Adélia Prado dá voz aos poemas

"Mas ninguém escapará à sedução da minha paciência", escreveu a poetisa mineira Adélia Prado. Pois também será difícil escapar à sedução de seu primeiro CD, O Tom de Adélia Prado, no qual dá voz à seleção de poemas do livro Oráculos de Maio (1999, Siciliano). Uma produção do selo Karmim, o disco será lançado com recital da escritora na sexta-feira, no Teatro Sesiminas, em Belo Horizonte. "Tomara que as pessoas, ao ouvirem o CD, descubram que coisa boa é fazer poesia", diz.Apesar de ter tido experiências com leituras de textos, durante estes 25 anos de carreira, Adélia havia feito apenas uma gravação em fita para a série O Escritor por Ele Mesmo, do Instituto Moreira Salles. A gravação do CD foi realizada em fevereiro, no Estúdio Bemol (BH). O resultado, segundo a própria autora, "é uma feliz unidade entre o texto e a música composta", referindo-se à trilha sonora assinada pelo compositor e flautista Mauro Rodrigues.Idealizado por Carminha Guerra e realizado com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, o CD comemora os 10 anos da Karmim. Para ela, a música e a poesia representam o lado feminino de Deus. "Ainda não conhecia Adélia mas foi uma surpresa descobrir que era seu sonho gravar os poemas."Primeiramente foi feita a gravação dos poemas em estúdio. Para compor a trilha sonora, Rodrigues ouviu a leitura por diversas vezes e percebeu que o tom da voz de Adélia é em torno da nota sol com variações em sol menor. "Essa foi a referência para trabalhar a paisagem musical", diz. Ela também deu indicações de timbres e instrumentos que poderiam ser usados como o oboé e o violoncelo. "Restou-me resgatar a função da música como uma ligação entre o céu e o terra, que a poesia da Adélia faz", afirma Rodrigues, que convidou Fernando Araújo (violão), Firmino Cavazza (violoncelo) e Carlos Ernest (oboé) para participarem da trilha.Mineira de Divinópolis, mãe de cinco filhos, avó de seis netos e autora de 11 livros publicados, Adélia é repleta de espontaneidade, seja em seu jeito, suas palavras ou em sua poesia. A confissão religiosa que transparece no registro de toda a sua obra também está explícita em O Tom de Adélia Prado. Mas desta vez, na voz da intérprete, no desvelar de sua alma. "Para mim, as experiências religiosa e poética são a mesma coisa, não há como abstrair da experiência poética o seu caráter transcendental e religioso.""Você poderia ler poesia dentro da igreja, como se lê Salmos e vice-versa, tal a natureza poética e religiosa de ambos", afirma. Segundo a poetisa, a razão é o campo do raciocínio, da lógica, e a arte não é fruto disso. "Poesia a gente não manda nela, vem na hora que quer, sopra onde quer", diz. "A inspiração é fundamental para a criação."Composto por 56 poemas, divididos em seis partes (Romaria, Quatro Poemas no Divã, Pousada, Cristais, Oráculos de Maio e Neopelicano), o disco também exprime a condição feminina e o erotismo pelos olhos de Adélia. "Depois das conquistas de natureza social, a mulher sofre pela ausência do exercício que lhe é próprio e pela perda de valores essencias", afirma. "Já o erotismo é vitalidade e não tem nada mais vivo do que a poesia."

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