Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Admirável cinema novo

Jovens encaram desafio de levar seus trabalhos à célebre mostra de Cannes

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2011 | 00h00

Trabalhar Cansa. Fazer cinema também. Há menos de uma semana, às vésperas do maior festival de cinema do mundo, em uma tarde em um sobrado de Pinheiros, Juliana Rojas, Marco Dutra e a produtora Sara Silveira ainda trabalhavam nos últimos ajustes do principal representante do cinema brasileiro em Cannes 2011. Estava quase tudo pronto. Faltava "só" definir o cartaz, checar a cópia, definir hotel, horários de voos, e figurinos, claro! Afinal, uma sessão da Un Certain Regard, a mostra em que o primeiro longa dos dois jovens diretores concorre, merece, ao menos uma beca bacana.

Dutra e Juliana embarcam segunda para Cannes. E até ontem tinham a informação de que estreariam no tapete vermelho no dia 12. "A programação oficial ainda não foi divulgada, mas estamos trabalhando com esse prazo. Só o fato de integrar a mesma seção de nomes como Gus Van Sant já é reconhecimento e pressão suficiente", comentaram os dois que, sob a tutela de Sara, mostraram ao Estado os primeiros 15 minutos do filme. E o que se viu foi um filme de linguagem interessante, que mistura "normalidade fria" e tensão latente nas entrelinhas. "Ninguém assistiu à versão final. Só mesmo em Cannes. Vai ser emocionante", dizia Sara, enquanto fechava os detalhes da viagem e respondia a dezenas de e-mails de "sales agents" (agentes de vendas) internacionais. "Aposto nesses meninos. Tenho orgulho de tê-los conhecido exatamente em Cannes, quando participavam com seu primeiro curta, Lençol Branco. São talentosos, focados e profissionais."

Apesar de veterana, que fundou a 19 Som e Imagem para produzir os filmes de Carlos Reichenbach, Sara é uma das produtoras que mais investem nos novos talentos. "Brinco que estou cansada de produzir curtas porque só dá trabalho. Mas não resisto. Adoro ver a garotada crescer."

De fato Trabalhar Cansa é fruto de longo investimento. "Começamos lá atrás com a produção do curta Um Ramo (que integrou Cannes 2009), depois vieram os tratamentos de roteiro, depois Berlim... E acaba aqui."

Para Sara, um dos fatores determinantes da escolha de Trabalhar Cansa em Cannes se deve ao novo olhar que Dutra e Juliana lançam sobre a realidade brasileira. "Não é filme favela. Não tem violência (não a típica). É uma história de classe média. Coisa com que os festivais internacionais não estão acostumados quando se trata de cinema brasileiro. Ter um produtor bom ajuda. Mas se entra em Cannes, é porque é bom", diz. "É um cinema de início muito consistente. Diferente. Pode começar aí um novo cinema brasileiro. Estamos precisando. Meu sonho é que o cinema brasileiro se torne o cinema argentino."

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