Adultério na coluna

"O senhor já quis comer a mulher de um amigo?" ? perguntou de supetão o motorista que me levava ao aeroporto.

Roberto da Matta, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Na dúvida que sempre me assola diante dessas questões triviais, tergiversei e tentei retomar o nosso papo que falava de problemas muito mais fáceis de resolver e decidir, tais como: se o Brasil queria mesmo fazer uma bomba atômica, se um dia íamos acabar com a corrupção, o desastre ecológico e ? é óbvio ? se conseguiríamos chegar ao tão almejado "hexa".

A pergunta indiscreta havia, como as catástrofes, liquidado a cordial troca de ideias devotada ao estilo Dunga e em como ele se projetava, como a voz invisível dos ventríloquos, nos jogadores. Eu dizia que, com toda essa cobrança, ser técnico da seleção nacional era um papel duríssimo de desempenhar. Se, concluí, fôssemos assim vigilantes e exigentes com nossos prefeitos, governadores e presidente, o Brasil seria outro.

Mas logo voltamos às avaliações do "nosso time", de seus pontos fortes e fracos da defesa e do ataque (que meu interlocutor julgava inexistente) o que, logo em seguida, pipocou ? como um pênalti ? no dilema hamletiano-brasileiro de comer ou não comer a mulher do amigo, tendo como pano de fundo o dever de ganhar a Copa do Mundo.

"Você diz ? repliquei tentando ganhar tempo ? trair uma amizade pela atração sensual?"

"Isso mesmo. Dar um drible e fazer gols na esposa do amigo. Ela quer, sempre me deu mole e outro dia me contou que o cara, convertido a uma dessas seitas religiosas, não comparecia mais em casa..."

"Não vinha pra casa?"

"Não, Doutor, não trepava! Deixava a moça ? um baita mulherão deste tamanho ? sem assistência. Era como perder um gol feito. Como roubar o dinheiro do povo!"

"É bonita?" ? retruquei me sentindo mais burro do que nunca.

"Bem, bonita mesmo não é, mas é um morenaço: alta, coxas grandes, bundão turbinado. Do jeito que eu gosto."

"Como foi que você sentiu que dava pé?"

"Foi durante um almoço, quando ela ficou passando o pé na minha perna. Olhei pro amigo e ele, ali do nosso lado, na cabeceira da mesa, comia inocente e tranquilo o seu feijãozinho com arroz. Parecia a gente assistindo a esses jogos de botão dessa Copa e, enquanto isso eu, como um atacante desesperado, tentava chegar ao gol e ficava naquela esfregação de pé na perna e de perna no pé com a esposa do cara. Naquela noite não dormi. O pior é que eu pensava mais no amigo do que na mulher. No dia seguinte voltei e, num entretempo de varanda, bati um pênalti: dei um beijo nela, o que só veio a piorar as coisas, pois com o beijo, marquei o jogo. Agora eu tinha mesmo que comer a mulher do meu amigo."

"Você ficou entre a amizade e o amor", resumi reafirmando imbecilmente o óbvio.

"Como homem, eu tinha vontade e queria ir em frente; mas como amigo, queria sair correndo. Esse era um sujeito que só tinha me ajudado na vida."

"Eu sei... É como torcer contra o Brasil!"

"No dia do jogo contra a Coreia ela me liga. O marido vai viajar com o grupo religioso, ela ia ficar sozinha em casa. Não era um convite, era uma ordem: se você é homem, vêm cá e me come! Mas em vez d"eu ficar alegre, fiquei numa puta dúvida. Todo mundo fala que come todo mundo, mas como eu ia comer a mulher do amigo em dia de jogo do Brasil?

"Então eu falei pra mim mesmo: você não queria, seu merda! Agora vai em frente e trai a amizade do teu melhor amigo. Entrou na Copa, tem que jogar e... vencer!"

"Você foi?"

"Com muito medo. O jogo estava começando quando eu bati na porta. Ela abriu e foi logo dizendo, muito sem graça, mas muito sem graça mesmo, que o marido estava em casa. A excursão fora suspensa por causa do jogo.

Meu risinho de alívio deixou ela com raiva. E para piorar as coisas soltei, sem querer, um "ótimo, vamos ao jogo" que vinha do fundo do meu coração e que não pegou nada bem.

"Ótimo, seu putinho?" ? disse ela. "O cara e a Copa estão aí atrapalhando tudo e você diz ótimo?"

"Desculpei-me falando do nosso amor pelo Brasil. E emendei num mentiroso "depois a gente resolve", mas nada escondia o meu alívio. Senti que o adultério havia acabado naqueles abraços gritados de macho que troquei com meu amigo quando o Brasil fez seus gols. Mas quando pensei novamente no adultério, a Coreia marcou."

"Será, doutor, que se eu trair meu amigo o Brasil perde pra Costa do Marfim?"

O táxi chegava ao aeroporto. Pensei em fazer uma preleção sobre o pensamento selvagem que liga tudo com tudo, mas desisti.

Minutos depois, ao escolher meu lugar no avião, me dei conta de que tudo o que é valorizado ao extremo demanda escolha e que escolher obriga a ligar coisas e pessoas. A pergunta tem todo cabimento. Afinal, se a Lua influencia as marés, não haveria também um laço entre o adultério (sobretudo com a mulher do amigo) e a derrota? Os guerreiros zulus (essa poderosa tribo da África do Sul) morriam em combate se suas esposas os traíssem. Assim me ensinou um saudoso antropólogo sul-africano que não tirava o chapéu para conservadores ou visitava países debaixo de ditaduras, Max Gluckman.

Fiquei com a pergunta entalada na cabeça.

Hoje, domingo, liguei para o motorista. Ele, exultante, responde ao berros que está comemorando a vitória sobre a Costa do Marfim. "Com ela, professor! Com ela aqui do meu lado e num motel! Sexo e vitória no futebol! Pode haver coisa melhor?"

"Sem dúvida, mas e os outros jogos da Copa?" ? perguntei com a inveja e com a maldosa ambiguidade intelectuais.

"Ora, doutor, o futuro a Deus pertence."

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