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Humberto Werneck
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Adeus à arma

O golpe de 64 me pegou com 19 anos e moderado interesse pela política. Queria mais era namorar a Teresa e escrever uns contos, com os quais haveria de vencer o concurso mensal da Prefeitura de Belo Horizonte, armando o bote para batucar na minha Lettera 22 o romance que me garantiria vaga nas letras no mínimo nacionais. Quem sabe um novo O Encontro Marcado, pois não podia ser só coincidência o fato de jogar basquete no mesmo Minas Tênis onde o Fernando Sabino tinha sido um ás da natação, e estudar (o verbo não é bem este) no mesmo colégio, o Estadual, por onde ele passara. O concurso, até faturei, 1º e 2º lugares, mas o romance, embatucado, continuo devendo, sem o mais remoto intuito de vir um dia a batucá-lo.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h11

A política, naquele começo de 1964, era assunto fatal em mais de um sentido, e para um rebento da classe média católica de Minas Gerais tornou-se impossível ignorar as evidências de que estava a caminho (assim trovejavam os jornais), prestes a nos aniquilar, o rolo esmigalhador do comunismo ateu, cuja primeira providência seria acabar com as aulas de religião. A reforma agrária nos confiscaria as fazendas. Minha bisavó Chiquinha, que já tomara birra da palavra "praia" - aquela lonjura para onde agora os netos e bisnetos vira e mexe se mandavam -, embirrou também com "agrária", ante a boataria de que a fazenda da Lapa seria retalhada e entregue ao populacho.

O outro lado da família, o de meu pai, de modo geral fechava com o udenismo em carne viva do nosso parente Carlos Frederico Werneck de Lacerda, então governador do Estado da Guanabara, criado quando o Rio deixou de ser a capital do país. Também nesse caso, a gente ia perder uma fazenda, na qual há décadas enterrávamos dinheiro, que nem assim brotava: mal e mal, de lá tirávamos brita, quando o britador não estava quebrado, e morango, que me lembro de ter ido, com mamãe, vender de porta em porta em restaurantes do centro da cidade.

Lá em casa, em particular, a admiração pela oratória corrosiva do Lacerda era nenhuma, já que torcíamos pela volta à presidência, em 1965, de seu rival Juscelino Kubitschek. E não tínhamos especial simpatia pelas grã-finas da liga da mulher democrática, àquela altura dispostas a sacrificar o carteado para saírem à rua de rosário em riste, congregadas num endinheirado afluente que ia desaguar no caudal das Marchas da Família com Deus pela Liberdade.

No dia do golpe, ouvi pelo rádio o Lacerda a disparar desafios e desaforos contra os vermelhos, os quais, anunciava, marchavam rumo ao Palácio Guanabara. Os jornais mostrariam fotos do governador em seu gabinete, metralhadora ao alcance da mão, decidido a resistir a um invasor que não daria as caras.

Lembro-me também de outra arma, essa bem mais modesta, igualmente ensarilhada na batalha pela democracia. Minha velha conhecida (aposentada e impotente, jazia em cima do guarda-roupa de meu pai), era uma carabina curta - cano de 18 polegadas, menos de meio metro -, calibre 22, com que a falecida vovó Dora se distraía fazendo tiro ao alvo, ou, conforme outra versão, matando gambás no quintal. Não tinha gatilho, era preciso apertar um botão na coronha.

Só agora, meio século depois, graças a meu amigo Fernando Paiva, autoridade nesse e em tantos outros assuntos, vim a saber que se tratava de uma Thumb Trigger, o modelo 99 da Winchester, do qual cerca de 75 mil unidades foram produzidas entre 1904 e 1923. Segundo a Sotheby's, informa o Paiva, "em estado excepcional de conservação uma dessas chega aos 5 mil dólares".

Tarde demais para passá-la nos cobres: no dia do golpe, um dos primos foi lá em casa e convenceu meu pai a lhe emprestar a veterana e veneranda carabina. Alistado numa milícia de voluntários civis constituída para enfrentar a ameaça esquerdista, não chegou a usá-la. Tendo havido um bafafá num bairro da periferia, no qual morreu uma pessoa, não se sabe se do Bem ou do Mal, a polícia intimou os voluntários - mesmo os ausentes, como o primo - a entregar as armas. E lá se foi, para todo o sempre, a nossa Thumb Trigger, cujo prontuário, se não ostenta um comunista, talvez contabilize gambás abatidos pela minha avó.

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