeira queima de livros, no início da década de 1930, sob o pretexto de dar fim à “era do intelectualismo judaico extremo”. 

Em 1945, após a queda do Nazismo e com a chegada dos aliados ao bunker em que ele se escondia com a família, Goebbels e a esposa, Magda, envenenaram seus filhos e, em seguida, cometeram suicídio. Pouco tempo antes, ele foi indicado por Hitler como seu sucessor. 

Richard Wagner (1813 - 1883), por sua vez, foi um compositor, ensaísta, compositor e diretor de teatro considerado pelo próprio Adolf Hitler como uma de suas principais inspirações. Um dos maiores destaques de seu grande acervo são as óperas criadas por ele. Nelas, historiadores acreditam que o compositor tenha introduzido a ideia de “germanismo ariano”, além de ter combatido a presença e influência de judeus na música alemã, desde 1850.

O que Goebbels fazia e defendia no Nazismo?

Além de ter inflamado o antissemitismo na Alemanha ao disseminar o ódio contra os judeus e culpá-los pelos problemas econômicos do país, Goebbels era contratado por Hitler para criar a realidade que mais favorece o líder e o governo nazistas. Com o lema “uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”, ele criou o jornal de propaganda Der Angriff (O Ataque), semanal no qual difundiu ideais do Nazismo em uma coluna própria, assinada como Mr. G

Sempre em tom sensacionalista e de ataque a judeus, Goebbels também exerceu seu controle no cinema. Em filmes como O Triunfo da Vontade, encomendado em 1934 à cineasta Leni Riefenstahl, discursos de Hitler eram exibidos para milhares de pessoas, ao mesmo tempo em que o exército mostrado personificava a raça ariana pregada pelo regime. 

Além de inflamar o ódio contra grupos como judeus, ciganos e comunistas, Goebbels também pregava o nacionalismo alemão defendido pelo Nazismo, onde qualquer crítica ao governo de Hitler era classificada como ódio ao País. É dessa vertente e produção que vem o discurso referenciado pelo secretário da cultura brasileiro, Roberto Alvim.

Também foi Goebbels quem, ao se apropriar do verso de uma canção nacionalista alemã de 1841, criou um dos principais slogans e frases mais repetidas ao longo do Nazismo, Deutschland über alles. Em português: Alemanha acima de tudo

Qual a relação entre o vídeo de Roberto Alvim e o discurso de Goebbels? 

“A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich

Já em seu vídeo, Alvim disse: “A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

Simultaneamente, a trilha sonora escolhida pelo secretário como fundo de seu discurso foi o prólogo da ópera Lohengrin, que pertence ao segundo período da produção de Richard Wagner, na década de 1840. A obra também foi uma das preferidas de Hitler, que a tocava durantes seus comícios e pronunciamentos públicos.  

Qual a relação entre Richard Wagner e Adolf Hitler?

Apesar de ter falecido seis anos antes do nascimento de Hitler, Wagner foi uma das principais inspirações do ditador alemão, que o citou em sua autobiografia e manifesto político Mein Kampf. “Em um instante eu fiquei viciado. Meu entusiasmo juvenil pelo mestre de Bayreuth não tinha limites”, escreveu Hitler, afirmando que “sua vida mudou” quando ouviu pela primeira vez aos 12 anos a música escolhida por Roberto Alvim.

Bayreuth é o festival anual criado por Wagner na cidade de mesmo nome e, posteriormente, frequentado com assiduidade por Hitler, onde o nacionalismo alemão era pregado através da autoadulação do compositor com sua obra, venerada no evento criado por ele mesmo. Outros nomes que já passaram pela plateia de lá incluem Pedro II, imperador do Brasil; Friedrich Nietzsche; e o compositor Pyotr Ilyich Tchaikovsky.

Além de também ter usado inúmeras de suas músicas como trilha para discursos, Hitler tinha um pianista particular, o alemão Ernst "Putzi" Hanfstaengl, contratado por ele para tocar apenas as músicas de Wagner. A fixação foi tanta que, em 1923, o ditador tornou-se amigo da nora do compositor, Winifred Wagner.

Foi Winifred, casada com Siegfried Wagner, filho de Richard, quem serviu de tradutora para Hitler durante as negociações entre Alemanha e Inglaterra na década de 1930. Quando ele foi preso, foi ela quem levou comida na prisão enquanto o político alemão escrevia Mein Kampf. A relação se desenvolveu ao ponto de o ditador frequentar a casa dos Wagner e isentá-la de impostos.  

Paradoxos no nazismo de Goebbels e Wagner

Apesar de defenderem o fortalecimento e purificação da raça ariana e exclusão de tudo que se opunha a ela, como judeus, comunistas e homossexuais, tanto Joseph Goebbels quanto Richard Wagner têm contradições com esses ideais em suas próprias biografias.

De acordo com o historiador Oliver Himes, com base em arquivos de Berlim, Magda Goebbels, esposa de Joseph, foi filha de um homem judeu, enviado em 1938 para um campo de concentração. Considerada a “mãe exemplar do Terceiro Reich” e “modelo da raça ariana”, não deixou nem o laço sanguíneo manchar sua reputação e, apesar de ter o poder para intervir no assassinato do pai, preferiu não agir.

Já Wagner, músico adorado por Hitler, foi protagonista de uma relação notória com o rei Ludwig II, do estado de Baviera. Convocado para a corte do monarca quando ele assumiu o trono aos 19 anos, o compositor desenvolveu um relacionamento íntimo com Ludwig, a ponto de receber uma mesada no valor de quatro mil florianos. 

Em 1886, o rei enviou uma carta a Wagner propondo abandonar o trono para viver com ele, mas teve sua investida negada pelo compositor, que já estava casado com uma mulher nessa época.

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Análise: Goebbels assinaria embaixo após discurso de Alvim

Secretário de Cultura de Bolsonaro foi demitido após parafrasear trecho do ministro da Propaganda de Hitler

Marcos Guterman*, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 16h47

Desta vez capricharam. Ao anunciar na quinta-feira um prêmio de fomento para projetos culturais, o então secretário especial de Cultura do governo federal, Roberto Alvim, usou em seu discurso parte de um pronunciamento do ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. Ao fundo, enquanto o secretário falava de forma solene, ouvia-se um trecho da ópera Lohengrin, de Wagner, compositor preferido do ditador nazista Adolf Hitler. Não foi difícil para que alguém rapidamente notasse as referências ao regime hitlerista.

Não será surpresa se a atenção da opinião pública se concentrar no tal parágrafo inspirado em Goebbels como prova definitiva, para alguns, do “nazismo” latente do governo. O problema, contudo, não é o trecho em questão, mas todo o discurso. Do início ao fim, quase todas as ideias ali contidas são as mesmas que integraram a doutrina da maioria dos regimes ditatoriais de perfil totalitário ao longo da história contemporânea, inclusive o nazista. 

A ideia da elaboração de uma “arte nacional, capaz de encarnar simbolicamente os anseios da maioria da população”, está na essência do controle político e social acalentado por qualquer ditadura totalitária. Nesse modelo, será “nacional” somente aquilo que obedecer aos critérios estabelecidos pelo Estado; logo, tudo o que não se enquadrar nisso será “arte degenerada”, como as autoridades nazistas qualificaram as obras produzidas por artistas que o Estado havia classificado como inimigos. Levado ao extremo, tal programa violenta de forma brutal a diversidade cultural, sem a qual não se pode falar em democracia.

Alvim declarou que, “quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, frase que bem poderia ter sido dita por qualquer ideólogo nazista. No Terceiro Reich, o inimigo era tratado como uma doença que ameaçava “contaminar” o “corpo nacional” por meios insidiosos - sendo a cultura o principal veículo dessa “infecção”.

Para enfrentar esse risco, Alvim acentuou a “urgência” de medidas para transformar a “arte brasileira” numa arte “heróica”, “nacional” e, claro, “imperativa”. Segundo o agora ex-secretário, ou a cultura se submete a esse plano de “salvação”, “ou então não será nada” - palavras textualmente retiradas do discurso original de Goebbels e que se coadunam perfeitamente com o caráter absoluto do nazismo, que considerava tudo como questão de vida ou morte.

A exoneração do secretário Alvim diante da repercussão negativa de sua fala não muda o fato de que ele nada mais fez do que acrescentar teatralidade a um discurso que é voz corrente entre várias figuras de proa no governo, a começar pelo próprio presidente Bolsonaro. 

Ao dizer que “as virtudes da fé, da lealdade, do auto-sacrifício e da luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de arte” a partir das iniciativas do governo, o agora ex-secretário de Cultura apenas reiterou o que Bolsonaro já havia dito em outras oportunidades: que, doravante, só terá financiamento público o projeto artístico que se prestar a difundir a ideia de nação elaborada pelo bolsonarismo. 

Em outras palavras, o bolsonarismo, assim como qualquer outro movimento autoritário, quer transformar a imaginação estética em mecanismo de construção de um senso de unidade nacional e de submissão coletiva ao Estado - tudo isso, segundo Alvim, com vista ao “renascimento da cultura e da arte no Brasil” e à “construção de uma nova e pujante civilização brasileira”. Esses trechos entre aspas são da lavra do ex-secretário da Cultura, mas Goebbels certamente assinaria embaixo.

*Marcos Guterman é jornalista e historiador, autor do livro 'Nazistas entre Nós' (Editora Contexto)

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Sérgio Augusto: Goebbels tabajara do Bolsonistão

Roberto Alvim, o demitido secretário, começou com um Waterloo moral, ao insultar Fernanda Montenegro

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 17h02

Alguém grafitou, no Twitter, que o inacreditável foi abolido no Brasil. Aqui tudo pode acontecer, já aconteceu ou está por acontecer. 

O governo Bolsonaro praticamente se inaugurou no exterior com um sintomático forfait no encontro de Davos, no ano passado. Aquela foto com a mesa vazia, só com os placements de Araújo, Guedes, Moro e Bolsonaro, entrou para a história do vexame e da patetice universais no instante em que o fotógrafo fez clique. 

Duvido que no momento exista país mais ridículo e ridicularizado que o Bolsonistão. Como somos um povo gozador, suspeito que só conseguimos sobreviver até agora aos fatos inacreditáveis de nosso dia a dia graças, exclusivamente, ao nosso bem-humorado estoicismo. 

Dia desses, um dos personagens do chargista André Dahmer acusou seu interlocutor de não ser “lunático o suficiente para ganhar um cargo no governo”. Em vez de lunático, o “malvado” poderia ter dito: mentiroso, ignorante, semianalfabeto, corrupto, miliciano, evangélico. Ou, simplesmente, militar da reserva. 

Bolsonaro escalou militares da reserva cuidando de escolas, do INSS, como se o programa prioritário de seu governo fosse punir servidores públicos e dar emprego aos colegas de farda. Se bem que ainda melhor do que ser oficial da reserva e ganhar uma boquinha no serviço público é ser filha de militar com pensão vitalícia. Uma delas embolsou em dezembro R$ 537 mil. 

Prossigamos. Mentiroso é o que mais tem entre os áulicos do capitão Jair. Por osmose ou sabujice, eles distorcem fatos e números, reescrevem a história, e nem se avexam de atribuir à atual administração obras de governos anteriores. O ministro estratosférico Marcos Pontes, coonestado pelo vice Mourão, não exaltou a inauguração da nova Estação Antártica Comandante Ferraz como um projeto do governo Bolsonaro? Quando o presidente tomou posse, as obras da Estação – iniciadas ainda no governo Dilma – já estavam nos finalmentes.

Se a mentira é fruto da ignorância ou de confusão mental, a gente pode até fingir, misericordiosamente, que não prestou atenção, embora seja difícil fingir não ter ouvido o novo comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, afirmar, no dia de sua posse, que o Brasil já esteve com os EUA “em três guerras mundiais”: a primeira, a segunda, e...ih, a terceira eu perdi. 

Por falar em ignorância, esta talvez seja a verruga mais saliente do atual governo, a característica predominante do presidente e sua corte. Nos dois sentidos que a palavra tem: falta de conhecimento & incivilidade. 

O caso mais grave é o do ministro da Educação, Abraham Weintraub, campeão nacional de solecismos (“haviam emendas”), erros de crase, ortografia (“imprecionante”, “paralização”, “suspenção”) e até de pessoas (Franz “Cafta”). Dizem que ele só não engrossou o coro dos bolsodescontentes com a indicação para o Oscar do documentário Democracia em Vertigem por não saber se vertigem se escreve com g ou j. É uma vergonha sem paralelos da história do MEC.

Seu antiesquerdismo paranoico – acusou concursos públicos de dar preferência a candidatos marxistas e estudantes de plantarem maconha nos campi universitários – segue o mesmo padrão de histeria e leviandade de seus companheiros de armas infiltrados nos setores mais diretamente comprometidos com a gestão da Cultura, a menina dos olhos da política de reaparelhamento ideológico do Estado do bolsonarismo. 

O presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira, despontou do anonimato ao qualificar o rock como coisa de satanistas e abortistas. Por esse despautério, consolidou-se como um dos mais fortes candidatos ao Damares de Ouro deste ano. 

Roberto Alvim, o demitido secretário especial de Cultura, um Goebbels tabajara por temperamento e carreirismo, assumira a liderança da guerra cultural em curso. Começou com um Waterloo moral, ao insultar Fernanda Montenegro e, ao invés de recolher-se a um bivaque, avançou suas tropas contra a Fundação Casa de Ruy Barbosa, cuja recém-empossada presidente, Leticia Dornelles, lá foi posta para ser o para-raios de um expurgo que não se satisfez com banir de seus quadros gente de comprovada experiência e competência em pesquisas e guarda de documentos preciosos.

Na segunda-feira, uma manifestação de ex-funcionários e usuários do acervo da Fundação culminou com a entrega de um abaixo-assinado de intelectuais, que chegou a ter 30.000 assinaturas, à nova e inadequada mandachuva da instituição, que tratou o protesto mais ou menos como o presidente tratou a imprensa mundial em Davos 2019. 

Na quarta-feira, Dornelles aparou outro raio. O cientista político Christian Lynch, entusiasticamente nomeado por ela para um alto cargo na Casa, acabou vetado, em cima da hora, por Alvim, que descobriu ter Lynch manifestado, algum tempo atrás, “ideias execráveis” a respeito de Bolsonaro. Que eu saiba, só os bolsominions mais caturras ainda não execram o execrável.

Alvim também semeou uma crise no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), autarquia federal por ele tutelada. A historiadora Kátia Bogéa, servidora de carreira no Iphan, foi substituída na presidência do órgão pelo arquiteto mineiro Flávio de Paula Moura, indicado por sua experiência como auxiliar da mãe no restauro de obras de arte. 

Pelo mesmo “critério técnico” adotado na escolha do arquiteto, doutores em arquitetura, museólogos e profissionais com longa prática no Patrimônio foram trocados por apadrinhados de políticos da base aliada do governo, entre os quais o dono de uma oficina mecânica e um cinegrafista. 

Não dá para acreditar. No entanto, acredite. 

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