Adauto Novaes leva filosofia ao grande público

Adauto Novaes, indicado para o Prêmio Multicultural como fomentador cultural, tem seu nome associado, de imediato, à filosofia. Em particular, aos célebres ciclos de debates que organizou ao longo dos mais de 20 anos em que esteve à frente do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte, criado por ele em 1978. Os ciclos de filosofia passaram a se converter, ainda, em alentadas coletâneas de ensaios, com a reunião dos originais das conferências, editadas pela Companhia das Letras. Houve uma primeira série de 12 ciclos, encerrada em 1996. A essa série maior se seguiu uma segunda, de quatro ciclos ainda não concluída, que tem como tema os 500 anos do Descobrimento. Ela se encerra no segundo semestre deste ano. O primeiro deles, A Descoberta do Homem e do Mundo, teve como objeto de investigação o pensamento europeu à época do descobrimento - e o que dele chegou até nós. O segundo, A Outra Margem do Ocidente, foi dedicado ao estudo do Brasil de 1500: as sociedades indígenas, em particular. "Procuramos ver como o Ocidente, ao descobrir o outro, se vê de uma maneira diferente", diz Novaes. O terceiro ciclo dessa segunda série, realizado em 99 e cujo livro chega em breve ao mercado, teve como tema A Invenção e Crise do Estado-Nação, já que a idéia do Estado nacional surgiu no bojo do descobrimento, quando a burguesia fixou suas fronteiras. O quarto e último ciclo, o primeiro já sem o patrocínio da Funarte, confirmado para setembro com palestras no Rio e em Curitiba, terá como tema a democracia e a liberdade. Adauto Novaes saiu da Funarte, como diz, "por razões éticas". Fazia estágio no Ministério da Cultura da França, quando, em sua volta, soube que o escritor Márcio Souza, que preside a entidade, demitira toda a equipe que com ele trabalhava, com o argumento de que precisava "fazer caixa". Mesmo assim, Novaes vai realizar o quarto e último ciclo programado, agora fora da Funarte. Terá como parceiros a prefeitura do Rio e a Secretaria de Cultura do Paraná. Estará fechada, assim, uma série impressionante de 16 ciclos de filosofia, realizados ao longo de 16 anos ininterruptos. Os livros que reproduzem as palestras dos primeiros 14 ciclos já venderam mais de 150 mil exemplares. "A filosofia tornou-se um best seller", diz. O livro mais procurado da série é Os Sentidos da Paixão, lançado em 1987 com as conferências proferidas no ano anterior. Um volume de 512 páginas com palestras de Marilena Chauí, Sérgio Paulo Rouanet e sobre temas tão incomuns quanto o medo, a relação entre paixão e razão e a psicanálise, que já vendeu perto de 50 mil exemplares. "Foram cerca de 1,6 mil conferências dedicadas à filosofia pelos quatro cantos do País, Novaes estima. "Isso muda a mentalidade das pessoas, sobretudo a idéia de que a filosofia é uma assunto só para grandes especialistas". Ao todo, Novaes calcula, ainda, que cerca de 300 mil pessoas assistiram às conferências. Tevê - Além dessa espantosa série de conferências, as palestras dedicadas à Ética transformaram-se numa irretocável série para a TV, veiculada pela TV Cultura. "Foi a primeira experiência de trabalho com o pensamento na televisão brasileira", diz. Pela primeira vez, filósofos de tendências variadas encontraram-se diante das câmeras para discorrer sobre um tema espinhoso - antes restrito aos departamentos de filosofia. As palestras resultaram em cinco programas que a TV Cultura levou ao ar há quatro anos. O sucesso foi tanto que a emissora se viu obrigada a reprisar a série logo na semana seguinte. A Cultura já vendeu, além disso, mais de 4 mil vídeos que reproduzem a íntegra dos cinco programas, sucesso inesperado que levou Adauto Novaes a programar, para breve, uma nova série para a TV, desta vez baseada no ciclo Os Sentidos da Paixão. É Adauto quem argumenta: "Os professores de filosofia estão usando os vídeos da Ética em sala de aula, como pontos de partida para debates e novos seminários". No início, entretanto, Adauto Novaes era visto apenas como um sonhador - e, mais grave, como um banalizador. Um dos problemas mais sérios que enfrentou, nos primeiros tempos, foi o de quebrar a reação de muitos intelectuais, filósofos de renome, que achavam que participar dos ciclos da Funarte, falar de filosofia para grandes platéias, era fazer uma concessão imperdoável à indústria cultural. "Isso durou até o dia em que o Gérard Lebrun fez sua primeira conferência", Novaes relembra. "Ali todos viram que, se o Lebrun foi, também podiam ir". Além de mexer com esses e outros preconceitos dos intelectuais brasileiros, os ciclos estimularam também o aparecimento, ou a ampliação, dos cursos de filosofia em todo o País. "Sempre nos convidam para dar assessoria na criação de novos cursos e na promoção de ciclos pelo interior do País", ele lembra. Adauto Novaes não é, como os menos informados poderão pensar, um simples promotor de eventos culturais. Formado em Filosofia pela Escola Prática de Altos Estudos, de Paris, quando prepara seus ciclos de conferência, empenha em traçar, antes de qualquer outro passo, uma rigorosa conceituação. "Fazer esses ciclos não é só juntar os conferencistas", diz. "Os ciclos dedicados aos 500 anos, por exemplo, me obrigaram a entrar pela história, a pesquisar exaustivamente a história do Brasil". Para preparar a definição conceitual dos ciclos de filosofia, Adauto Novaes é obrigado, sempre, a ler muito. "Minha vida se misturou com esse projeto" admite, uma vez que até mesmo suas leituras pessoais, de especialista, acabam dando novas idéias de conferências. Mealeau Ponty, Hannah Arendt, Montaigne, Spinoza, Claude Lefort estão entre as leituras que considera fundamentais. "Eles e aquele que é para mim o autor dos autores, o Paul Valéry ensaísta, que escreveu sobre filosofia, arte, sobre tudo". Valéry, ele recorda, foi muito desconsiderado pelos intelectuais de esquerda por ser um pensador assistemático, que não se enquadrava em sistema algum. "Não se consegue qualificá-lo e, no entanto, ele é de um materialismo radical, de grande genialidade". De Olhar sobre o Mundo Atual, de Valéry (que Otto Maria Carpeaux considerava um dos maiores livros que já tinha lido, recorda), Adauto Novaes retirou a frase que o inspirou na criação do ciclo dedicado à liberdade. "Liberdade: uma dessas detestáveis palavras que têm mais valor do que sentido". A liberdade é sempre recuperada pela ideologia pela servidão, pela dominação, todas elas praticadas, quase sempre, em seu nome. O ciclo de 2001 girará em torno dessa idéia de Valéry. Enquanto esteve na Funarte, a cada ano, Adauto Novaes tinha de provar para a burocracia que seu projeto era um sucesso. "Um de meus argumentos sempre foi o de que estávamos formando leitores", recorda. Pode fazer essa afirmação com base no volume de citações que as coletâneas de palestras publicadas pela Companhia das Letras têm merecido em teses de filosofia, de estética, de literatura. "Ajudamos a formar um público e, apesar disso, tínhamos de insistir a cada ano que era importante continuar a fazer o trabalho". Agora sente que tem um compromisso consigo mesmo e com a tradição que os ciclos de filosofia criaram. Novaes estudou no Colégio Caraça, dos padres lasaristas, antes do incêndio. É mineiro. Lá aprendeu latim, grego, teologia. Dele saiu bem preparado para o vestibular de Direito, mas antes de concluir o curso, o golpe militar obrigou-o a emigrar. Estudou filosofia política em Paris, escolha que considera determinante em seu trajeto pessoal. Quando retornou ao Brasil, trabalhou na imprensa carioca, até ser convidado a fundar, em 78, o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte. Houve uma primeira série de ciclos, que se iniciou com uma temporada de estudos dedicada ao nacional e o popular na cultura brasileira, resultando em seis volumes de palestras, editados pela Brasiliense e esgotados há anos. Houve ainda um ciclo dedicado à cultura brasileira, em 1981. Mas o primeiro ciclo nos moldes atuais, dedicado ao estudo da tradição e da contradição na cultura brasileira, só ocorreu em 1985. Desde então, Adauto Novaes e a filosofia brasileira tiveram seus nomes inevitavelmente misturados. Sem seu empenho pessoal, sem o sonho que não se cansa de perseguir, talvez a filosofia continuasse a ser entre nós, afora aquelas exceções heróicas, apenas uma palavra no dicionário.

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