Acordes do coração

Ruídos quebram o encanto de algumas passagens em noite memorável na qual Keith Jarrett reafirma talento

O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h10

Beethoven reclamava quando via impressos seus improvisos pianísticos das madrugadas insones com nomes de terceiros - eram os ladrões de notas musicais que faziam plantão, nas madrugadas vienenses, embaixo de sua janela. Keith Jarrett não reclama dos "ladrões de improvisos", como Ludwig van, mas dos ruídos que atrapalham o seu processo criativo no palco. Justa reclamação. Soa arrogante para públicos como o que compareceu anteontem à Sala São Paulo, louco pra gritar bravo, assobiar e bater palmas - três mesuras comuns em shows de jazz que, para Jarrett, soam como falta de respeito por sua música criada no instante da execução.

Dividido em duas partes de 50 minutos, o recital do pianista que inventou modernamente esta fórmula parou, por exemplo, logo no segundo tema: uma tosse no break de um momento intenso o impediu de continuar. Até o toque de um celular, no excelente blues final da primeira parte, surgiu mas foi abafado pelo final (de novo antecipado?) e os aplausos. Ele não gosta de aplausos e muito menos dos facebookmaníacos que insistem em fotografá-lo só para depois colocarem as imagens nas redes sociais - vale mais o fato de fazer os outros saberem que se esteve lá do que a chance rara de comungar com o processo de criação musical no chamado calor da hora de um artista de exceção.

E que criação musical é esta? Jarrett tem começado - e na Sala São Paulo não foi diferente - com dois improvisos iniciais bastante abstratos, sem pulso regular, obrigando o público a sair de sua zona de conforto e prestar atenção. A improvisação nasce na cabeça. Jarrett demonstra isso cada vez que sobe ao palco. É como se comprimisse todo um universo musical em acordes complexos, ritmos sobrepostos, exploração ampla das 88 notas do teclado. A racionalidade - que existe, ao menos neste início, embora ele a negue - vai aos poucos tomando conta de seu corpo, a voz se mistura às frases da mão direita, ora gemidas, ora quase cantadas, os pés marcando o ritmo, ausência completa de pedais. Aí o fluxo de criação instantânea se instala de vez. Os temas começam a assumir pulsos regulares, ostinatos na mão esquerda e improvisos livres na poderosíssima mão direita hipnotizam o público - e ele mesmo. Musicalmente, são mais simples, o que pouco importa. É aí que uma tosse pode pôr tudo a perder.

Do corpo para o coração. Começam a alternar-se baladas que se consomem na lentidão de uma emotividade que transmitem um impacto fortíssimo, apesar de um pianismo simples do ponto de vista técnico, ora em corais quase bachianos, ora hinos protestantes do inconsciente coletivo dos norte-americanos. Podem dizer que é exagero, mas, de novo como Beethoven, é "música do coração para o coração".

Depois do intervalo, todo mundo gelou quando, agradecendo os aplausos, ele percebeu um celular tirando foto e voltou para os bastidores. Retornou para um belíssimo improviso, obsessivamente construído na região mais aguda do piano. Um primor de delicadeza e refinamento que Schumann com certeza assinaria. Naquele momento, lembrei da parte IV do recital de Munique de 1981, lançado em CD, que é espantosamente igual ao improviso de anteontem (não sou nenhuma enciclopédia; o trecho, de 11 minutos, foi um dos selecionados pelo próprio pianista na série Rarum da ECM, em que os artistas escolhem uma súmula "do seu melhor", como dizem os boleiros). É um raro caso de improviso recorrente - e abstrato, não daqueles pulsantes, dos quais existem exemplos às centenas. Foi notável, memorável. Até pelo brilhante improviso em torno do Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim, concessão ao público seguida de uma tsunami de aplausos.

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