Achados no espaço

Ficção científica do grupo Foguetes Maravilha leva a palco carioca dilemas humanos de três astronautas

DANIEL SCHENKER , ESPECIAL PARA O ESTADO / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2013 | 02h19

A montagem Síndrome de Chimpanzé parece despontar como um trabalho que busca na distância elementos para abordar questões próximas ao humano. Mas a nova encenação do grupo Foguetes Maravilha - que estreia hoje no Espaço Cultural Sergio Porto, no Rio de Janeiro - não repousa exatamente sobre essa oposição. O vínculo com a ficção científica, gênero incomum no teatro, não sinaliza o apego a temas dissociados da esfera terrena. "É possível alcançar profundidade nesse gênero", afirma Alex Cassal, autor e diretor da montagem que traz no elenco Felipe Rocha, Stella Rabello e Renato Linhares.

A necessidade de administrar a convivência fica evidente na situação exposta por Cassal: astronautas russos se veem isolados numa estação espacial quando uma catástrofe extermina a humanidade. Restam escassos recursos. Cassal considera que a circunstância do confinamento na estação pode funcionar como metáfora de um casamento longo. Em todo caso, a dimensão existencial - potencializada pelas referências a filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, e Solaris, de Andrei Tarkovski é contrabalançada por evocações mais despretensiosas - de produções como Barbarella, de Roger Vadim. "Misturamos Didi-Huberman com Didi Mocó", assinala Felipe Rocha, citando, respectivamente, o filósofo francês e o personagem do humorista Renato Aragão.

Alex Cassal, de 46 anos, e Felipe Rocha, de 41, imprimem um sopro de geração, realçado pela estética dos anos 60 e 70. "Nós nos remetemos à nossa infância, a um paraíso perdido", constata Rocha. Síndrome de Chimpanzé provoca um atrito entre o apelo futurista da ficção científica e as influências de décadas passadas. "É saboroso pensar a ficção científica no retrô porque se trata de um futuro velho", declara o ator. Mas a nostalgia não norteia Cassal e Rocha. "O mundo de hoje continua interessante. Talvez nos dê mais chances de escolha. Acho incrível a junção da Jornada Mundial da Juventude com a Marcha das Vadias. É algo que produz fricção", diz Cassal.

O texto de Síndrome de Chimpanzé começou a ser elaborado por Cassal há cerca de dois anos. De início giraria em torno de dois astronautas. No entanto, o elo com Stella Rabello e Renato Linhares fez com que o número subisse. "Gosto mais da formação do trio do que da de dupla. Gera alianças e oposições", resume Cassal. O projeto se modificou com o desenvolvimento do Foguetes Maravilha. Fundado em 2008, o grupo vem se destacando a partir de uma proposta de relação aberta com o espectador, convidado a preencher lacunas lançadas em montagens que não procuram apresentar sentidos fechados, estimulando, assim, cada um a realizar suas articulações. "Os trabalhos não chegam finalizados à cena. Terminam com a colaboração do público", garante Cassal. Os atores também se afastam de uma noção tradicional de interpretação de personagem ao surgir no palco de modo desarmado, o que não significa, contudo, que suas atuações não tenham sido previamente construídas nos ensaios.

Essas características foram detectadas nas montagens anteriores do grupo, como Ele Precisa Começar e Ninguém Falou que seria Fácil. A primeira contou com texto e interpretação de Felipe Rocha, que dividiu a direção com Alex Cassal; a segunda, que rendeu a Rocha a estatueta de melhor autor nos prêmios Shell e Questão de Crítica, teve disposição parecida, com elenco, porém, reforçado por Stella Rabello e Renato Linhares. "Todos dão palpites. O fato de eu ser o autor do texto não faz da minha palavra a última. Mas é importante estabelecer funções", pondera Cassal, que ainda trabalhou com Rocha nos solos de 2histórias, em Toda Nudez será Castigada, de Nelson Rodrigues, e em Mundo Maravilha - decorrente do intercâmbio artístico com o coletivo português Mundo Perfeito, capitaneado por Tiago Rodrigues -, que será mostrado, em outubro, na Noruega. Além de Cassal e Rocha, boa parte dessas iniciativas resulta das contribuições de Aurora dos Campos (cenografia), Tomás Ribas (iluminação), Alice Ripoll (direção de movimento), Antônio Medeiros (figurinos) e Marina Provenzzano (assistência).

Antes de se tornarem parceiros, Cassal e Rocha firmaram trajetórias distintas, mas aproximadas pelo vigor autoral. Cassal acumulou experiência juntamente com o Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo de teatro de Porto Alegre, enquanto Rocha atuou sob a condução de encenadores com assinaturas marcantes, como Amir Haddad, Antonio Abujamra, Aderbal Freire-Filho, Christiane Jatahy, Moacir Chaves e, em especial, Enrique Diaz. "Felipe é um artista múltiplo, que contamina o trabalho com a sua potência criativa. Já Alex propôs cenas que permaneceram em Otro", elogia Diaz, mencionando a encenação do Coletivo Improviso.

Reconhecido no teatro, Rocha será visto nos próximos meses em filmes como Nise da Silveira, de Roberto Berliner, Trago Comigo, de Tata Amaral, e Mato sem Cachorro, de Pedro Amorim. Na televisão, integra o elenco da segunda temporada de Copa Hotel, no canal GNT. A fase promissora é complementada com Na Nuca, que escreveu e deverá ganhar o palco com Julia Lemmertz e Fernando Eiras.

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