Adriana Varejão abre mostra individual

Secos e Molhados, a exposição que a artista plástica Adriana Varejão inaugura hoje na Galeria Fortes Vilaça, é a última chance de ver as famosas carnes e vísceras expostas que ajudaram a fazer sua fama no Brasil e no mundo. Os trabalhos inéditos da série Ruínas de Charque promovem agora um cruzamento da trajetória estética da artista com sua história pessoal. Parte do universo que criou está exposto ali: carne e azulejos. Já os indícios de suas lembranças voltam no tempo até a infância da artista, no início dos anos 60, e sua azulejaria kitsch. Vasculhando cemitérios de azulejos em busca de padronagens para suas criações, "estampas vulgares de banheiro e cozinha", Adriana conta que deparou com um antigo modelo que a fez voltar no tempo, até uma casa que habitou na infância. Nessas novas obras, grandes blocos de carne, feitos de poliuretano, são prensados por superfícies de azulejos pintados sobre madeira. O contraste é imediato: o plano geometrizado, estéril, tenta conter o transbordamento da carne viscosa, caótica e quente. Os azulejos, antes monocromáticos, ganham nova roupagem, decorativa, pintados pela artista. Outra novidade é a que as esculturas agora são formadas por duas paredes perpendiculares, que conquistam o espaço e dão origem a pequenos ambientes tridimensionais invadindo a arquitetura. "Não me venha fazer relações com os temas da Bienal nem de Arte/Cidade", pede ela. Contudo, é difícil negar que sua nova produção ficaria bastante à vontade em qualquer um dos dois eventos, ambos adotando a metrópole como assunto primordial. Suas obras, colocadas na parede, funcionam como alerta da cidade lá fora, o caos invadindo nosso universo doméstico. Se em um passado recente Adriana ia buscar referências na iconografia da era dos descobrimentos, agora ela se volta para o cotidiano urbano, vagando por antigos botequins da Lapa, edifícios em demolição e terrenos baldios. "Sou muito tocada pela constatação de Levy-Strauss em Tristes Trópicos, ainda nos anos 30, a idéia de que, no Brasil, as coisas em construção já nascem como ruína", diz a artista, que vasculha nos escombros da cidade do presente vestígios de um passado não muito distante, "ruínas contemporâneas". Não é nostalgia, apenas uma constatação, quase um atestado de impotência. Se essa mostra põe um ponto final em Ruínas de Charque, Adriana aproveita a oportunidade para estrear nova fase, representada pela pintura a óleo Ambiente Virtual - Santa Cruz, um interior azulejado de branco, em que o plano é seccionado e coordena mudanças de cor e sutis passagens tonais. Algumas questões já expostas na trajetória da artista voltam sob nova apresentação, como o diálogo entre geometrização e figuração - desta vez, da arquitetura. A artista que se celebrizou por obras viscerais, peles rasgadas, interiores à mostra, canibalismo e esquartejamento, começa a trilhar o caminho da depuração. Processo que, sintomaticamente, passa pela pintura. Adriana já disse que "teatraliza" a morte da pintura, tantas vezes anunciada. Segundo a própria artista, as imagens de dilaceração da carne estão associadas a esse discurso recorrente - mas também ao sexo, e não ao "sofrimento do povo colonizado", como se repete desde o início dos 90. Adriana diz estar cansada das análises viciadas, que associam seu trabalho a relações de dominação e à violência do colonizador português e o martírio dos subjugados. Essa individual deixa para trás as referências ao Brasil colonial e ao barroco e pode ser uma tentativa de retomar o controle sobre as leituras que sua arte assumiu. "A fase do passado como história está enterrada." Tudo começou com o quadro Filho Bastardo, de 92, que promovia montagem com personagens de Debret. Na recriação da artista, um padre estupra uma negra acorrentada a uma árvore e dois homens brancos colonizadores seviciam uma mulher índia. "Isso já faz dez anos, e até hoje se repetem estas mesmas analogias. Usa-se o trabalho como suporte para uma teoria. Não aguento mais." Projeto 2002 - No mezanino da galeria, o jovem artista Tiago Carneiro da Cunha, de 28 anos, nome emergente recém-integrado ao staff da Fortes Vilaça, exibe esculturas de acetato manipulado, inspiradas no universo estético das máscaras africanas. Adriana Varejão e Tiago Carneiro da Cunha - De terça a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500. Tel: 3032-7066. Até 30/4. Aberura às 20h.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.