Acervo Geral mostra trajetória de judeus no Brasil

Um rico acervo da memória dos judeus cariocas e brasileiros estará à disposição do público a partir desta segunda-feira, no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. São documentos (entre eles, cerca de mil fotos) acumulados ao longo da vida do advogado Samuel Malamud, líder sionista e primeiro cônsul do Israel no Brasil, que morreu em março, aos 92 anos. A coleção foi doada há dois anos pelo próprio Malamud, que sempre teve a preocupação em preservar a memória de sua comunidade e também da cidade."Com esse acervo, começamos a contar a história dos imigrantes que contribuíram para a nossa identidade cultural", diz a diretora do Arquivo Geral da Cidade, Lélia Coelho Frota. Ela explica que, em cidades antigas e cosmopolitas como o Rio, a influência dos imigrantes nem sempre é visível, como acontece no sul do País, onde eles participaram da construção da cidade. "Aqui, os imigrantes se misturaram num grupo já formado e suas marcas culturais se diluíram. Espero que integrantes de outras comunidades, espanhóis, italianos, sírio-libaneses e outros também tragam seus documentos."Lélia ressalta que os primeiros judeus chegaram ao Rio ainda no século 18, a maioria da Península Ibérica. Nesse século por causa das perseguições que sofreram dos governos locais, começaram a vir os que viviam na Europa Oriental. A maior parte dos documentos de Malamud são sobre o período entre os anos 20 e 70, um período em que eles, desobrigados de declarar sua religião, não eram identificados como tal.Hoje se calcula que a comunidade judaica do Rio chegue a 45 mil pessoas, embora seja difícil precisar o número. "Eles aparecem como russos, poloneses, romenos, pois vinham com o passaporte de seu país de origem e logo se integravam, sem grandes choques culturais.Judeus e sambistas - Samuel Malamud chegou ao Rio em 1924, aos 16 anos, vindo da Rússia. Logo se estabeleceu na Praça 11, reduto também de sambistas e de outros imigrantes pobres trazidos por problemas políticos e/ou econômicos. Já então, começou a guardar documentos (especialmente jornais e revistas em iídiche), fotografar o cotidiano de sua comunidade e datas importante, como a visita de líderes ou personalidades judeus ao Brasil. De mascate, sua primeira profissão, tornou-se advogado e líder entre os judeus brasileiros, cuja adaptação no Brasil foi muito mais tranqüila do que em outros países."O entrosamento entre os judeus e sambistas, a maioria negros e descendentes de escravos, era tão natural que ninguém se preocupou em saber como eles se relacionavam", diz a filha de Samuel Malamud, a antropóloga Ilana Strozenberg. "Meu pai nunca falou desse assunto particularmente, embora o tema mereça uma pesquisa. Geralmente as pessoas estudam a comunidade dos sambistas ou a dos judeus, mas raramente citam que elas conviviam no mesmo espaço físico. Talvez esse arquivo dê subsídios para algum estudioso da convivência entre os sambistas e os judeus."Ilana conta que o pai guardava seus documentos em pastas e, à medida que ascendia socialmente, enriquecia a coleção. Tornou-se amigo de artistas e políticos como Cândido Portinari, Alberto Guignard e Cecília Meireles, Anísio Teixeira, Pedro Calmon e Afonso Arinos, de quem era advogado. Líderes sionistas, como o fundador do Estado de Israel, Ben Gurion (que veio nos anos 50 e foi recebido pelo presidente Café Filho), e o cientista Albert Einstein, visitavam o Brasil e mantinham contato com ele, que tudo documentava. "Para organizar o aquivo e facilitar a vida dos pesquisadores, foi preciso patrocínio do Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet", conta Ilana, que vem trabalhando no projeto há dois anos.Correções - Sua intenção é lançar um CD-ROM com todo o material, mas antes espera correções que certamente serão necessárias. "Muitos imigrantes tinham o nome grafado de forma incorreta por escrivães que não conheciam a língua original deles e algumas fotos ainda estão sem a identificação", diz Ilana.Para divulgar a coleção, o Arquivo Geral da Cidade promove, a partir de amanhã, uma exposição com parte do material especialmente as fotografias que, em alguns casos, serão comparadas com a paisagem atual da Praça 11. Boa parte dos imóveis do lugar foram demolidos com a abertura da Avenida Presidente Vargas, nos anos 50, e as posteriores mudanças urbanas da região.

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