Advento de um novo artista

A acusação de plágio contra Osvaldo Golijov diz muito sobre mercado atual

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h10

Alguns fatos chamam a atenção no imbróglio de plágio em que está envolvido o compositor argentino Osvaldo Golijov. O escândalo estourou na semana passada nos EUA, envolvendo sua obra sinfônica Sidereus, encomendada por 35 orquestras e executada pela Osesp em 2010. O plágio foi detectado em concerto no Oregon. Sidereus é literalmente igual, em boa parte, a "Barbeich", obra de 2009 de Michael Ward-Bergeman, grande amigo do compositor. Ao mesmo tempo, soubemos, aqui no "Estado", que em dezembro passado Golijov reproduziu extensivamente uma conhecida canção popular brasileira assinada por dois "notáveis" da MPB no segundo movimento de seu novo quarteto de cordas intitulado "Kohelet".

A reação de Golijov, incensado pela mídia especializada e apontado, na última década, como arauto da chamada terceira via na música contemporânea -- a que rasga a fantasia da autonomia e cai de boca na música de consumo industrializada - foi diferente, em cada caso. Em relação ao quarteto, agiu como quem é pilhado em plágio explícito e retirou rapidinho o movimento do quarteto; no de "Sidereus", disse que só aproveitou a melodia de seu amigo Begerman. Mas Alex Ross, da New Yorker, foi obrigado a reconhecer que a "sobreposição entre ambas as obras é de fato extensa. Falando francamente, Sidereus é Barbeich com material adicional anexado". Ross também rechaça a tentativa de Golijov de se comparar a Bach, Haendel e aos compositores do período barroco, onde a prática de se tomar emprestadas obras inteiras de terceiros era comum. A idéia do compositor como gênio singular trilhando um caminho original, lembra Ross, era essencialmente estranha antes de Beethoven.

Em ambos os casos, é plágio mesmo e o jeito era vestir a carapuça, como Golijov fez. Mas bem mais interessante é refletir sobre seu argumento para "justificar" o caso Sidereus. Ele invoca um tempo em que a música era utilitária e feita como os padeiros fazem fornadas. Beethoven decretou a autonomia da criação musical. Quando ameaçou mudar-se para Paris, nobres instalados em Viena fizeram uma vaquinha e lhe proporcionaram condições financeiras para compor em paz. Não se falava em obrigações de compor isto ou aquilo, mas permitir ao "gênio" criar com liberdade. Nascia a noção de "obra".

O longo reinado da música autônoma permanece vivo até hoje. Em meados do século 19, acentuou-se o racha entre a música autônoma e a nascente música de consumo. Hoje, entretanto, as rachaduras ideológicas são mais sérias - e danosas. Talvez não tenha sido gratuita a remissão de Golijov aos felizes tempos em que ninguém era de ninguém. Razão tem Anne Midgette, crítica do Washington Post, ao argumentar que só se espanta quem não o conhece. Golijov sempre fez isso, pegou músicas de tudo quanto era lugar e deglutiu-as, muitas vezes sem mastigar nada. É possível que o argentino não viva só uma secura criativa e esteja recorrendo a terceiros para honrar encomendas. É provável que já seja um legítimo representante de uma situação das artes delineada para 2020 pelo sociólogo francês Pierre-Michel Menger no artigo "Um passo para a utopia", no volume Artistes 2020 - Variations Prospectives.

Afinal, raciocina Menger, do lado da interpretação, a ênfase será cada vez maior na competição seletiva, provocada pelo afluxo de músicos virtuoses formados nos países mais povoados do planeta. Um mundo dominado pela música do passado. O outro lado da moeda, o da composição, viverá o enfraquecimento das barreiras entre os gêneros, o que transformará a música contemporânea em um mosaico de gêneros menos esotéricos do que foram ao longo do último século.

Menger pensou isso há menos de dois anos e já parece ultrapassado pela hipervelocidade dos acontecimentos. Golijov já encarna hoje o que Menger chama de "democracia do gênio". Como tudo está à disposição na web, já começamos a conviver com uma "superpopulação de artistas". Você pode tudo, desde que conectado à web. Tem acesso e pode comunicar sua criação ao universo inteiro. Assim, todo mundo se considera artista.

"A parte mais visível da produção artística", diz Menger, "renunciará à celebração dos valores autônomos da arte e multiplicará as expressões de uma concepção funcional ou simplesmente hedonista da criação; a serviço da estética urbana, quando a imensa maioria da população mundial se aglomerará nas cidades e megalópoles; no culto do divertimento; na redução dos desafios da invenção artística, pois a velocidade de circulação e troca dos conteúdos e ideais vai acelerar a obsolescência da inovação".

A música de Golijov é essencialmente isso, desde a Paixão Segundo São Marcos, de uma década atrás. É descartável, pronta para ser rapidamente consumida e esquecida. Forte e redutor? É possível. Mas Golijov pode ser só a ponta do iceberg dessa tendência detectada por Menger, de desagregação da noção de obra. O compositor é o sintoma mais vistoso de uma música contemporânea que deseja, a todo custo, alcançar públicos maiores. Ora, para "fazer sucesso" é preciso seguir as regras da indústria cultural. E a primeira delas é a cleptomania. Poucos notam, porque as obras são rapidamente consumidas e descartadas por novas. Estamos na era da obsolescência da inovação.

Ainda bem que, embora a duras penas e em circuitos fechados, quase tribais, ainda é possível a sobrevivência de músicos comprometidos tão somente com a criação, com obras que sejam uma "promessa de felicidade" (Adorno), mesmo que não consigam cumprir tal compromisso porque suas formas já estão inevitavelmente contaminadas pela sociedade administrada. Menger não é tão pessimista quanto Adorno, mas lembra que estamos cada vez mais próximos do prognóstico de Roger Caillois, feito 37 anos atrás: "A arte autônoma pode ter sido quem sabe só um parênteses, uma espécie de moda na história da humanidade".

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