Adrenalina da guerra é tema de filme no Festival de Veneza

'The Hurt Locker', de Kathryn Bigelow, tem como tema tecnologia bélica e desativadores de bombas no Iraque

Luiz Zanin Oricchio, enviado especial do Estado,

04 de setembro de 2008 | 18h30

Dois filmes sobre as mazelas do mundo - o argelino Gabbla e o norte-americano The Hurt Locker - deram prosseguimento à mostra competitiva em Veneza. Nenhum deles parece destinado a mudar a história do cinema e, salvo engano, também não devem ocupar muito os jurados quando estes forem discutir os premiados finais. Mas, enfim, nunca se sabe e, como se diz, da cabeça de um júri não se sabe até o último minuto o que pode sair - mesmo quando presidido por Wim Wenders.  The Hurt Locker tem por ambiente a invasão do Iraque e, por tema, uma atividade especial da guerra - aquela, de altíssimo risco, dos desativadores de bombas. Em entrevista, a diretora Kathryn Bigelow disse que despertou para esse tema através do relato do jornalista Mark Boal, também presente em Veneza. Boal esteve no teatro de guerra para uma série de reportagens para o New York Times, o que lhe valeu um Pulitzer. A série é considerada importante para o estudo da psicologia da guerra, uma vez que Boal se debruçou sobre essa atividade de grande risco. Por mais que a tecnologia bélica tenha avançado, esses soldados muitas vezes dispõem apenas de par de pinças e um alicate para desmontar artefatos que, detonados, podem destruir tudo num raio de 300 metros. Detalhe: na maior parte dos casos, esse contingente é formado por voluntários. Constatação que levou a diretora, a partir do relato de Boal, a formular uma hipótese, em nada absurda: a guerra é, sim, um horror; mas, para muita gente, ela pode funcionar como droga. São o que se poderia chamar de adictos da guerra. Gente que não pode viver sem a dose de adrenalina que o perigo faz correr nas veias. Isso é mais velho que o rascunho da Bíblia: existem pessoas que só se sentem vivas com a proximidade da morte. Este é um ponto. Agora, questionada sobre a estética convencional do filme, Bigelow disse que, para seu propósito, tinha mesmo de se manter nos limites estritos do realismo, senão a coisa não funcionaria. Para ser verossímil tinha de ser convencional.  A história é a da chegada de um novo chefe do pelotão anti-bomba, James (Jeremy Renner), que vem substituir o anterior, morto em ação. James é um tipo que parece de fato suicida e, com suas escolhas intempestivas, coloca-se em conflito com os colegas e subordinados. O filme trepida da ação e tensão, tem cenas de fato muito bem filmadas (na Jordânia, pois não houve autorização para rodar no Iraque), mas, da tal psicologia da guerra, fala muito pouco. Faltou, talvez, certa energia mental para tentar compreender de fato o que acontece com esses voluntários. E isso não se esclareceu na entrevista que, como de hábito, manteve-se no politicamente correto: "Estamos mal informados sobre a guerra, ela um dia vai ser substituída pela diplomacia, até Bush está se conscientizando disso, Obama vem aí para retirar os soldados", etc.  Talvez haja alguma utilidade em dizer que tudo é retratado apenas do ponto de vista norte-americano e que os personagens iraquianos não passam de figurantes em seu país. Sintomático: Kathryn Bigelow se lamenta de que 4 mil soldados já tenham morrido no Iraque. Será que se pergunta qual o número total de vítimas da invasão? Não. O outro lado não conta.  Já Gabbla é um ponto de vista interno sobre os problemas na reconstrução da Argélia. Não isento de contradições por parte do próprio diretor Tariq Teguia que, perguntado se era argelino ou francês, disse que não iria responder a questões sobre sua biografia. O fato é que essa ambivalência é expressa nos próprios diálogos do filme, que muitas vezes começam em árabe e terminam em francês, e vice-versa. Fato comum em populações bilíngües; ou que se sentem divididas entre duas culturas. Um dado curioso da seleção: dois filmes africanos, ambos políticos, discutem seu passado recente de colônias de países europeus: Gabbla e Teza, do etíope Haile Gerima. À herança francesa, Teguia ajunta outros dados - a dificuldade de modernizar um país ainda dominado por velhos hábitos, sobretudo na zona rural, e a imigração ilegal, tema obsessivo da Europa neste momento. Quem dá vida ficcional a esses temas é o personagem Malek (Fethi Gharès), topógrafo que vai para o interior do país e encontra dificuldade em trabalhar em região dominada por fundamentalistas. Por acaso, se envolve com jovem refugiada que usa a Argélia como rota de fuga em direção à Espanha, quer dizer, ao paraíso europeu.  O filme não se pretende didático, sociológico ou explicativo. Teguia diz que, simplesmente, procurou mergulhar no país e deixar que aquela realidade falasse através dele. Tem dois tempos diferentes. Uma primeira metade bastante contemplativa, de planos mais longos, e uma segunda, mais realista e rápida, com a fuga pelo deserto do rapaz e da moça. Funciona às vezes como documentário, o que Teguia admite: "Busco a forma documental, mas de maneira experimental; aliás, o cinema não pode deixar de experimentar: vai testando as formas até ver se elas funcionam ou não." Boa parte do público não teve paciência com a experimentação de Teguia e deixou a sala de projeção.

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