Adeus, Philip!

Enquanto Israel ameaçava invadir Gaza, a carnificina prosseguia na Síria e os EUA se aproximavam do "abismo fiscal", outro acontecimento chamou a atenção de todos - histórico, importantíssimo, verdadeiro divisor de águas: Philip Roth anunciou que vai parar de escrever. Desculpem o sarcasmo, mas a comoção provocada pelo melodrama que Roth resolveu protagonizar foi um absurdo sem tamanho.

LEE SIEGEL, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h14

Em parte, porque um escritor que abandona a literatura em estágio tão tardio da carreira não constitui notícia nenhuma. Se Obama resolve ficar na cama até mais tarde, em vez de continuar a ser presidente dos EUA, isso merece ser noticiado. Se o papa opta por abdicar do papado para ser diretor de cinema, isso merece ser noticiado. Mas não há por que gastar tinta com a novidade de que Roth, que completa 80 anos em março, chegou à conclusão de que não tem mais nada a dizer.

Apesar da irrelevância flagrante e do quê de megalomania, o anúncio de Roth deu o que falar. Foi assunto na TV e na imprensa escrita. O New York Times dedicou duas matérias ao tema, uma delas extensa, acompanhada de foto do escritor com a seguinte legenda: "Philip Roth diz que resolveu parar de escrever em 2010, mas guardou a decisão para si mesmo". Bom, longe de mim me comparar a Roth, acontece que nesse mesmo ano de 2010 resolvi parar de comer ameixas secas, e também guardei a decisão para mim. Sei muito bem por que o ultranarcisista Roth fez o seu anúncio histriônico. Mas por que chamou tanta atenção?

Um dos motivos pode ser a declaração que acompanhou o anúncio de que a carreira de Roth tinha chegado ao fim: ele não vai só parar de escrever, mas também não vai mais ler uma linha de ficção. Estamos numa época em que as aceleradas mudanças culturais têm despertado uma preocupação generalizada com o futuro da leitura. Assim, quando o homem considerado o maior romancista dos EUA vem a público dizer que não pretende mais ler romances, isso é recebido como a confirmação dos piores receios das pessoas. E, apesar de todos os romances publicados, e de todo o alvoroço que se faz em torno de cada novo romance lançado por certos escritores, todos os que se interessam por literatura se alarmam com a crescente irrelevância do romance, seu progressivo obscurecimento pelo cinema, pela TV e por todas as novas formas de narrativa visual que vêm sendo criadas na internet.

De fato, é a lenta extinção da cultura literária e do próprio hábito de ler que explica a reputação tão vulgarmente inflada de Roth. Também a imagem dos índios norte-americanos começou a ser sentimentalmente inflada quando eles estavam sendo exterminados. Faz mais ou menos dez anos que Roth se tornou um objeto de fetiche literário. Grande estilista, dotado de cultura vastíssima, autor de obras que comprovam sua devoção aos rigores da arte, ele foi alçado à condição de monumento nacional à cultura literária que está em via de desaparecer. Há pouco tempo, tive o prazer de ter algumas conversas demoradas com Al Pacino, por conta de um artigo que estava escrevendo sobre ele. Homem modesto, o ator de 72 anos faz pouco de todos os prêmios que recebe, pondo-os na categoria de "premiação por perseverança". Isso descreve à perfeição muitos dos elogios dedicados aos últimos livros que Roth publicou - todos tão deficientes. O que deixava as pessoas admiradas era que o sujeito continuasse escrevendo.

Há um tom colérico no anúncio de Roth, e eu o admiro por isso. Num texto fascinante e muito comentado que ele escreveu para o blog da revista The New Yorker alguns meses atrás, Roth criticou duramente a Wikipédia por incluir interpretações equivocadas de seus romances no verbete que a enciclopédia on-line que lhe dedica. Seu desprezo pela superficialidade e pelo caráter obtuso da era digital ficou bem claro. Nesse anúncio, observa-se casmurrice semelhante. Por que ele iria aplicar sua energia imaginativa sobre um mundo tão idiota? Admirável, mas caracteristicamente narcisista. O mundo toca seu barco em frente, só isso.

Não li mais nada de Roth depois de Animal Agonizante, que li para fazer uma resenha. O livro é puro Roth: autocentrado, autólatra, obcecado com sexo. Conta a história de um homem de meia-idade que tem um caso com uma moça muito mais jovem. Ele descobre que ela tem câncer de mama. A moça faz uma mastectomia e isso causa repulsa sexual ao sujeito. A experiência proporciona-lhe uma lição valiosa: o sexo empalidece diante da mortalidade. É um romance repelente, desagradável e idiota. Em minha resenha, eu afirmava que Roth tinha um estilo bonito, mas seu conteúdo era baixo, e ilustrava a ideia dizendo que era como usar um pedaço de mármore Carrara para esculpir um pênis artificial para brincadeiras eróticas. Pelo que eu soube, Roth não gostou nem um pouco da coisa, e agora, sempre que encontro um de seus amigos numa festa, levo o maior gelo.

No entanto, é evidente que os leitores americanos - não a formidável máquina de publicidade de Roth - têm hoje uma relação muito mais sofisticada com o sexo e uma paciência muito menor com exibições de narcisismo, em qualquer das suas infinitas formas, para sentir algum prazer com o tipo de experiência masculina, tão característica de meados do século 20, que está no cerne da ficção de Roth.

No artigo do New York Times sobre a "Formidável Renúncia" de Roth, um pequeno fato foi mencionado de passagem; o autor da matéria não lhe deu importância. O fato é o seguinte: longe de ter parado de escrever, Roth agora está escrevendo uma novela por e-mail com a filha de 8 anos de uma antiga namorada. Isso mesmo, o escritor americano cujo nome, mais do que o de qualquer outro, faz pensar em sexo - e, a bem da verdade, provavelmente perdeu a chance de ganhar o Prêmio Nobel por conta de sua obsessão tacanha com o sexo -, esse escritor movido por uma obsessão fálica está escrevendo uma obra de ficção em colaboração com uma garotinha de 8 anos. Por e-mail. Não, Roth não abandonou sua arte, não enterrou sua varinha como Próspero. Foi a arte que lavou suas mãos diante desse escritor irremediavelmente trivial e constrangedor.

Tomando de empréstimo o título do primeiro livro Roth, a coletânea de contos Adeus, Columbus: Adeus, Philip! E, olhe, a porta da rua é a serventia da casa.

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