Rogério Cassimiro
Rogério Cassimiro

Admirável roupa nova: exposição em SP destaca criações de moda futuristas

Mostra da Japan House revela um território onde ciência e tecnologia são tendência

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2018 | 06h00

Estampas mutantes transformadas pela ação de raios UV, roupas que emitem luz quando tocadas, peças com jogos de luz e sombra que iludem a visão. Há um quê de feira de ciências na mais nova (e incomum) exposição de moda de São Paulo. Em cartaz no segundo andar da Japan House, na avenida Paulista, a mostra A Light Un Light apresenta as criações da marca Anrealage, capitaneada pelo japonês Kunihiko Morinaga.

Um designer pouco conhecido do grande público, Morinaga é um nome emergente entre uma geração que vem explorando novas fronteiras da moda, especialmente as que tangem ciência e inovação. “Um dos meus grandes motores é o desejo de expressar algo e a outra é a pesquisa. Utilizamos muitas tecnologias de fora da área de vestuário para construir nossas coleções”, explica Morinaga, em entrevista por e-mail ao Estado. “Na maioria dos casos, pedimos que as empresas utilizem sua tecnologia de uma forma pouco habitual, o que pode ser difícil às vezes, mas essa divergência de experiências me faz sentir que podemos criar coisas interessantes”, afirma ele.

Um apanhado dessas “coisas interessantes” está na montagem da Japan House que convida o público a iluminar, fotografar (de preferência, com flash) e até tocar as criações para conferir seus efeitos especiais.

Há casacos cujas estampas mudam de padronagem com a incidência de luz ultravioleta, vestidos refletivos aparentemente brancos a olho nu que revelam um vibrante e colorido trabalho de recortes geométricos quando expostos à luz, e até um macacão que tem partes acesas quando friccionado.

Parece o futuro, mas é só o presente de Morinaga. O que promete vir adiante, na opinião do estilista, é ainda mais inesperado: um tipo de desmaterialização da roupa. “Talvez a moda como ‘forma’ já nem exista mais. Com o uso das redes sociais, mesmo não tendo o item fisicamente, você consegue vestir objetos de forma virtual”, observa ele, projetando o que deve acontecer na indústria nos próximos anos. “Para a geração de hoje, uma camiseta comum pode ter várias estampas e cores por meio de um toque. Na ‘moda sem forma’, a base virá das telas de smartphones, um mundo 2D. Acredito que é essa a tecnologia que vai se desenvolver cada vez mais”, afirma.

Antes disso, entretanto, Morinaga continua trabalhando em propostas mais palpáveis e funcionais. Sua nova área de interesse envolve a relação entre moda, saúde e bem-estar. “Imagino uma roupa que pudesse ser como um órgão do corpo”, conta. “Os bastões-guia para deficientes visuais chamaram nossa atenção e tivemos a ideia de colocar um sensor de distância nas peças. Ele trabalha com o eco, emite ondas e reage conforme a vibração”, explica. “Até hoje, as roupas eram usadas para o corpo, mas também para serem exibidas aos outros. Com esse sensor instalado, almejo dar um mundo novo para todos e construir do zero essa relação (com o vestuário).”

Origens. Nascido em 1980, em Tóquio, Kunihiko Morinaga estudou na Waseda University e no Vantan Design Institute. Fundou sua marca em 2003. Desfila em Paris desde 2014 e hoje vende suas coleções em diversos pontos do Japão e em multimarcas de Paris, Los Angeles e Milão.

Sua moda evidencia um contraste marcante na cultura japonesa: a mistura de tradição e ancestralidade com futuro e vanguarda. Além do aspecto tecnológico das roupas, as criações da Anrealage carregam elementos clássicos dos designers de moda locais, como o rigor e a austeridade das formas, muitas vezes monásticas, o apreço por volumes e por construções que evocam dobraduras.

ANREALAGE: A LIGHT UN LIGHT

Japan House SP. Av. Paulista, 52, 2º andar, tel.: 3090-8900, japanhouse.jp/saopaulo. 3ª a sáb., das 10h às 22h; dom. e fer., das 10h às 18h. Grátis. Até 6/01/2019

 

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