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'Adivinhe Quem Vem para Rezar' ganha versão portuguesa

Montagem da Seiva Trupe da comédia dramática vem ao Festival Mirada

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2013 | 19h06

Adivinhe Quem Vem para Rezar, que será apresentada até domingo no Sesc Belenzinho, é velha conhecida das plateias de São Paulo. Estreou por aqui em 2005, trazendo Paulo Autran e Claudio Fontana como protagonistas. Depois, mereceu montagens em Buenos Aires, tendo o veterano ator Federico Luppi no papel principal, e no Paraguai, com o grupo Arlequim.

A versão que agora aporta na cidade carrega sotaque português: é uma produção da Seiva Trupe, tradicional companhia sediada na cidade do Porto. A vinda ao Brasil ocorre dentro do contexto do Festival Mirada, que busca traçar um diálogo entre a cena teatral da península Ibérica e da América Latina.

“Temos uma estreita relação com os artistas brasileiros e dessa vez isso se dá na dramaturgia”, diz o diretor português Julio Cardoso. Escrita pelo jornalista e dramaturgo Dib Carneiro Neto, a obra revela o encontro entre um homem que, durante a missa de sétimo dia de seu pai, encontra-se com um antigo amigo da família, suposto amante de sua mãe. O tom, obviamente, é de acertos de contas.

Mas o que talvez mobilize a companhia a revisitar a criação seja menos o conflito familiar e mais a possibilidade de observar homens a discorrer sobre seus sentimentos. Ao focalizar as relações sob esse ponto de vista masculino, o dramaturgo – reconhecido por outras obras, como Salmo 91, adaptação do livro Estação Carandiru, que foi encenada por Gabriel Villela – acaba por descortinar outra questão: o mal que o silêncio pode fazer.

Não é apenas com o amante da mãe que o protagonista se encontra. Nessa conversa também entrarão as figuras de um padre e a de seu próprio pai. Todas astutamente interpretadas pelo mesmo ator. Nessa versão, cabe ao ator António Reis desdobrar-se nos três papéis.

Sem fugir à fórmula do drama familiar típico, a peça reúne trocas de acusações, além de segredos que vem à tona, lágrimas, cobranças e traições. Mas consegue, por meio da ironia, revestir a trama de achados cômicos e certa dose de irreverência e leveza. “Trata-se de uma comédia dramática, que carrega um humor profundamente sarcástico”, considera o encenador.

É certamente a maneira como foi delineado o personagem do filho que abre espaço para as inserções de humor. Ainda que se trate de um homem de 40 anos, ele continua a portar-se e a reivindicar atenção de maneira infantil. Guardou mágoas de criança, que o tempo em nada ajudou a resolver.

Outro aspecto a garantir o andamento da trama é o conflito geracional que se dá no palco. Em uma inversão de expectativas, cabe aos mais velhos uma postura mais libertária e compreensiva em relação a diversos assuntos, inclusive sexualidade. O filho, nesse cenário, merece tonalidades mais conservadoras. Coloca-se sempre em posição de confronto em relação a esses homens mais velhos, que ele, invariavelmente, reveste de tintas paternais. “Ele é de um conservadorismo atroz. Está constantemente a criticar o crescimento do homem moderno e sua necessidade de quebrar tabus”, pontua Cardoso. Mas uma transformação se insinua nesse personagem, e ela se originará tanto da dor da perda quanto do alívio do diálogo.

ADIVINHE QUEM VEM PARA REZAR

Sesc Belenzinho. R. Padre Adelino, 1000, 20769700. 6ª e sáb., 20h; dom., 17h. R$ 25

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