Ademir Assunção lança livro em SP

Stevenson dizia que a matéria sobre a qual o poeta atua, a linguagem, é absurdamente inadequada. Cumpre-lhe transformar um nada em tudo, projetar a emoção mínima - aqui já segundo Borges - em uma fábula ou uma cadência.O poeta Ademir Assunção, amante de céus de lata, alfinetes & gafanhotos, pétalas & velhos bilhetes amassados lança nesta terça-feira Zona Branca, no Finnegans Pub. É seu quarto livro, o segundo de poemas, pela Editora Altana. À conclusão clássica de Stevenson, ele acrescenta uma contemporânea, de William Burroughs: "Linguagem é um vírus".Zona Branca é o resultado de cinco anos trabalhando esse vírus, diz Ademir. Na verdade, um livro de poemas nunca é só isso - quando o mais é aquilo. É uma vida toda que se revela no trabalho, da fixação em Pound e Frank Zappa (de quem empresta o título, White Zone, da ópera Joe´s Garage, que o poeta ouve desde quanto Art Blakey era vivo), à influência de Roberto Piva e Glauco Mattoso, dois dos maiores poetas brasileiros contemporâneos.Mas talvez o leite materno que mais ajudou a forjar a carne poética de Assunção seja o haikai japonês, ao qual ele chegou por meio de um andarilho polaco que veio do frio - Paulo Leminski. O Japão desfolhado por um polonês carnavalesco, e tudo o mais não se explica. Tanta violência, mas tanta ternura, como disse Mário Faustino. ouça o guincho do porco - o flerte frio da faca: vermelha é a cor do vinho e do sangue - essa noite haverá uma matança Mas a noite de terça é de festa. Ademir Assunção investe-se da tradição spoken words (a tal palavra cantada dos beatniks) e traz um grupo de amigos para apresentar sua inadequação linguística: Arrigo Barnabé, Chico César, Rodrigo Garcia Lopes e os músicos Madan (violão) e Luiz Waack (guitarra). O grupo pretende também mostrar o Minisfesto Zona Branca, um texto que exalta a necessidade - ou a urgência - da criação de "bolsões artísticos imantados pela rebeldia e pelo inconformismo". lá, onde sóis azuis luzem a noite inteira lábios sorvem o suor sede de saliva - a espada rompe o espelho o sangue ferve, febre vapor quente nas narinas - possuída, ela convoca éguas luas & golfinhosFeito de imagens que invocam a fumaça azul do cinema de Babenco e Hitchcock, Tarkovski ou Peter Greenaway, Zona Branca é um dos grandes lançamentos de poesia - atualmente a mais marginal das formas de expressão artística -, junto com todos os livros recentes de Glauco Mattoso, genial mestre das sombras.

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