Acervo de Luís Martins é aberto ao público

A biblioteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) tornou-se ontem uma importante fonte de pesquisa documental para os interessados na história das artes plásticas brasileiras. Com a inauguração do Centro de Estudos Luís Martins, parte considerável do material guardado em vida pelo escritor, jornalista e crítico de arte Luís Martins (1907-1981) está, agora, aberta ao público."É o primeiro grande acervo de documentos do MAM", afirmou na solenidade de quinta-feira o curador-geral da instituição, Tadeu Chiarelli. Segundo ele, a criação do centro de estudos mostra "um inequívoco amadurecimento da instituição". Uma centena de pessoas ocupava o auditório do museu, entre elas a escritora Lygia Fagundes Telles. O material, que vem sendo catalogado e classificado desde 1997 pela pesquisadora Cristiana Bertazoni, já serve de apoio para as pesquisas realizadas pelo museu.A formação dessa base de dados e textos é resultado da doação feita pela escritora Anna Maria Martins, viúva de Martins, e pela publicitária Ana Luísa Martins, filha do casal. "Parte do meu pai está aqui; espero que seja bastante útil aos pesquisadores", disse Ana Luísa. Cerca de 1.300 cartas guardadas por Martins e 10 mil crônicas escritas por ele fazem parte do acervo, além de fotografias e recortes de jornais e revistas.É só uma parcela dos arquivos de Martins, que escreveu no jornal O Estado de São Paulo por 34 anos: uma parte de seus papéis foi doada pela família, nos anos 80, à Casa de Rui Barbosa, no Rio, e sua biblioteca foi vendida à Universidade Federal de São Carlos.Iniciais - Martins foi um importante nome da cultura brasileira. Nos anos 30, acabou perseguido pelo Estado Novo, regime ditatorial estabelecido por Getúlio Vargas. Motivo: seu romance Lapa foi considerado imoral. Teve de deixar o Rio, onde vivia. Mudou-se para São Paulo, em 1938. Em 1957, o poeta Carlos Drummond de Andrade classificou, em crônica no Correio da Manhã, o episódio como "uma perda deplorável para o Rio".Em São Paulo, Martins tornou-se referência no circuito de artes plásticas. Foi o primeiro a defender a criação do MAM publicamente, em 1946, em texto no Diário de São Paulo. No fim da ditadura getulista, participou da formação do Partido Socialista Brasileiro.Em 1947, passou a escrever no Estadão. No jornal, assinaria a maior parte de suas crônicas com as iniciais L.M. - "sigla pela qual me tornaria mais conhecido do público do que pelo meu próprio nome", escreveu. Também dirigiu o arquivo da publicação. Seus textos não tratavam apenas de artes plásticas, mas também de assuntos relacionados ao cotidiano da cidade, à literatura, ao rádio e teatro.Martins viveu com a pintora modernista Tarsila do Amaral por quase 20 anos, mas o gosto do crítico pela arte moderna foi muito além dessa relação iniciada na juventude. Dos 36 livros que publicou, boa parte trata dessa produção. Alguns deles estão expostos na biblioteca Paulo Mendes de Almeida, do MAM, como "Di Cavalcanti e A Pintura Moderna no Brasil". Entre seu amigos, estavam Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Di, Portinari, Moacir Werneck e o prórpio Paulo Mendes de Almeida.Em 1963, Francisco Matarazzo decidiu doar o acervo do MAM à Universidade de São Paulo, dando origem ao Museu de Arte Contemporânea. Martins criticou a medida. O MAM seria reconstituído e, nos anos 70, o jornalista participaria de sua direção e de seu conselho. Ontem, Chiarelli ressaltaria a "abnegação de homens e mulheres que se desdobraram para manter o museu".Como escritor, Martins recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti, pelos livros Noturno da Lapa (1964) e Girafa de Vidro (1971). Intregou a Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira 28, que pertencera a Julio de Mesquita Filho. Atualmente, Anna Maria também é integrante da instituição.Ana Luísa gosta de contar que, graças a seu pai, a instituição inovou no chá da tarde, passando a servir também uísque aos acadêmicos. A bebida, cuja apreciação reunia os amigos Sérgio Buarque e Paulo Mendes, foi, por sugestão da filha servida após a cerimônia de inauguração do novo centro.

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