Acima de tudo, uma rebeldia política

Assim o sociólogo Francisco de Oliveira define o maio sangrento em que estudantes e operários viveram em perigo

Antonio Gonçalves Filho,

10 de maio de 2008 | 14h42

O professor de Sociologia pernambucano Francisco de Oliveira estava no México, em 1968, ano em que 300 estudantes foram massacrados por forças policiais numa manifestação política realizada em outubro, em Tlatelolco. Retornando ao Brasil nesse mesmo ano, o autor de Crítica da Razão Dualista (Boitempo), um dos fundadores do PT e hoje um de seus maiores críticos, testemunhou situações piores no País, do qual estava ausente desde sua prisão, em 1964. Na entrevista concedida ao Estado, o sociólogo conta essa experiência e faz um balanço dos movimentos surgidos na esteira do Maio de 1968. O senhor foi preso em 1964 e voltou ao Brasil justamente em 1968, quando os franceses saíam às ruas para protestar. Que lembranças o senhor tem do período e como o senhor interpreta a palavra de ordem de Sarkozy, de "liquidar a herança de 1968"? Tem certas ondas na história que são de difícil compreensão. Mesmo a posteriori é difícil dizer, porque nós, das ciências humanas, estamos muito presos à causalidade. Houve uma espécie de frisson quase universal em 1968 - mais notável na Alemanha e França. Passei dois anos no México e Guatemala antes de voltar. No México, em 1968, tivemos Tlatelolco (manifestação que terminou no massacre de 300 estudantes na Plaza de las Tres Culturas na cidade, em outubro desse ano). Se as ciências sociais nos ajudassem a prever eventos como esse, eu teria ficado no avião, não no México ou no Brasil. Não fui diretamente personagem de 1968, nem na França nem no Brasil. Acabara de chegar e, portanto, não poderia estar imerso na turbulência brasileira. Seria, então, falso falar sobre esse ano no Brasil. De qualquer modo, a interpretação mais aceita é que 1968 abriu as portas de uma espécie de revolução cultural no Ocidente, na qual se inscreveriam temas como o da sexualidade. Entretanto, dizem Rancière e Zizek que todo mundo esquece que 1968 foi sobretudo uma revolta política. Que ela tenha tido efeitos vagamente culturais nem precisa ser dito, pois toda revolução política tem efeitos culturais. Na França, essa foi marcadamente uma revolta anticapitalista. Os atores centrais não foram os estudantes, mas os operários. Se olharmos para outros panoramas e sociedades, veremos que isso se repete. No Brasil, também, embora o movimento operário estivesse submerso. Havia uma resistência operária muito forte ao regime militar, como provam as greves de Contagem e Osasco. Elas são marcantes nessa espécie de maio de 68 brasileiro, que culmina com a passeata dos 100 mil no Rio (protesto político contra a ditadura militar na Cinelândia, realizado no dia 26 de junho).  O senhor menciona o caráter anticapitalista do movimento de 1968. Seus protagonistas imaginavam mesmo estar fazendo uma revolução marxista? As manifestações não foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade?Revolução é um fenômeno tão imprevisível que nenhuma ciência social é capaz de dizer o que seus atores queriam. Gosto muito da interpretação do Trotski sobre a Revolução Russa. Ela é tratada como a revolução mais previsível da história, mas Trotski diz, no prefácio de sua História da Revolução Russa, que ela aconteceu sem que nenhuma das suas causas - reconhecidas a posteriori como seus fatores detonantes - houvesse sido prevista. Uma das possíveis interpretações da revolução de 1968 é a de que a euforia do consumo teria levado os estudantes a célebres palavras de ordem como "É proibido proibir" ou "Sejamos realistas, peçamos o impossível". Coloca-se o acento na performance dos atores, o que não descarta o fato de as modificações estruturais na sociedade terem apertado o gatilho de algo que estava embutido nessas transformações. No Brasil, mal se iniciava o chamado período do milagre brasileiro. Portanto, qual era o efeito amortecedor ou detonador na sociedade brasileira? Não se conhece muito das ações clandestinas, sobretudo do Partido Comunista, que era o mais organizado. É possível, sim, dizer que as manifestações de maio de 1968 foram determinadas por mudanças estruturais na sociedade, mas a relação de causa e efeito mais imediata é difícil de estabelecer. No Brasil, temos modificações importantes, como o sindicalismo que iria crescer no ABC, desconectado das tradições políticas anteriores do operariado, mas, do ponto de vista midiático, a manifestação mais robusta aconteceu mesmo no Rio.  Muitos dizem, como o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que o que sobreviveu dos movimentos de liberação sexual de 1968 foi o hedonismo tolerante, hoje incorporado à ideologia hegemônica de uma sociedade turbocapitalista. Há outra maneira de explicar esse hedonismo sem relacioná-lo ao maio de 1968?Não sei se eu diria isso tão categoricamente como Zizek. Houve, sem dúvida, uma mudança na família, que todos consideravam o núcleo básico da sociedade - na verdade, não é. Há uma espécie de antecipação do sistema capitalista, capaz de engolir os processos transformadores, de modo que a liberdade sexual virou parte da indústria de entretenimento. Há uma certa forma de capturar o novo, mas mesmo essa captura vai produzindo, no subterrâneo, modificações sociais que perduram. O Brasil é uma sociedade permissiva, que absorve as mudanças com uma velocidade espantosa. A Europa, ao contrário, é sempre mais recatada. A nossa é uma cultura pouco resistente. Ela se deixa penetrar, permear, modificar muito facilmente pelo que vem de fora, especialmente pelo que Gramsci chamava de americanismo. Até a semana passada acompanhava a novela Desejo Proibido, da Globo, em que o autor (Walther Negrão) tratou com delicadeza as transformações sociais do período (anos 1930, em Minas), enquanto na outra novela da mesma emissora, Duas Caras, o autor (Aguinaldo Silva) usou mão pesada e abusou do hiper-realismo sem conseguir o mesmo efeito. Acompanhei com prazer a primeira, justamente a mais doce, que parece mais revolucionária, por tratar com humor dessa revolução de costumes trazida pelo cinema americano.  No ano passado, estudantes brasileiros ocuparam reitorias em várias universidades do País, em atos de oposição ao decreto que alterava a autonomia universitária, indicando que a idéia de alienação dos estudantes no século 21 precisa ser revista. Como o senhor analisa essas ocupações, que ocorreram de forma independente de outras instituições? É possível dizer que elas são uma herança de 1968?Não. Num ciclo longo à la Braudel, pode ser, mas num ciclo curto, os movimentos sociais não guardam essa memória. Ela é de difícil transmissão. Participei ativamente desses episódios na USP, porque flagramos o completo anacronismo das entidades de representação dos estudantes e professores. O grupo de professores, sem nenhuma representatividade, tentava estabelecer um diálogo entre a reitoria e os estudantes, o que mostra que essas instituições são rapidamente superadas na trajetória da sociedade brasileira. Há uma espécie de permanente obsolescência das instituições, que não conseguem processar os novos conflitos que vão surgindo. Por outro lado, é difícil dizer que o movimento estudantil guardava a memória de 1968. Isso nem passou pela cabeça dos estudantes. Há 40 anos ninguém falava em refugiados climáticos ou catástrofes ambientais, mas essa já é a realidade depois de tsunamis, Katrinas e até terremotos no Brasil. Isso reaviva a discussão sobre migrações em massa e discriminação étnica e racial. A agenda libertária de 1968 pode ser afetada pela ameaça de catástrofes ambientais?Certamente. Há um risco de recrudescimento repressivo dos estados nacionais e também a formação de um racismo sublatente em todas as partes do mundo. Ainda não estamos experimentando isso no Brasil porque, por enquanto, apenas exportamos gente que não satisfaz suas expectativas de realização no próprio país. Como não há um corrida do ouro no Brasil, ainda não testemunhamos movimentos migratórios dessa natureza, mas nossas cidades não passam, hoje, de vastos acampamentos de miseráveis - e aí as formas repressivas surgem para valer. O Rio é um capítulo à parte, por ter uma geografia peculiar, mas, em São Paulo, o problema não é menor. Nos últimos anos, vimos governos rotulados de progressistas tomando medidas repressivas na cidade, o que é espantoso. Construíram muros antimendigos, cercaram parques e desenvolveram projetos ambiciosos de revitalização como esse da "Cracolândia", tudo para separar e excluir. Essas formas de repressão estão aí, à espera. Elas vão se reproduzir silenciosamente, como parte de um movimento malthusiano. Está sobrando gente para o capitalismo.

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