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Acervo recuperado na Alemanha deve mudar a historiografia do século 20

É surpreendente que obras dessa qualidade e dimensão histórica tenham sobrevivido até nossos dias

Maria Hirszman - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2013 | 22h00

Impossível não se surpreender com a notícia, divulgada no último fim de semana, sobre o impressionante achado de 1.406 obras de arte num apartamento em um bairro nobre na cidade alemã de Munique. Tinham sido ocultadas na penumbra e disfarçadas por uma barreira de comidas enlatadas, muitas delas vencidas desde os anos 1980, por Cornelius Gurlitt, filho do marchand Hildebrand Gurlitt (1895-1956).

Antes de tudo é preciso sublinhar – e comemorar – o fato de obras dessa qualidade e dimensão histórica terem sobrevivido em tão boas condições até nossos dias. No entanto, junto à boa notícia, surgem inúmeros questionamentos. As surpresas se sobrepõem em cascatas: a quantidade e a qualidade de obras (seu valor é estimado em 1 bilhão de euros) é impressionante; o lote está intimamente ligado à terrível história de censura e espoliação perpetradas pelo regime nazista; e é chocante imaginar que tal tesouro tenha permanecido invisível das autoridades por tanto tempo, tendo sido descoberto de forma quase fortuita.

Para começar a vislumbrar as implicações dessa descoberta e seus desdobramentos, é preciso traçar um pequeno resumo cronológico, que se inicia nos anos 1930 do século passado, quando Hitler sobe ao poder. Dentre as inúmeras vítimas do regime, inclui-se a arte moderna, com especial desprezo pela arte expressionista, considerada portadora de valores antialemães e vinculadas ao judaísmo e bolchevismo. Em 1937, é realizada a exposição de Arte Degenerada em Munique, com centenas de obras vilipendiadas. Muitos trabalhos foram queimados, outros tantos negociados para ajudar a financiar o regime e muitos constam simplesmente como “desaparecidos”.

Outro efeito do espraiamento do nazismo pela Europa foi o confisco de coleções inteiras pertencentes a judeus ou sua venda por preços irrisórios pelos refugiados. Calcula-se que 21 mil obras tenham sido confiscadas, destruídas ou negociadas por eles.

O marchand Hildebrand Gurlitt desempenha um papel curioso nesse cenário. Neto de uma judia, tinha tudo para ser perseguido, mas acaba convocado por Goebbels para ajudar nesse processo de confisco e negociação das obras ditas degeneradas no exterior. Após o fim da Guerra, Gurlitt consegue se livrar das acusações que pesavam contra ele e consegue se restabelecer, alegando que sua coleção havia sido queimada durante o bombardeio a Dresden, em 1945.

Manteve-se ativo como galerista até morrer num acidente de avião, em 1956, e há inclusive cartas dele no acervo de Lasar Segall. Chegou a ter 139 obras confiscadas pelo exército americano de ocupação, que lhe foram devolvidas. Algumas estavam entre aquelas guardadas por seu filho no apartamento de Munique, e que foram descobertas no ano passado depois que uma investigação de rotina suspeitou de Cornelius Gurlitt quando este retornava da Suíça em 2010.

Este senhor, então com 78 anos, estava nervoso, não possuía documento de contribuinte nem registro. Era, segundo a matéria da revista Focus que divulgou a história, “um homem que não existia”, e vendia de vez em quando alguns desses trabalhos. O último, antes de seu apartamento ser investigado, em 2012, foi Lion Tamer, de Max Beckman, vendida por 864 mil euros por uma casa de leilões de Colônia.

A primeira pergunta que não quer calar é: como esse homem conseguiu esconder a si e às suas obras por tanto tempo, ainda mais fazendo retornar obras ao mercado de arte? A estratégia inicial dos investigadores alemães de manter a descoberta em sigilo foi duramente criticada, e chovem pedidos de divulgação da lista completa das obras, mesmo depois da promotoria ter afirmado que ela foi adotada exatamente para preservar o interesse dos proprietários. Uma dessas herdeiras é Anne Sinclair, apresentadora francesa de televisão e ex-mulher de Dominique Strauss-Kahn, político envolvido em escândalo sexual em 2011 em Nova York. Anne é neta do colecionador Paul Rosenberg.

Para Tadeu Chiarelli, diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP), trata-se de um processo que deverá durar anos. “Creio que não teria cabimento o governo alemão jogá-las no mercado, pulverizando a importância global do que foi encontrado”, afirma. O que é certo é que tal descoberta implicará num esforço de pesquisa monumental, capaz de promover mudanças importantes na historiografia da arte do século 20. “Uma quantidade tão importante de obras de artistas significativos como esses com certeza poderá trazer novas análises interpretativas, colocando novos problemas para a história da arte”, conclui.

Segundo Vera d’Horta, pesquisadora do Museu Lasar Segall, a adoção de critérios transparentes e ações de cooperação internacional seriam extremamente benéficas. Ela lembra que no próprio Museu Lasar Segall há uma série de obras listadas que constam como paradeiro desconhecido, e essa descoberta pode ajudar a preencher muitas lacunas. Eternos Caminhantes (1919), do artista russo radicado no Brasil, foi reencontrada por um marchand e readquirida pela viúva do artista. O quadro estará exposto a partir de março de 2014 em uma grande exposição sobre arte degenerada, que agora adquire ainda maior relevância, na Neue Gallery de Nova York.

Exposições como essa demonstram a importância de tornar público esse patrimônio mundial. “Trata-se do direito à informação, de conhecimento de uma produção muito importante para a história da arte que, sem esses terríveis acontecimentos, estariam visíveis e disponíveis para o mundo inteiro”, afirma Vera. A pesquisadora lembra uma terrível e verdadeira frase contida em carta enviada por Otto Dix, autor de um autorretrato que é um dos destaques do espólio recém encontrado, a Segall: “Nossas obras foram parar nos porões. Espero que algum dia voltem à ver a luz”, escreve o artista, que talvez não imaginasse que esse tempo seria tão longo.

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