Aconteceu naquela noite

Renato Terra e Ricardo Calil reveem música e política dos anos 1960/70

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2010 | 00h00

Pergunte a Amir Labaki quais foram os momentos marcantes do Festival Internacional de Documentários e ele dificilmente deixará de citar as visitas de Marcel Ophüls, Federick Wiseman e Jorgen Leth, que acompanharam as retrospectivas de suas obras no País. Ele também vai citar o impacto que tiveram as primeiras exibições de Buena Vista Social Club, de Wim Wenders; de Comandante, de Oliver Stone; e Santiago, de João Moreira Salles, talvez o maior documentário feito no Brasil, apesar da grandeza de certos momentos da obra de Eduardo Coutinho, por exemplo.

Frederick Wiseman participa da competição internacional deste ano com seu novo longa, La Danse, sobre o balé da Ópera de Paris. Nele se identifica o grande tema do autor - Wiseman discute as instituições por meio das pessoas. La Danse registra o esforço físico dos bailarinos para dominar seu instrumento, o corpo. O filme ilustra bem a diversidade que dá o tom da recente produção documentária, e não apenas a brasileira. Você tem a dupla indagação de Wiseman, sobre a Ópera de Paris e a linguagem de seus artistas. Tem a dura crítica de Michael Moore ao capitalismo (leia abaixo) e a dupla Renato Terra/Ricardo Calil, que mescla música e política em Uma Noite em 67.

Terra conversa pelo telefone, do Rio, cheio de expectativa de conseguir chegar a São Paulo para a exibição de hoje de seu filme, para convidados. Uma Noite em 67 surgiu como desdobramento da sua monografia de conclusão do curso de Comunicação, em 2003. Terra debruçou-se sobre a era dos grandes festivais de música, nos anos 1960/70. Decidido a fazer um longa documentário, chamou seu amigo jornalista, Ricardo Calil. Trabalharam durante cinco anos no projeto e ganharam apoio da Videofilmes e da TV Record, que abriu seu arquivo.

O foco ficou concentrado no Festival da Record de 1967, o mais emblemático de todos. Algo de muito importante ocorreu na final. O País vivia sob uma ditadura. O palco virou cenário de uma disputa envolvendo a guitarra elétrica. Gilberto Gil a usava em Domingo no Parque e era considerado de direita. Os artistas de raiz, contrários à guitarra, eram de esquerda. O documentário é musical, mas a política está subentendida. Quatro músicas dominavam a competição - Ponteio, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, Alegria. Grandes carreiras se afirmaram ali. Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Roberto Carlos, que concorria com Maria, Carnaval e Cinzas, dá seu depoimento. Uma noite para a história, a do nascimento do tropicalismo. Terra e Calil conseguiram imagens raras de uma passeata de protesto contra a guitarra elétrica. Entre os que protestavam, Gilberto Gil. Especialistas analisaram as músicas e o clima da época. Vão para o DVD. "O filme privilegia os depoimentos mais íntimos. Preferimos transformar a experiência dos participantes daquela noite numa experiência de vida para o espectador, hoje", dizem os diretores.

É TUDO VERDADE

Espaço Unibanco, Rua Augusta, 1.475, 3288-6780. CCBB. R. Álv. Penteado, 112, 3113-3651. Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, 3512-6111. Reserva Cultural. Av.Paulista, 900, 3287-3529. Cinemark Eldorado. Avenida Rebouças, 3.970, 2197-7472. Cinusp Paulo Emílio. Rua do Anfiteatro, 207, 3512-6111

Destaques do festival

Karl Max Way

Flávia Guerra e Maurício Osaki

Não é Karl Marx, mas Max, brasileiro que ganha a vida como motoqueiro em Londres. O curta é forte e está na competição.

Budrus

Julia Bacha

A diretora brasileira de origem libanesa conta, em filme dos EUA, a história do que deveria ter sido um protesto não violento na Cisjordânia, em 2003.

Sobre Rios e Córregos

Camilo Tavares

Programa imprescindível para quem quiser entender o problema das enchentes em São Paulo. Vigoroso como cinema e discussão urbanística.

No Meio do Rio, Entre as Árvores

Jorge Bodanzky

O diretor do mítico Iracema volta à Amazônia. Imagens de grande beleza e mistério dão conta da predação ambiental.

O Povo Contra George

Lucas

Alexandre O. Phillipe

Candidato a cult, o filme analisa as reações dos fãs às mudanças que o próprio Lucas fez na série Star Wars.

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