Adeus solo

Uma dinamite chamada Solomon Burke foi desativada

Ben Sisario THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

A vida de um pastor evangélico ordenado, agente funerário licenciado, mais tarde empresário e fabuloso contador de causos, com 21 filhos, 90 netos e 19 bisnetos, já seria uma grande história. Mas esse mesmo cara se tornou Solomon Burke. E aí a coisa transborda. Solomon Burke, ainda que não tenha tido o mesmo espaço na vitrine que James Brown e Wilson Pickett, fez a soul music ganhar a força que ganhou. Solomon, o gigante, o tornado, morreu no último domingo de causa ainda desconhecida, no Aeroporto Schipol, em Amsterdã. Ele tinha 70 anos e morava em Los Angeles. A família foi quem deu a notícia em seu site oficial, thekingsolo monburke.com.

Gospel, country e rhythm and blues, às vezes tudo misturado, eram a casa de Burke. Veja qualquer sequência no You Tube para ter uma palinha do seu tamanho. O homem surgia no palco com um poder de imagem impressionante. Sorria e cantava crente de que mudaria a vida daqueles que o assistiam. Frequentemente levava para o palco um trono. Se Brown tinha uma capa, ele tinha a coroa, o cetro e o manto. E os levava a todos os shows.

Nos últimos, tinha de entrar no palco usando uma cadeira de rodas por causa do peso que acumulou. Suas mais poderosas performances estão em músicas como a doce balada Cry to Me (de 1962), You Can Make It if You Try (1963) e a explosiva Everybody Needs Somebody to Love (de 1964). Mick Jagger cantou várias de suas canções em álbuns iniciais dos Rolling Stones e Jerry Wesler, o produtor da Atlantic Records que gravou Burke em seu apogeu, já afirmou que era Burke o melhor cantor de soul de todos os tempos.

O fato de ter 21 filhos era lembrado com orgulho e graça. Olha só o que ele dizia sobre isso: "Eu me perdi em um dos versículos da Bíblia que dizia "crescei e multiplicai-vos". Parei a leitura ali." Nascido em 21 de março de 1940, na Filadélfia, Burke foi precoce no púlpito e no microfone. Sua mãe e sua avó eram pregadoras e seu pai depenava galinhas em um mercado judaico. Segundo o livro de 1986 escrito por Peter Guralnick, Sweet Soul music: Rhythm and Blues and the Southern Dream of Freedom, (Doce Soul Music: R&B e o Sonho Sulista de Liberdade, em tradução livre), Burke pregou seu primeiro sermão aos 7 anos e aos 9 era amplamente conhecido como "o menino prodígio pregador"." Quem o via no palco não duvidava disso.

Burke e Igreja não iriam muito longe de mãos dadas. "Eu adoro mulheres bonitas, e não vou negar", disse em 2002. "Sam Cooke estava enchendo igrejas ao mesmo tempo que eu, mas quando ele estava cantando canções sagradas, as mocinhas estavam pensando, "Senhor, Jesus, ah se eu pudesse agarrar esse Sam Cooke. Irmão Sam, venha orar por mim uma vez!" Tudo aquilo na sala; a vida é assim."

Uma retomada de Burke se deu nos anos 80, ajudado por Hollywood: Everybody Needs Somebody to Love foi cantada em Os Irmãos Cara-de-Pau (de 1980) e, em 1987, Cry to Me ganhou destaque no filme Ritmo Quente.

Solomon Burke nunca parou de fazer turnês ou gravar discos. Seu álbum mais recente. Nothing"s Impossible - sua primeira e última colaboração com o célebre produtor Willie Mitchell, que morreu em janeiro - foi lançado pelo selo E1 em abril. No domingo, ele tinha voado para Amsterdã para um concerto nessa cidade, com lotação esgotada. Teria a seu lado a banda holandesa De Dijk. "Ele ia espalhar sua mensagem de amor, como adorava fazer", anunciou seu site. Ok, vamos jogar limpo. Solomon ia era tocar o terror naquele teatro e, como adorava fazer, mudar a vida de quem o assistia no palco. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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