Adriana Varejão e sua ficção visual

Artista carioca tem sua obra analisada em livropor textos de múltiplos pensadores

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Figura de Convite III. Na tela de 2005, a "forma da encenação' na obra da artista, com azulejaria portuguesa como referência

 

Em 1992, Adriana Varejão criou Quadro Ferido e Passagem de Macau a Vila Rica, uma paisagem do tempo dos artistas viajantes, em quase preto e branco, que tem no canto esquerdo inferior um coração de onde escorre sangue. Aí vieram em sua obra uma contundência de referências ao barroco e à azulejaria, o uso do craquelado, os esquartejamentos e as apropriações de iconografias conhecidas e históricas, a visceralidade da carne (representando a entranha da pintura), a arquitetura geométrica das saunas. Numa junção de "vermelho do sangue e azul do céu" ou Entre Carnes e Mares, como diz o título do livro que a Editora Cobogó lança hoje sobre a artista, se faz a potente obra desta criadora carioca, uma das mais valorizadas da cena contemporânea brasileira.

É uma edição de fôlego, bilíngue, organizada por Isabel Diegues e que contempla toda a trajetória de Adriana, nascida em 1964. Intercala reproduções, em sequência cronológica, de suas pinturas de desde a década de 1980 (1988 foi um marco) até suas criações recentes de 2009, com ensaios de uma pluralidade de pensadores convidados ao exercício analítico da obra da artista: o escritor Silviano Santiago, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, o professor-doutor em semiótica e literatura Karl Erik Schollhammer, o crítico Luiz Camillo Osorio e a artista e professora Zalinda Cartaxo. Para marcar o lançamento do livro, às 18h30, na SP-Arte - Feira Internacional de Arte de São Paulo, na Bienal, ocorrerá antes, às 16h30, uma mesa-redonda no auditório do Museu de Arte Moderna (MAM) com Lilia Moritz Schwarcz e os curadores Agnaldo Farias e Rodrigo Moura.

Narrativas. Como conta Isabel, o projeto do livro partiu da estrutura de uma palestra proferida por Adriana Varejão no museu Guggenheim de Nova York, em 2004. Na ocasião, a artista - com um pensamento sempre lúcido sobre seu trabalho - incluiu em sua fala seções sobre temas como Carnavalização Histórica - Paródia; Imagem Sem Corpo; Teatralização da Pintura; e Epifania da Forma. Esses se tornaram, afinal, caminhos para que os autores mergulhassem na poética de Adriana para cada um compor "narrativas de carnes e mares", marcando agora uma análise que abarca 20 anos de carreira da artista.

Na "ficção contemporânea e visionária" de Adriana, como define Santiago, a artista bebe em fontes tão diversas, mas há uma raiz comum. Arrematando, Lilia Moritz Schwarcz define como se move a "cartografia varejão": "Entre verdades e simulações, limpeza e sujeira, história e releitura, vermelho do sangue e azul do céu, azulejo e rasgo, tela e simulacro."

Quem é

Adriana Varejão

Artista plástica

CV: Nascida no Rio em 1964, é das criadoras brasileiras de mais destaque, com obras em coleções como as dos museus Guggenheim (NY), Stedelijk (Amsterdã) e Fundação Cartier (Paris).

ADRIANA VAREJÃO: ENTRE CARNES E MARES

Organização: Isabel Diegues. Editora: Cobogó. Preço: R$ 125 (368 páginas). Lançamento: Hoje, às 18h30, no Café Lounge da SP-Arte

SP-ARTE.

Pavilhão da Bienal/Parque do Ibirapuera.

Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº. Hoje, 14 h/22 h; sáb., 12 h/20 h; dom., 12 h/21 h. R$ 25. Até 2/5

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