Adeus às ilusões

Que horas são? Neste exato momento, 14h31.

SÉRGIO AUGUSTO,

25 de agosto de 2012 | 03h17

 

Seu relógio marca outra hora, de outro dia, de um presente que, enquanto escrevo, se situa, paradoxalmente, no futuro. Mas, para facilitar as coisas, acertemos nossos ponteiros pelo que agora assinala o relógio digital do meu computador: 14h32. Pois é, já perdemos um minuto. Tempus fugit.

 

Por falar em Virgilio, na Roma Antiga, a resposta seria "Depois do almoço" ou vagueza equivalente orientada pela luz solar. Ninguém, então, saía à rua portando um relógio do sol ou uma clepsidra (relógio d ‘água) ou uma ampulheta. E em idos bem mais remotos, nem aqueles objetos pré-analógicos de medir o tempo em casa ou no jardim existiam. Os primeiros relógios mecânicos só apareceram no século 14 e os de bolso, dois séculos depois. E nunca mais nos libertamos deles, lembretes onipresentes da passagem inexorável do tempo e de nossa finitude.

 

Nada nos é mais precioso e incontrolável que o tempo. A expressão "matar o tempo" é um dos maiores disparates já urdidos pela cretinice humana, pelo desperdício implicado e por sua inexequibilidade. Ninguém mata o tempo; ele, sim, é que nos mata. Um minuto a mais, na verdade, significa um minuto a menos, um abatimento de 60 segundos em nossa transiente passagem pelo mundo. Do ponto de vista da morte, a vida nada mais é que a lenta fabricação de um cadáver. Adoraria ter inventado essa frase, mas Walter Benjamin foi mais rápido.

 

Todas essas divagações me foram estimuladas pelo ciclo de palestras sobre as mutações impostas ao conceito de tempo que o prof. Adauto Novaes inaugurou na semana passada. Seu título, O Futuro não É Mais o Que Era, foi um achado, pinçado de uma tirada de Paul Valéry, cujos desdobramentos alcançaram até as memórias da atriz Simone Signoret, A Nostalgia não É Mais o Que Era. A bem dizer, nada mais é o que era, muito menos o futuro.

 

Pouquíssimos adoram e conhecem mais Valéry que Novaes. Nenhum outro pensador iluminou suas ideias e seus vários ciclos de conferências com a mesma frequência e o mesmo fulgor do poeta e filósofo francês. Sobre o tempo Valéry filosofou sempre com impressionante originalidade. Também foi ele quem disse que "entramos de costas no futuro", como o Angelus Novus de Walter Benjamin, com os escombros do passado diante dos olhos.

 

Ao anunciar que o futuro, "como o resto", não era mais o que havia sido, o poeta, morto em 1945, estava reconhecendo que a visão que se tinha do futuro, entre as duas guerras mundiais, perdera sentido. "Perdemos nossos meios tradicionais de pensar nele e de prever", acrescentou, estendendo a impotência perceptiva à nossa capacidade de reconstituir o passado. Vivendo "em meio a dois mundos", com dificuldades de ver o presente e tentar ver o futuro, Valéry acabou por enfiar no mesmo saco o historiador e o profeta.

 

Desde os estoicos, e depois com Santo Agostinho, que os filósofos discutem o sentido e as sutilezas do tempo, as imbricações do passado com o presente e o futuro. O presente sentimos na carne, ao contrário do passado, que não existe mais, e o futuro, que não existe ainda. Mas o presente, pense bem, é tão fugaz que praticamente inexiste: ou está passando ou acabou de passar, já virou, instantaneamente, passado.

 

A física desconhece essas "categorias", cuja distinção configura uma ilusão, persistente e útil na lida cotidiana, concedeu Einstein, com boa dose de ironia. O tempo é uma criação do homem, não da ciência, esse saber que, segundo Heidegger, "não pensa". Passado e futuro, ressaltou Valéry, só existem no pensamento, quando pensamos nas lembranças do que aconteceu (e não pode ser mudado) e nas especulações sobre o que poderá acontecer.

 

A ciência pode não pensar, mas desde o século 19 que o futuro é sempre projetado como uma era de prodígios científicos, uma Renascença tecnológica. Um dos objetivos do novo ciclo de palestras coordenado por Novaes, em curso no Rio e em São Paulo até o início de outubro, com transmissão ao vivo pela internet (www.academia.org.br), é especular sobre que vinculação podemos ter com nosso futuro quando os ideais revolucionários e a própria ideia de esperança perderam espaço e a tecnociência, a biotecnologia e a informática pretendem dar resposta a tudo e a tudo prever.

 

Em sua intervenção, Sergio Paulo Rouanet deu plena vazão ao seu benjaminiano ceticismo: "Não é só o futuro que não é mais o que era, mas também o passado e o presente." O passado sucumbe à amnésia geral, à falta de experiência, e o presente, à nossa condenação ao efêmero, "à mera experiência da indústria cultural e à sociabilidade eletrônica do Facebook", à substituição da conversa pela rede social, à colonização do tempo dito livre pela indústria de entretenimento e do turismo, à vampirização dos olhos, dos ouvidos e dos neurônios pelos celulares inteligentes. E à neostalgia, acrescento eu: a nostalgia pelo futuro, conspicuamente alimentada pela publicidade e pelo cinema.

 

Francis Wolff, que irá falar no meio da próxima semana, considera impossível ver o nosso futuro como o víamos ontem ou como o imaginávamos dez anos atrás, porque o mundo já não é mais o mesmo (faltam-lhe agora utopias e sobram-lhe novos e velhos pesadelos) e nós também mudamos. "As promessas de anteontem quanto ao fim da exploração do homem pelo homem, ou a de ontem, quanto ao desenvolvimento sustentável não foram cumpridas", lembrará Wolff, à guisa de preâmbulo para o seu xeque-mate: a memória não é melhor guardiã do passado que a imaginação, do futuro. Há um monte de livros de história, biografias e ficção científica provando isso.

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