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Ignácio de Loyola Brandão
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Acho que minha mãe compreendeu

Espero que ela tenha visto que a casa de dom Pedro não era ‘perigo’, nem ‘pecado’

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2017 | 02h00

Há na vida enigmas que não deciframos e durante algum tempo a questão nos intriga sem respostas. Houve um momento insondável na minha infância. Certo dia em Araraquara, com minha mãe passei pela Avenida Dom Pedro II e vi uma casa cinza com um triângulo, um esquadro e um G na fachada. O que é isso?, indaguei. Mamãe, mulher simples e boa, católica apostólica, me puxou: “Nada que te diga respeito. Não passe por aqui. Você não deve se aproximar desas pessoas, não precisa saber essas coisas”. Que coisas? Claro que passei muitas vezes, inquieto. O que seria? Um dia, alguém me disse, é a loja maçônica. Não entendi.

Naquele tempo, cursava o primário no Colégio Progresso, católico. Uma bela escola. Perguntei sobre a “loja”, não me responderam. Nunca me foi dito o porquê. Da mesma forma, não podia entrar no templo protestante da rua Quatro. Eu começava a vislumbrar o mundo dos preconceitos, desconfianças. Tempos de intolerância e medo. Ao crescer, a verdade e a importância da maçonaria, uma das mais antigas organizações do mundo, nos foram reveladas pela professora de história, Cidinha Valério, que nos contou, entre outras, que personalidades como Churchill, Lincoln, Napoleão, Mark Twain, Carlo Collodi (autor de Pinóquio, livro que adoro até hoje), Beethoven, Albert Schweitzer, Benjamin Franklin, John Huston, o regente Feijó, Stendhal, Ingmar Bergman, tinham sido maçons. Meu estranhamento arrefeceu. Mas ficava aquela questão entre mamãe e eu. Por que não podia me relacionar com “eles”? Como hoje, há o Nós e o Eles. Um mundo sombrio de suspeitas.

Naquela época, terminado o almoço, os meninos se reuniam e decidiam as brincadeiras. Podia ser o córrego da Servidão, onde represávamos a água, fazendo um pequeno lago, ou a região da chácara do Luis Mauro, que vendia leite aguado para os pobres. Havia junto à sua propriedade uma profunda erosão de 30 metros de fundo, provocada pelas chuvas, e era um desafio se arriscar ali, havia (diziam) cobras e escorpiões. Nunca aconteceu nada conosco. Havia sempre em mim a vontade de saber mais sobre a “loja” e sua gente. Seria um perigo mesmo? 

Adrenalina maior se dava quando decidíamos ir à oficina da Estrada de Ferro Araraquara. Os gigantescos pavilhões onde trens passavam por manutenção, eram proibidos, realmente perigosos. Precisávamos penetrar às escondidas, sorrateiramente, muitas vezes rastejando. Nada mais imponente uma locomotiva suspensa, rodas retiradas para reparos, um animal de ferro sem patas. E brincar de viajar? Poder entrar no carro Pullman, de luxo, poltronas individuais, almofadadas, que giravam 180 graus. Só andei de Pullman aos 22 anos, comprei meu bilhete, me senti diferenciado. Mudei-me para São Paulo, fiz a vida, a “loja” ficou no fundo de mim.

Essas imagens me voltaram semana passada, trazidas por meu primo-irmão Marco, bem mais novo do que eu, mas que também percorreu em sua época as oficinas em busca de parafusos, pregos que fixavam trilhos nos dormentes (um tesouro), bolinhas de aço, presilhas, grampos, talas de junção, pregos de linha, calços e todo tipo de traquitana que faziam nossa delícia. As oficinas serviram magicamente a várias gerações. Tenho certeza que os mecânicos sabiam e nos vigiavam disfarçadamente. Os filhos deles também saboreavam o encanto daquele lugar abafado, cheio de silvos, apitos, sinos, marteladas, iluminado pelas chamas dos soldadores. 

Essas imagens me voltaram vivas semana passada trazidas pelos maçons da cidade, ao entrar no Centro de Convenções Doutor Nelson Barbieri, em Araraquara. O centro, belo conjunto arquitetônico, se instalou em um pavilhão restaurado e modernizado das antigas e desativadas oficinas. Pura emoção, fantasmas amigos pelo ar. A história se refez, a infância me tocou. A cidade fez 200 anos. Eu ali estava para abrir a XXXIV Semana Maçônica, a convite de amigos como Adriano Borges, Joaquim Dragone, Carmine Tucci Filho e Carmine Tucci Neto, Lucilio Correa Neto, José Silvio Prada, filho de Lourdes, minha primeira professora no primário, ainda viva, vejam só. Carmine, por anos, revelou meus filmes e copiou minhas fotos. A única foto que tenho da infância foi feita pelo velho Tucci, o iniciador do clã. O pai de Lucilio, mestre alfaiate, me ensinou sobre cinema e fotografia. Joaquim Dragone, amigo novo, me introduziu no mundo dos tomates cerejinhas que ele produz com carinho; verdadeiras frutas. O pai de Adriano, Ruy, foi dos melhores amigos de meu irmão Luiz Gonzaga, há pouco falecido.

Ali estava o que há de mais representativo na cidade. Ali estava eu entre os maçons. Conhecia a maioria, amigos de longos anos. Espero que minha mãe tenha visto agora, comigo ali, e concordado, que a casa de dom Pedro não era “perigo”, nem “pecado”. Foi uma redenção. Teria ela sabido que médicos e farmacêuticos que cuidaram dela no final da vida foram maçons? Em que mundo fechado e torturante minha geração cresceu. Maçons, eu diria à minha mãe, como Carlos Gomes, de quem ela cantava no tanque, a lavar roupas: “Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá meu pensamento...”. Ou de dom Pedro I, ou Chaplin, que ela amava. A pesada nuvem do passado se desfez. O tempo presente nos devolve momentos, resolvendo impasses. Envelhecer é acompanhar mudanças da vida para melhor. Assim participei também dos 200 anos de minha terra, com a alma lavada.

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