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Luis Fernando Verissimo
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Acontece

Desconfiaram do homem que ficava sentado num banco do playground da praça, olhando o movimento. Ele estava lá todos os dias, só olhando. Houve uma denúncia, e o homem foi levado para a delegacia.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 02h00

– Sim senhor, hein? – disse o delegado. – Olhando as criancinhas.

– Que criancinhas, delegado? – disse o homem. – As mamães. As mamães!

Vexame. Marialva aceitou o convite de Oscar para jantar no seu apartamento. Ele mesmo cozinharia. Fazia um suflê de respeito, ela iria adorar. Marialva sabia muito bem que o jantar era só um pretexto. Haveria o suflê, acompanhado de vinho, e mais vinho, e os dois acabariam na cama. Mas tudo bem, pensou Marialva. Oscar era um cara atraente. A perspectiva de ir para a cama com ele não era desagradável. 

Mas as coisas não correram como Marialva esperava.

– Isto nunca me aconteceu antes – disse Oscar.

– Não tem importância – disse Marialva, para consolá-lo.

– Que vexame.

– O que é isso? Acontece.

– Comigo nunca aconteceu.

– Eu sei, eu sei...

– Ele simplesmente não subiu como deveria. E logo com você. Eu queria que esta noite fosse perfeita. E ele não subiu!

– Quem sabe da próxima vez...

– Me faz um favor? Não conta pra ninguém o que houve. Ou, no caso, o que não houve. Preciso pensar na minha reputação. 

Foi então que Marialva se deu conta que Oscar estava falando do suflê.

Onde e quando. A conversa na roda era sobre onde e quando cada um gostaria de viver, se pudesse escolher. Algumas escolhas foram óbvias.

– Uma ilha dos mares do sul, antes da chegada do homem branco. Eu na praia, de sarongue, cercado de nativas e comendo coco.

Outras foram mais sofisticadas.

– Eu gostaria de viver em Londres na era elisabetana. Contemporâneo de Shakespeare. Indo ao teatro Globo para ver suas peças no original. 

Ao que outro comentara que em Londres, na era elisabetana, o esgoto era a céu aberto e ele teria que ir ao teatro Globo pisando em cocô.

Finalmente alguém declarou que, se pudesse escolher, gostaria de viver num comercial de cerveja na TV. A alegria permanente! A camaradagem!. As mulheres sensacionais! E quando cansasse de um comercial pularia para outro exatamente igual, só com outra cerveja e outras caras. Aquilo é que era vida!

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