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‘Achava todas mais bonitas do que eu’, diz Gisele Bündchen

Em entrevista exclusiva, modelo fala sobre carreira e sobre volta à São Paulo Fashion Week, que começa hoje

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2013 | 22h20

A São Paulo Fashion Week Outono-Inverno 2014 começa nesta segunda, mas o desfile da Colcci, na quinta, deve ser a noite mais quente da temporada. Afinal, marca a volta de Gisele Bündchen às passarelas brasileiras depois de quase três anos. Neste tempo, nasceu sua filha (Vivian, de 11 meses, irmã de Benjamin, de 3 anos, frutos do casamento com o americano Tom Brady) e investiu na carreira de empresária. "Estou muito feliz em voltar", declarou em entrevista ao Estado.

A agitação em torno de sua volta pode parecer exagerada, mas basta pensar nos dados superlativos de sua trajetória para entender porque ela faz uma fashion week valer a pena. Não é por acaso que a über model, que em 2015 completa 20 anos de carreira, coleciona títulos como a 'modelo mais linda do mundo' (segundo a Rolling Stone, em 2000) e a mais sexy (segundo o models.com). Logo ela, que no começo da carreira enfrentou críticas por "ter imperfeições". "Achava todas as pessoas com quem trabalhava mais bonitas que eu. Trabalhei muito em mim para me aceitar. Aprendi que devia potencializar meus pontos positivos, o que tinha de melhor. Se a genética me ajudou com a altura e o biotipo, tentei melhorá-lo ainda mais, me alimentando bem, praticando exercícios, meditando."

Deu resultado. Gisele é hoje a mais bem paga e a uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo, segundo a revista Forbes, e sua fortuna é avaliada em US$ 150 milhões. "O sucesso financeiro veio depois de muito trabalho, foco e disciplina, que ajudaram a construir uma carreira sólida, baseada em bons valores", disse ela, que gosta da parte criativa dos negócios. "Minha atuação varia dependendo do projeto. Tento me rodear de pessoas que me assessoram na parte burocrática." Mas, em um contraste interessante, é o despojamento em relação tanto à beleza quanto à imperfeição que a faz única. "É inconcebível criar um padrão e achar que todo mundo tem que se encaixar", diz a gaúcha de Horizontina que, aos 33 anos, também é uma das maiores testemunhas da revolução pela qual a moda brasileira passou. Ao Estado, falou do cenário fashion nacional, do incentivo à indústria, de beleza natural, Photoshop, ecologia, e, claro, moda. "Moda é estilo. Cada um tem seu estilo e usa a moda de uma forma diferente."

Você volta a desfilar no Brasil depois de mais de dois anos longe. Como se decidiu pela volta?

Tenho carinho muito grande pela Colcci e pelas pessoas que lá trabalham. Foram seis anos de parceria, vi a marca crescer e conquistar o Brasil. Percebemos que poderíamos alçar novos voos juntos. Estou muito feliz.

Como percebe a moda brasileira no cenário internacional?

Já faz alguns anos que só desfilo em ocasiões especiais. Não tenho acompanhando tanto o circuito. Mas sei que a SPFW está entre as principais semanas de moda do mundo e acredito que a moda brasileira está cada vez mais em evidência. O Brasil tem grande potencial para exportar moda. Temos muito espaço para crescer. Mas é preciso resolver o problema dos custos de produção, que acabam encarecendo nosso produto no mercado exterior. A moda brasileira cresceu muito, mas cresceu também a concorrência, pois o mercado está muito mais aberto e conectado. Se tivesse que apontar uma mudança no cenário, diria que as pessoas têm mais acesso. Hoje podemos dizer que no Brasil há uma cultura de moda.

Em relação à moda no mundo, como estamos?

A globalização e a abertura dos mercados fazem com que a moda brasileira consiga estar no mesmo timing das demais marcas do mundo, o que não acontecia no passado. Por outro lado, este novo momento traz desafios para as empresas, que têm que rever seus posicionamentos frente a tantas novidades no setor. Ao mesmo tempo em que querem ser competitivas, têm que levar em conta as questões éticas, morais e ambientais. Acho que o governo deveria dar mais incentivo fiscal, criar uma política industrial para o setor têxtil brasileiro, por exemplo, para que as marcas possam continuar produzindo aqui. Isso gera empregos e movimenta a economia.

Como é conciliar a vida de modelo e de empresária?

Todo ano eu me pego falando que no próximo ano vou desacelerar, vou reduzir o ritmo de trabalho, mas o tempo vai passando, novos projetos vão surgindo e, para um futuro próximo, as perspectivas são de muito trabalho. Sendo bem sincera, não é nada fácil conciliar trabalho, família, viagens... É um desafio diário. E, por mais que sempre tente dar meu melhor, há muitos projetos que acabo tendo que deixar de lado. Tive que aprender a eleger prioridades. Hoje, tenho uma agenda bem planejada e procuro dividir meu tempo para poder atender todos os lados.

E ainda há a agenda de mãe...

Tento equilibrar a agenda para conseguir passar tempo com filhos e marido, e também cumprir compromissos profissionais, além de ter um tempo pessoal, para conseguir recarregar as energias. Percebi que preciso estar bem comigo mesma para dar o meu melhor para as diversas áreas da minha vida. Uma meta para o próximo ano é reduzir o número de viagens e acordar mais cedo para poder fazer minha meditação de manhã.

Você criticou recentemente o uso exagerado do Photoshop e o culto à artificialidade. É possível que a moda chegue a um modelo menos artificial de uso de imagens? Ou à beleza mais natural?

Não só o meio da moda, mas o publicitário de uma forma geral tem usado o Photoshop como grande aliado. Hoje, você pode corrigir qualquer detalhe na imagem com o mouse. Antes, eram necessários rolos e rolos de foto para garantir que todos os detalhes saíssem bem. Neste sentido, facilitou muito, mas é preciso ter cuidado, pois já vi muitos casos passarem do ponto. Particularmente, prefiro imagens mais naturais. Mas também entendo que eles vendem um sonho, e sonhos são mais enfeitados. É importante que as pessoas entendam, no entanto, que esta não é a realidade e que uma imagem não define quem você é. Cada um tem seu brilho, sua luz, algo especial que é só seu. E isso, nenhum Photoshop do mundo consegue criar.

Está disposta a fazer mais trabalhos mais naturais?

Durante minha carreira fiz muitas fotos sem maquiagem ou cabelo feito. Pessoalmente, prefiro o apelo mais natural, mas entendo que a moda precisa estar constantemente se inovando. Padrões de beleza são cíclicos, ora estão mais naturais, ora mais produzidos. Faz parte do processo criativo da moda. É como arte. E a arte é algo que não se pode limitar.

Imperfeições nos tornam únicas e lindas?

Somos todas especiais com as nossas diferenças. As pessoas mais bonitas que conheci não tinham características físicas tão perfeitas assim, mas tinham algo especial. No dia a dia, prefiro estar mais natural, até porque vivo isso no meu trabalho. É como me sinto bem. No início da minha carreira achava todas as pessoas com quem trabalhava mais bonitas que eu. Trabalhei muito em mim para me aceitar. Aprendi que devia potencializar meus pontos positivos, o que eu tinha de melhor. Se a genética me ajudou com a altura e o biotipo. Tentei melhorá-lo ainda mais, me alimentando bem, praticando exercícios, meditando. Pessoalmente, no meu dia a dia, prefiro estar mais natural, sem muita maquiagem ou grandes produções, até porque vivo isso no meu trabalho. Mas esse é o jeito que eu sou e a forma como me sinto bem. Acho que cada um precisa se aceitar e buscar aquilo que lhe faça sentir bem.

Como cuida de sua beleza e corpo?

Me alimentar bem e praticar exercícios são coisas que fazem parte do meu dia a dia. Percebo que, quando saio desta rotina, não me sinto tão bem. Eu sou bem eclética quando se trata de exercícios, ioga, pilates, kung fu, boxe, surfe, vôlei... Gosto mesmo é de me divertir, de fazer com alegria. Gosto de todas as formas de exercício e acabo fazendo mais um ou outro dependendo do lugar onde estou. Quanto à alimentação, mudei bastante nos últimos anos. Procuro ter uma alimentação orgânica e o mais natural possível. Hoje, como mais grãos, vegetais e frutas. Como peixe eventualmente e raramente como frango ou carne vermelha. Notei que esta mudança me trouxe muito mais energia, além de ter menos oscilações de humor.

Você disse certa vez em uma entrevista que, logo no início, enfrentou críticas por ter imperfeições, mas que, após um tempo de carreira, todos aprenderam a adorar suas 'imperfeições' e a queriam, mesmo com seus 'defeitos'. Como você avaliaria isso hoje?

Sempre procurei focar nos meus pontos positivos e trabalhar para que eles se sobressaíssem em relação ao resto. Minha personalidade me ajudou a equilibrar minhas inseguranças na parte física. Acredito que por ser alegre e positiva as pessoas gostavam de estar ao meu redor e isso me ajudou muito na minha carreira e na minha vida.

Quais são seus pontos fortes? E os fracos?

Diria que minha determinação, disciplina, positividade e personalidade descontraída me ajudaram a superar os desafios e me transformaram em quem sou hoje. Prefiro não listar meus pontos fracos, pois não foco neles. Minha escolha é focar nas coisas que me fazem evoluir e crescer.

Recentemente você gravou uma canção para a campanha da H&M. Está nesta ousadia a coragem de ser espontânea e não se preocupar com críticas? Tanto em relação a se aventurar na canção, a atuar, a cuidar de uma linha de lingerie (como a Gisele Bündchen Intimates Hope), cosméticos...

Há muito tempo parei de fazer as coisas para agradar alguém. Adoro novos desafios, sou muito curiosa e acho que o importante é se divertir. Se um projeto for desafiador e divertido, vou fazê-lo. No final das contas, não vivo pelos outros, vivo por mim. Dou muito valor a minha vida, sou grata pelas oportunidades e por estar aqui. Por isso, vou viver de uma forma que me dê alegria e encarar os desafios sem medo.

Você é embaixadora da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Meio Ambiente. A moda pode ser uma plataforma real de novos modelos de produção sustentável?

Acredito que a moda e outros setores também podem ter práticas mais sustentáveis e acho que para o futuro do nosso planeta, elas não só são importantes, como indispensáveis. A sociedade já despertou para isso, mas ainda estamos engatinhando, sem saber muito bem o quê e como mudar a situação. Acredito que como consumidores, precisamos exigir novos processos. No futuro, isso não será mais uma preocupação, mas uma necessidade. O planeta já está nos mostrando que precisamos mudar.

Como ser sócio, ambiental e economicamente sustentável e, ao mesmo tempo, sustentar nossos padrões de consumo atuais? Acho que precisamos rever nossos padrões de consumo atual e buscar processos mais inteligentes e sustentáveis.

No Brasil, onde muitas questões ambientais ainda estão em segundo plano, é possível levar o consumo responsável para uma esfera macro? Atitudes como a sua, de optar por orgânicos, de defender questões ambientais, de tentar levar esta atitude responsável para seu dia a dia, podem influenciar de fato as pessoas?

Meu pai sempre diz que o melhor ensinamento é através do exemplo. Tento viver de forma mais responsável no meu dia a dia e transmitir isso as pessoas ao meu redor. Se, de alguma forma, eu puder servir de exemplo positivo e ajudar a conscientizar um maior número de pessoas, fico feliz. Não me considero demasiado otimista e sei que as mudanças requerem tempo e não são fáceis, mas também sei que precisamos começar de algum lugar, e que melhor lugar do que a nossa casa?

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