Acervo agora está todo em SP

Originado da obstinação da mãe de Glauber em fazer as palavras do filho ecoarem mundo afora, o Tempo Glauber, no Rio, que tem quase os 30 anos da ausência de seu inspirador, sempre viveu na corda bamba. Desde o início do ano, não recebe recursos do Ministério da Cultura destinados a seu custeio, o que faz com que a família Rocha use dinheiro próprio para mantê-lo aberto, abrigando e difundindo sua produção intelectual. Anteontem, a luz chegou a ser cortada. "Sou famosíssimo e paupérrimo" - a frase de Glauber pendurada na parede não é mera coincidência.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Se depender dos herdeiros, a sua luz não vai se apagar. Sem querer arriscar um acervo riquíssimo salvaguardado por Dona Lúcia com doses iguais de amor e meticulosidade, eles venderam em dezembro à Cinemateca Brasileira, por R$ 3 milhões, roteiros, fotografias, manuscritos, poesias (cabem et ceteras) - tudo digitalizado -, num total de 25 metros lineares reveladores do pensamento e da poética do cineasta. A transferência para São Paulo foi feita segunda-feira.

"Foi barato, mas eu tinha urgência. O acervo documental é precioso, não se pode deixá-lo numa instituição que é frágil, muito dependente da família. A grande vantagem é poder, através das anotações dele e das diferentes versões, acompanhar o seu processo de criação, que é o grande barato do pesquisador", diz Paloma, primogênita de Glauber e diretora da casa.

"Lá fica mais seguro, contra incêndio e contra o esquecimento. Esse acervo é para a eternidade", emociona-se Dona Lúcia, de 92 anos, que ainda hoje sobe as escadas do espaço cultural de Botafogo (também voltado à capacitação em cinema) para se cercar de seu ideário e de suas imagens.

Avó e neta acompanhavam o empacotamento para a transferência com certa melancolia. "É difícil se desapegar. Guardei tudo, mesmo o que ele jogava fora. Pegava e passava a ferro", lembra a matriarca.

Foi assim, seguindo os passos do filho, que ela reuniu sua produção intelectual. Depois de sua morte, foi ela quem rodou o mundo atrás de seus filmes - hoje, seis longas estão restaurados, graças ao Tempo Glauber e à Cinemateca: Barravento (1962), Terra em Transe (67), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (68), A Idade da Terra (80) e O Leão de Sete Cabeças (71), além de seu primeiro curta, O Pátio (59). Faltam quatro longas, inclusive Deus e o Diabo Na Terra do Sol, cujos negativos estão salvos, e sete curtas.

No dia 22, quando faz 30 anos de sua perda prematura, a Cinemateca promove, às 20 horas, sessão especial d"O Leão. No dia 23, por iniciativa da senadora Lídice da Mata (PSB-BA), o Senado lhe fará uma homenagem.

A Cinemateca é depositária de parte do acervo de Glauber desde que ele era vivo. Nessa última leva, foram roteiros de projetos não realizados, como os filmes O Destino da Humanidade, escrito entre 79 e 80, e A Guerra Civil, do fim dos anos 60, para o qual Glauber pretendia escalar Marlon Brando e Jack Nicholson, e a ópera O Guarani, de 76, que ele queria ver encenada no Municipal do Rio. Seguiu também um diário pessoal de 71, que vai virar livro da Cosac Naify.

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