Acreditar no mundo

O italiano Frammartino bebe na fonte de Deleuze no último grande filme do ano, As Quatro Voltas

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h09

Para o tipo de cinema que Michelangelo Frammartino gosta de fazer, o roteiro não é imprescindível, mas, como ele diz, seus produtores são a exceção, no panorama do cinema italiano contemporâneo. A maioria exige dos diretores roteiros detalhados, a título de garantia. Os financistas de As Quatro Voltas permitiriam que Frammartino fizesse o filme no seu ritmo, cerca de cinco anos, quase seis. Do ponto de vista artístico, o resultado foi compensatório. O ano ainda promete um derradeiro êxito de público nos cinemas de São Paulo (e do Brasil - De Pernas pro Ar 2, na semana que vem). O último grande filme de 2012 estreou ontem e já entrou para a lista de melhores do Caderno 2. É justamente As Quatro Voltas.

Frammartino conversa com o repórter, pelo telefone, da Alemanha. Estava em Berlim montando a exposição - uma instalação - que se inaugura nos próximos dias. Ele fez As Quatro Voltas na Calábria, onde também se passava seu primeiro longa - Il Dono, O Dom, de 2003. "Depois daquele filme, fiz diversas viagens à Calábria ao longo de dois anos. Buscava inspiração, mas não sabia exatamente o quê. Já conhecia as ideias de Pitágoras sobre metempsicose, a possibilidade de que as pessoas reencarnem como animais. Quando me dei conta, já havia encontrado as quatro voltas, os quatro estágios a que ele refere."

O homem, o animal (la bestia), a árvore e o minério. Frammartino já dispunha das quatro voltas, mas a maneira como seu filme ia se articular ainda demorou mais tempo. Ele filmou por um longo período. Montou durante um período igualmente longo. "Fiz arquitetura, antes do cinema, e isso foi muito importante, eu diria até decisivo. A arquitetura me deu medidas para o tempo e o espaço, e o tempo, aprendi nos curtas, é fundamental no cinema."

Como diretor, ele cria um espaço, organiza a natureza e os homens. Como montador, cria um tempo e dá forma ao material filmado. Mas o seu cinema, como ele diz, é forçosamente inacabado - "Vai depender da montagem do espectador". Ele cita Gilles Deleuze. "Filmo para criar o vínculo com outro, o que Deleuze chamava de acreditar no mundo." Um velho pastor de cabras, que acha que está morrendo, toma, como remédio, o pó da igreja, que mistura com água benta. É a única ficção de As Quatro Voltas. "Veio de um romance calabrês", adverte o diretor.

Ele acompanha uma dessas cabras, desde o nascimento. E filma a árvore e o minério, o carvão. O rigor de Frammartino pode evocar Jean-Marie Straub e Ermanno Olmi, autores que vão além da imagem, em busca da transcendência. Ele os respeita e até admira, mas não foram referências. "Il maestro, o mestre, é (Roberto) Rossellini." O grande diretor fez, para TV, no fim da vida, filmes de um recorte antropológico. "A Calábria é o paraíso dos pesquisadores. Em todo lugar você encontra gente escavando, pesquisando." Seu filme busca reconstituir uma memória ancestral. Não ocorre muita coisa. Ocorre tudo. É magnífico.

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