Acordes mágicos: Beethoven, Berg e o quarteto Arditti

Num texto célebre, Alban Berg escreve que para compreender a música "é necessário reconhecer o começo, o desenrolar e o fim de todas as melodias que a compõem, ouvir a resultante de sua simultaneidade não como manifestação do acaso, mas como um conjunto de harmonias e encadeamentos harmônicos, experimentar o sentido de todos os contrastes, pequenos e grandes. Em suma: seguir o desenvolvimento da peça como se segue o de um poema cuja língua conhecemos."

Crítica, João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2010 | 00h00

Isso se aplica aos concertos de música contemporânea em geral. É preciso dar ao público pistas mínimas para que ele tente entender o que se passa no palco. É interessante a ideia das entrevistas com músicos no folheto do programa dos concertos do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Mas o público sente falta (ouvi vários comentários) das informações sobre as peças. E tem razão.

Vamos ao primeiro concerto do 41.º Festival em São Paulo, que mostrou que música nova não tem idade. A "Grande Fuga" de Beethoven é obra-prima que permanece chocante a 184 anos de distância. Foi recusada pelo editor Artaria: era o movimento final do quarteto n.º 13. Beethoven, curvando-se ao mercado, substituiu-a por um Allegro que soa até hoje deslocado. A "Grande Fuga" sobreviveu sozinha.

Ela não resiste a execuções medíocres. Vira um pastiche incompreensível. O Arditti pôs fogo nesta peça incendiária, de delirante polifonia. Devolveu-lhe a chama original em sua modelar interpretação quinta-feira (dia 8) no Sesc Vila Mariana.

O grande público sentiu que o momento era mágico. A voltagem aumentou no quarteto opus 3 de Alban Berg. Em dois movimentos, ora adota a forma-sonata, ora dela escapa. O público teria gostado de saber que há nela um subtexto biográfico. Berg injetou-lhe enorme carga emotiva porque o compôs como indignada carta cifrada ao pai de sua paixão Hélène, que não queria entregar a filha a um músico pobre e de saúde precária. Usa a tonalidade de ré menor, característica do desespero na música vienense (segundo Dominique Jameux).

Excelência. Como os integrantes do Borodin, os do Arditti não se olham quase nunca; fixam-se em suas partes, preocupam-se em tirar o máximo de seus instrumentos (destaque inevitável para o primeiro violino irretocável Irvine Arditti e o maravilhoso violoncelista Lucas Fels).

A segunda parte manteve o nível elevadíssimo. Stravinsky compôs as três peças em 1914, um ano após o escândalo da Sagração da Primavera. Curtas, superariscas, cortantes, geniais cápsulas: primeira e terceira russas até a medula; a segunda praticamente abraça o atonalismo.

A peça final, Tree of Strings, serviu para apresentar ao público brasileiro o compositor inglês Harrison Birtwistle, de 75 anos. A obra é de 2007 e estreou em 2008 pelo próprio Arditti em Witten, Alemanha. Em seus 30 minutos, abusa um pouco do pontilhismo e não está, seguramente, no mesmo nível das anteriores. Mas é interessante. Começa com explorações de microtonalismos, depois estabelece uma célula ostinata no cello, que retornará no final. Birtwistle repete aqui um recurso de outra peça, Five Distances, de 1992, para quinteto de sopros, onde brinca com mudanças de perspectivas. A peça inicia-se com o quarteto em posição normal e termina com cada um postado em lados extremos do palco. Um truque visual que ajuda a compreender melhor a delicada química da junção de timbres em função do espaço.

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