Adélia Prado lança "Quero Minha Mãe"

A poeta mineira Adélia Prado lança novo livro Quero Minha Mãe para comemorar os 70 anosAdélia Prado completa 70 anos no dia 13 com um novo livro, Quero Minha Mãe. O título, mais que sugestivo, é quase um pedido de socorro de Olímpia, a protagonista. Aos 60 anos, essa dona de casa que gargalha debaixo do chuveiro no meio da madrugada, apesar de um câncer, é um exemplo vitorioso. Vence a doença com a ajuda de um milagre e convence o leitor a se lançar na vida em busca do sonho, após ouvir da médica um único conselho: "Olímpia, a glória de Deus é que o homem viva." É essa simples frase que transforma a vida de Olímpia como um ´miradum´ que lhe revela um encanto sobrenatural no ato de existir. Sobre seu adorável livro, Adélia falou com a Agência Estado - mineira e modernamente - pela net. E enviou com as respostas um comovente poema inédito sobre sua cidade natal, Divinópolis, reproduzido nesta página. "Quero Minha Mãe" chega para comemorar seus 70 anos e fala justamente de um milagre. Qual seria o maior deles, capaz de transformar Adélia Prado como transformou Olímpia?A pacificação com relação à morte, uma atitude de desapego radical a tudo que não disser respeito ao amor, única necessidade real. Logo no começo do livro você cita o filme de Andrei Tarkovski, "A Infância de Ivan", ao descrever Olímpia como uma mulher que perdoa, carece de perfil e desenvolve um câncer. Ivan não sabia perdoar e cruzou as linhas inimigas para vingar sua família. Qual a principal lição que o filme de Tarkovski encerra para sua Olímpia? Olímpia queria ser como Ivan, porque admirava profundamente pessoas inteiras na sua ira ou na sua virtude. Esteve sempre dividida entre o que ´devia´ fazer e o que queria fazer. A raiva de uma criança é um espetáculo formidável. No entanto, acredito que Ivan adulto padeceria como Olímpia na infância, consciência é dor. Hoje me dou mais carinho, aprendi a seguir o coração. Quase tudo o que se lê a seu respeito na imprensa destaca o papel "missionário" de sua obra, como se a sua literatura fosse catequizadora e sua prosa poética não tivesse outra função além de assumir um papel oracular. Isso não a incomoda? Na mesma medida em que acreditam que por ser de Minas tenho de fazer pão de queijo. A poesia é um oráculo, seja eu ateu ou crente. Seu caráter epifânico independe da confissão religiosa do autor. Geralmente, o tipo de apreciação ´missionária´ vem da confusão que se faz entre tema, enredo, casuística e o que constitui a obra como tal, a forma. O registro religioso numa obra mexe com as pessoas num lugar não literário e pode provocar repulsa ou facilitar a aceitação do texto, assunto para a psicologia e não para a crítica literária. Sendo de formação católica, como você vê a Igreja num momento em que ela endurece em questões morais, fechando com os fundamentalistas em assuntos como orientação sexual e uso de contraceptivos? São Paulo ensina: "Agir contra a convicção é pecado." Acho que é absolutamente correto. Quando Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae, desobedeci-o sem problemas. Rejeitei os argumentos que usou para justificar a proibição da pílula. Quanto à orientação sexual, penso que estamos longe de tratar a questão com tranqüilidade, é um fenômeno por demais complexo e perturbador. Só de uma coisa tenho certeza, o olhar de Deus sobre o assunto deve ser extremamente diverso do nosso, e é preciso encontrá-lo. Há seis anos, nas páginas do jornal O Estado de S.P., você comentou afirmações de que a religião do futuro seria a psicanálise, lembrado que Jung havia descoberto que a cura de um paciente pode vir por meio de sua reaproximação com a religião de origem. É o que acontece com Olímpia, em "Quero Minha Mãe". Você está sugerindo que a auto-análise leva ao reencontro com Deus? Leva, pela simples razão de que leva ao conhecimento de si mesmo. Não lembro o autor, é mais ou menos assim: "Conhecer Deus é encontrar-se", e vice-versa, mais ou menos isto. É impossível Deus não estar em mim, existir sem conexão nenhuma com Ele é ser um absoluto e, como não somos... A professora de literatura canadense Claire Varin diz que não se pode ler Clarice Lispector sem ser Clarice, ou seja, sem tomar seu lugar, assumindo uma espécie de possessão. De alguma maneira é possível dizer o mesmo de sua literatura. É impossível não ser Adélia lendo Adélia. Você já imaginou como são seus leitores homens? Devem ser homens com o feminino bem resolvido, o que os torna encantadores e irresistíveis. Há uma passagem em "Quero Minha Mãe" em que Olímpia diz que inveja os bárbaros, vivendo sempre segundo a carne. Olímpia se diz "cristã-nova, inclinada à cabala". Diz que gosta de "Abraão fazendo filho com a escrava". Você tem nostalgia desse mundo agrário, pré-moral? Tenho. É mais ou menos o mundo das paixões brutas. Não é pré-moral, mas é da lei de Talião. Eu iria aprontar, até hoje, volta e meia tenho de ´contingenciar´ minha vocação de Joana d´Arc e Maria Bonita. A estudiosa de sua obra Cecília Canalle lembra que o grande tema de sua escrita é o real, ou seja, a cena cotidiana, o prosaico. No entanto, como diria Fellini, o verdadeiro realista é o visionário. Como você vê, afinal, a rotina? Como uma ponte para a transcendência ou um desastre horroroso a ser administrado, como diria a Alba de "Quero Minha Mãe"?É verdade, só o real me interessa e só o visionário vê o real, que não está reduzido ao prosaico. A grande rotina é a condição humana, limites, carências, desejos. É horroroso, sublime, maravilhoso, transcendental. Exista, e tudo já é dado. A rotina é uma bênção. O dia melhor é segunda-feira, a máquina em movimento. Uma passagem curiosa do livro é a imagem que Olímpia faz do Nordeste, idealizando a região como um lugar com história, enquanto fala mal de Minas. Ser mineira é uma condenação ou um caminho para a libertação? Eu falei mal da minha cidade, não de Minas. Queria ter nascido numa cidade bem velha. Tenho um sonho recorrente com esta cidade. Mas ser mineira é ótimo. Sinto sempre um preconceito a favor. Como você se sente em relação a outros escritores e poetas cristãos como Murilo Mendes, Gerard Manley Hopkins ou Cronin? Como guardiã de uma tradição ou uma mulher independente que, por acaso, é cristã?Certamente sou tributária de uma tradição, o guardianato pode acontecer porque só posso falar a partir do que sou, o que é um limite intransponível. A fé cristã me constitui, como a mineiridade, e demais registros biográficos. Aparece na obra com a mesma fatalidade de uma goiabeira que só dá goiabas. Com relação aos autores citados, sinto alegria de pertencer à tribo.Leia poema inédito cedido ao "Grupo Estado"DIVINÓPOLIS As hastes das gramíneas pesavam de sementes sob uma luz que, asseguro-vos, nascia da luz perpétua. Quis dizê-la e não pude, ingurgitada de palavras, minha língua se confundia. Cantei um hino conhecido e foi pouco, disse obrigada Deus e foi nada. Em meu auxílio meu estômago doeu um pouco, pelo falso motivo de que sofrendo Deus me perdoaria. Foi quando o trem passou, uma grande composição levando óleo inflamável Me lembrei de meu pai corrompendo a palavra que usava só para trens dizendo ´cumpusição´. O último vagão na curva e passa o pobre friorento de blusa nova ganhada. Aquiesci gozosa, a língua muda, a folha branca, a mão pousada.

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