Acordo ortográfico da língua portuguesa divide Portugal

Escritores, editores e políticos lusos acreditam que com este protocolo país cederia aos interesses do Brasil

Álvaro Blanco, da Efe,

25 de março de 2008 | 13h19

A possibilidade de que a ortografia do português seja alterada, em virtude de um antigo acordo assinado pelo Brasil e por outros países que falam a língua, dividiu a sociedade lusa e gerou um ambiente de preocupação no país.   Para suavizar a polêmica medida, que ninguém se atreveu a tirar da gaveta desde que foi assinada, em 1990, o governo socialista estabeleceu um período de transição de seis anos para a plena aplicação deste protocolo, que unificará o idioma de oito países e mais de 200 milhões de pessoas.   Além do léxico, sintaxes ou morfologia, é o orgulho pátrio de Portugal que está em jogo com este acordo, que introduz três novas letras no alfabeto, modifica a utilização do til e elimina as consoantes que não se pronunciam, entre outras alterações.   O acordo, ratificado pelo governo português no último dia 6, tinha sido assinado há sete anos por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, e deverá ser referendado agora pelo Parlamento.   Escritores, editores, políticos e intelectuais portugueses opinam que com este protocolo Portugal cederia aos interesses do Brasil, que impõe a força de seus cerca de 180 milhões de habitantes.   Uma das polêmicas em torno da assinatura do acordo é que seria impossível a manutenção internacional do português com várias ortografias diferentes, embora a corrente a favor argumente com o exemplo da expansão do espanhol, apesar das divergências existentes neste idioma nos diversos países que falam a língua.   Os opositores confiam que o Parlamento português não ratificará o documento, já que, apesar da maioria absoluta do Partido Socialista (PS), há deputados deste grupo que se mostraram contra.   Desta forma, o coordenador de Cultura e Educação do grupo parlamentar socialista, Luis Fagundes Duarte, disse à agência de notícias Efe que ainda não decidiram se o texto será avaliado por votação, tendo em vista tratar-se de um tema "sensível como este".   Duarte adiantou, no entanto, que ele votará contra a decisão "equivocada" do Governo de tentar aprovar este texto sem consultar especialistas.   O professor e lingüista João Malaca Casteleiro, que colaborou na elaboração do acordo, afirmou que seria conveniente que existisse "uma ortografia e não duas", em referência às usadas em Portugal e no Brasil.   Perante as ressalvas manifestadas pelos cidadãos comuns, existe a dúvida se este acordo não será aplicado somente em documentos oficiais e textos escolares.   Os escritores mostraram suas dúvidas sobre o futuro do texto e Lidia Jorge, uma das autoras nacionais mais reconhecidas, disse à Efe que o acordo tem "imensos defeitos", embora seja melhor este do que nenhum.   Em declarações feitas ao semanário Expresso, o único Prêmio Nobel da língua portuguesa José Saramago foi claro sobre o que espera do futuro sobre este acordo: "Desejo êxito e muitos bons livros, escritos à forma antiga ou moderna, e que não me obriguem a escrever de outra maneira nos poucos anos de vida que me restam".   O presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), Antonio Batista Lopes, foi mais taxativo e afirmou que a riqueza da língua deve ser protegida. No entanto, um editor viu uma oportunidade de negócio com a polêmica e já publicou dicionários que apresentam as novas normas, embora ainda não tenham sido ratificadas.   Nos meios de comunicação também há divergências e o diretor do jornal português Diário de Notícias, João Marcelino, disse à Efe que as mudanças serão introduzidas "gradualmente e levando em conta a realidade portuguesa", já que seria "impensável" adotar algumas de suas normas.   Nuno Pacheco, subdiretor do diário Público, disse que este tema não os preocupa ainda e que, por enquanto, não afetará o manual de estilo de seu jornal, embora não tenha descartado aplicar o acordo em um futuro distante.   Já o secretário-geral da associação patronal de publicitários, Fredy Vinagre, destacou que o setor está aberto a estas mudanças, embora tenha reconhecido o "risco" de tentar vender um produto com uma língua que possa ser rejeitada pelos próprios consumidores.

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