Arte/Estadão
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'Acreditando ou não, um dia ele vai mostrar quem ele é'

Você está acostumado a ler aqui sobre política, economia, cultura e celebridades. Hoje, peço licença para contar a história da Talita*

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 23h20

Você está acostumado a ler sobre política, economia, cultura e celebridades nesta coluna. Hoje, excepcionalmente, abro espaço para a história da Talita*, 41. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência.  Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Fui vítima de violência do meu namorado. Tinha ido morar com ele quando nós tínhamos só 10 meses de namoro. Meu erro foi por aí. Mas teve motivo: o meu pai me botou para fora de casa. A violência já começou desde o meu pai, né? Ele não aceitava o namoro e me expulsou. Eu resolvi alugar uma casa e ir morar com esse homem.

Levei a minha filha mais nova, que tinha 11 anos na época. A mais velha, que estava com uns 17, 18 anos, já tinha casado e estava morando com o marido na época da agressão, uns três anos atrás.

No primeiro ano morando juntos, até foi bem. No segundo ano, mudou. Era como se ele tivesse duas personalidades: uma hora ele estava bem, outra hora ele era outra pessoa. Ele não queria que eu trabalhasse, não queria que eu saísse de casa. Eu não podia conversar com ninguém, nem falar um "bom dia".

Comecei a discutir com ele porque não aceitava aquela situação, ameacei de separar. Foi aí que começaram as agressões verbais. Ele me ofendia, me punha para baixo, falava que ia me matar. Até que chegou um dia em que ele veio para cima de mim.

No dia antes, eu cheguei a conversar com ele para a gente se separar. Ele tinha topado, mas no dia seguinte acordou do avesso. 

Não lembro qual foi o motivo da agressão, acho que eu queria ir para a igreja, ele não deixou e eu enfrentei. Ele me derrubou no chão, subiu em cima de mim e me segurou pelo pescoço. Achei que eu fosse morrer porque fiquei sem ar.

Eu pedi ajuda a Deus e acho que foi Ele quem ajudou mesmo, porque consegui escapar. Fiquei com uma raiva tão grande que eu fui para cima dele para revidar. Quando ele viu que eu reagi, parou um pouco e só me segurou.

Foi a primeira e última agressão física. Eu gostava muito dele mas não dava mais. Isso vai fazer três anos em julho. A minha filha mais nova, que morava comigo, estava passando aquele final de semana na casa do pai. Ainda bem que ela não estava em casa.

Naquele dia, eu fui para a Delegacia da Mulher. No caminho, ele veio atrás, ameaçando de me matar se eu não voltasse. "Agora que eu não volto mesmo", respondi. Depois de fazer boletim de ocorrência, fui até a casa da minha mãe, que era na mesma rua. E fiquei lá. 

Procurei a Defensoria Pública para conseguir que ele saísse da minha casa. Aliás, a única coisa que eu tinha em mãos quando sai era a chave de casa. Esperei ele sair para trabalhar e consegui pegar alguns documentos e roupas. Ele deixou um recado na porta: se eu mexesse com alguma coisa, ele viria atrás de mim para me matar.

Ele trabalhava fazendo escolta armada, tinha armas dentro de casa. Um agravante a mais para me deixar com medo.

Esperei um mês para a Defensoria tirar ele de casa. Nesse tempo, ele me ameaçava direto. Mandava mensagem falando que iria cortar o meu corpo em pedacinhos. Fui orientada a gravar essas ligações para apresentar como provas na Justiça. Então, toda vez que ele me ligava, eu deixava ele falar tudo que queria. Mandei para a Justiça e tiraram ele da casa.

No dia em que ele saiu, eu tive que acompanhar, junto com o oficial de Justiça. Eu avisei: "Isso não vai dar certo, ele tem arma." Foi uma das horas em que eu achei que a Justiça era falha. O oficial pediu reforço, mas a gente já estava no portão. Na hora em que o meu ex-namorado me viu, ele veio para cima de mim outra vez. O oficial entrou na frente e eu saí de lá, disse que não iria acompanhar de perto. Via muito ódio no rosto dele.

Achei essa parte muito falha. Tiraram ele e, quinze minutos depois, ele estava no meu portão de novo. Tive que ligar para a polícia.

Ele continuou com as ameaças, por telefone, e eu tive que ir para um abrigo. Isso me separou da minha filha, nós sofremos uma de cada lado. Eu não quis que ela ficasse no abrigo, não era seguro para ela. Deixei ela com meus pais. Deixei uma medida protetiva (ordem judicial para manter um agressor longe da vítima) na mão do meu pai e outra na escola dela. A gente pagava perua para ela ir com um pouquinho mais de segurança.

Minha vida mudou muito quando fui para o abrigo. Me colocaram em um lugar onde só tinha gente ruim. Só tinha mulheres que eram dependentes químicas, que saíram da cadeia, que moravam na rua. Eu trabalhava (como doméstica) durante o dia e não conseguia dormir à noite – era muita briga, muita mulher discutindo, xingando. Nessa época, fiquei bem pior.

Saí depois de quase dois meses. Não aguentei mais. Falei: "Se ele tiver que me matar, vai me matar." Resolvi encarar a situação e colocar Deus na frente.

Meses depois, ele conseguiu me mandar uma mensagem pelo Messenger (do Facebook) – só estava bloqueado no WhastApp. Disse, em novembro, que eu não iria passar de dezembro. Eu saí novamente de casa e passei um mês com a minha tia. Depois, como ninguém viu ele no bairro, eu voltei para a minha casa.

Nessa época, eu não tinha paz. Andava sempre assustada, na chegada e na saída. Ficava observando 24 horas.

Depois de um tempo, ele começou a mandar cartas para o endereço da minha irmã. Ela rasgou a primeira, mas me mostrou a segunda. Ele dizia que estava preso por minha culpa. Fui me informar: não foi por minha culpa. Ele foi preso porque perdeu o emprego e foi roubar. 

Levei a carta para a Defensoria e acho que ele recebeu alguma advertência. Ficou sete meses preso. Eu não queria o mal dele, mas essa foi a época em que eu fiquei um pouco mais em paz. Eu fazia oração todo dia. Pra mim, foi Deus que tirou ele do meu caminho.

Quando recebi a notícia de que ele seria solto, a Defensoria me orientou a sair de casa outra vez, caso ele viesse me procurar. Foram dois anos muito perturbados da minha vida. Estou morando com a minha tia agora – pelo menos ele não sabe o meu endereço.

Para a minha surpresa, ele casou de novo. Ligou pra mim de outro telefone e disse que só queria conversar, sem me ameaçar. Falou que tinha arrumado uma pessoa e que queria ficar com nós duas. Eu disse que não.

Ela achou o meu telefone e me ligou. Contou que ele dizia que estava junto comigo e que iria voltar para mim. Expliquei que não estávamos saindo, e não iríamos sair nunca mais. Ela não acredita, fica com o pé atrás. Fui obrigada a bloquear ela também.

Na primeira vez nós duas nos falamos, ela me pediu para contar tudo. E eu falei. Se ela vai acreditar ou não, é problema dela. Eu deixei claro: acreditando ou não, um dia ele vai mostrar quem ele é.

***

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.

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