?Adoro ser comparado a Grisham?

Quem é fã de quadrinhos já deve ter ouvido falar de Brad Meltzer. Ele é o autor do aclamado Crise de Identidade, trama de crime e mistério com Superman, Batman e Mulher Maravilha, e também ganhou fama por substituir o cartunista e cineasta Kevin Smith (de filmes como Procura-se Amy e Dogma) nos argumentos da série mensal do Arqueiro Verde. A recepção foi tão calorosa que ele assinou contrato de exclusividade com a DC Comics, para um trabalho a ser publicado neste ano. O que poucos por aqui sabem é que, nos Estados Unidos, Meltzer é ainda mais popular como escritor de thrillers. Formado em advocacia pela Columbia Law School, o nova-iorquino de 34 anos emplacou seus cinco livros na lista de best sellers do New York Times. Comparado a John Grisham e Scott Turow, Meltzer tem colhido os louros da glória repentina. Fez uma ponta como ele mesmo em Celebridades, de Woody Allen, e já tem nas mãos o roteiro da versão cinematográfica de The Tenth Justice, a obra de estréia. A Record já havia publicado a tradução de Os Milionários, que mergulha na era do capitalismo digital pela história de dois irmãos que roubam US$ 3 milhões ?esquecidos? na conta de um homem morto, e agora lança O Jogo, suspense de tirar o fôlego comprado para o cinema. Em O Jogo, dois assessores parlamentares entediados pela rotina burocrática do Congresso decidem participar de rede clandestina de apostas. Vale tudo: de apostar se um projeto será aprovado até se alguém é ousado o suficiente para colocar o broche do personagem O Gato, de Dr. Seuss, na lapela de um deputado carola. A diversão perde a graça quando a dupla se envolve com a venda de uma mina de ouro abandonada e passa a ser perseguida por um implacável matador de aluguel. Meltzer é talentoso. Investe em reviravoltas e tem uma linguagem ágil e descritiva. Há seqüências subterrâneas impressionantes, uma delas nos corredores secretos do Capitólio (a sede do Senado norte-americano) e nos claustrofóbicos 2.450 metros abaixo da terra das instalações da tal mina, situada em Dakota do Sul. Em entrevista concedida por e-mail ao Estado, Meltzer conta que o livro é fruto de pesquisa minuciosa e que todos os lugares expostos são reais. De invenção há apenas os personagens e o jogo de apostas, embora o próprio autor não tenha tanta certeza disso. O senhor parece fascinado pelo jogo de poder no mundo da política.Adoro olhar por trás das cortinas e mostrar aos leitores como o governo opera. É um tema recorrente em todos os meus livros, das descrições dos túneis da Casa Branca em The First Counsel até os subterrâneos do Capitólio em O Jogo. De onde vem a idéia de O Jogo?De uma história que ouvi aos 19 anos, quando era estagiário no Comitê Judiciário do Senado. Dizia que dois assistentes de um senador estavam cansados de tanto pegar as roupas do chefe na lavanderia. Então um deles disse que, como vingança, iria inserir as palavras ?dry clining? num discurso. O outro duvidou, ao que ouviu: ?Quer apostar?? E assim nasceu O Jogo. Não acha absurdo que um encontro descontraído entre três ou quatro representantes do comitê orçamentário defina para onde e para quem vai a receita anual do governo? Aquilo é verdade?É real, é absurdo, mas é assim que acontece. Só a possibilidade de o jogo existir é incrível. Poderia ser verdade?Até agora, desde que o livro foi publicado, dois funcionários do governo me procuraram para comentar que sabiam da existência de apostas no Congresso. Apostam, por exemplo, em quantos votos serão necessários para aprovar um projeto. O senhor chegou a exercer a advocacia antes de se tornar escritor?Comecei a escrever quando terminei os estudos na Universidade de Michigan. Havia recebido uma oferta de emprego da revista Games. O diretor me disse: ?Se gostar do trabalho, você fica, se odiar, sai um ano depois com algum dinheiro.? Como tinha dívidas,pareceu um bom negócio. Então me mudei para Boston, mas quando cheguei lá o cara que havia me contratado deixara a revista sem me avisar. Fiquei arrasado e não sabia o que fazer. Então decidi escrever um livro. Escrevia todos os dias e me apaixonei. Recebi 24 cartas de rejeição para meu primeiro livro (não publicado), mas quando comecei a estudar advocacia encontrei o tema de The Tenth Justice (best seller instantâneo na lista do New York Times). O que acha das comparações com John Grisham? Grisham vende mais livros do que quase todo mundo. Mas se eu acho uma comparação justa? Não. Se eu acho correta? Não. Mas não vou negar que gosto do elogio. É verdade que adora o período de pesquisas? Como foi esse processo para O Jogo? Comecei logo após o 11 de setembro e naquela época ninguém era autorizado a entrar na Capitólio. Felizmente, tinha uma arma secreta: minha mulher trabalhava lá e a acompanhei diversas vezes. A melhor parte foi quando uma das pessoas que entrevistei me levou até o labirinto que existe no subsolo do Capitólio. O que descrevo no livro é real. Estive lá embaixo, foi demais. E aquela morte repentina no início? É chocante e inesperada.Como escritor, tenho pavor de me repetir, então a cada livro tento algo diferente. Quanto a O Jogo, pensei: ?Posso levar isso adiante?? Sabia que era um risco, mas tinha de tentar. Nunca vi ninguém fazer isso antes e tenho orgulho de ter feito. Algum dos personagens de O Jogo se parece com você? Todos eles são eu, só que mais bonitos e mais divertidos. Como escolhe os temas de seus livros? Nós sempre nos escolhemos. É como uma dança, os dois parceiros têm de concordar. Terá algum controle sobre a adaptação de O Jogo para o cinema? Em Hollywood? Eles não ligam para o que eu acho. E a paixão pelos quadrinhos? Eu cresci lendo Superman e Batman, foram minhas primeiras histórias e nunca mais as abandonei. Além de ser romancista, o senhor ainda escreve para a TV (Meltzer foi co-criador da série Jack & Bobby) e para os quadrinhos. Brad Meltzer é um sujeito multimedia? Não, sou apenas sortudo. Já esteve no Brasil? Minha sogra e meu cunhado estiveram por aí em novembro e adoraram. Fiquei morrendo de inveja. Daqui, só ouvimos o quanto é bonito

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