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Acaso e necessidade

Eduardo Coutinho fala de sua trajetória, com passagens pelo jornalismo e pela TV

LUIZ ZANIN ORICCHIO - ENVIADO ESPECIAL ,

18 de junho de 2013 | 02h12

RIO - Volume de 95 páginas preparado para a Flip, O Olhar no Documentário e Crítica de Cinema (1973-74) é mero aperitivo do robusto livro a ser lançado durante a Mostra de Cinema em São Paulo, em outubro, quando haverá retrospectiva exaustiva das obras de Coutinho.

Na conversa de quase três horas com o Estado, Eduardo Coutinho falou do livro, de suas tentativas como escritor, e lembrou, em especial, de sua carreira errática, uma daquelas trajetórias nas quais a palavra "acaso" tem presença marcante. Por caminhos inusitados e nada retilíneos, a vida o levou a ser um dos documentaristas mais importantes do Brasil e do mundo. Ao longo da entrevista, Coutinho só se desviou de uma única questão, clássica nas conversas com cineastas, sobre o próximo projeto. "Não digo. Não sou supersticioso, mas acho que dá azar."

E fim de papo. O resto todo ele disse.

Essa faceta de crítico é menos conhecida. Como foi isso?

Eu trabalhava como copidesque do Jornal do Brasil. Sabe como é: melhorar o texto dos outros. Alguns ficavam p. da vida quando mexiam nos textos. Com razão. E aí ocorreu de eu ser convidado para escrever um pouco de crítica. Nada demais. Quem escrevia para valer eram o Ely Azeredo, o José Carlos Avellar e o Alberto Shatovsky.

Mas você gostava de escrever críticas?

Eu já nem me lembrava mais desses textos. Tenho uma relação problemática com a escrita. Faz uns 20 ou 30 anos que não escrevo nada. No livro, tem esse texto (O Olhar no Documentário), que o Paulo Paranaguá me pediu, eu não tive como recusar. Para ir a Paris, eu tinha esse compromisso, então não tinha jeito. Tomei um uísque, peguei uma dessas Olivetti da vida e escrevi até a madrugada, mandei para ele. Desde então, nunca mais escrevi.

Um ponto importante da sua carreira é a ida para a Globo.

Fui chamado para o Jornal Nacional, ganhando a mesma m... que eu ganhava no Jornal do Brasil. Não fui, porque sabia que o JN era o inferno. Mas aí entra o acaso. Havia uma vaga para o Globo Repórter e fui chamado para ganhar o dobro. Era o faz-tudo. Produzia, escrevia, montava, traduzia textos, tinha de botar o programa no ar. Escrevia em estêncil para o Sergio Chapelin ler.

Você fez algumas coisas muito interessantes lá, como Teodorico - Imperador do Sertão e Seis Dias em Ouricuri.

Em Ouricuri havia uma seca terrível, então eu filmei um cara, num plano único, descrevendo todo o tipo de raízes que ele havia comido por não ter outro alimento. São três minutos e dez segundo num plano só, coisa impensável na TV. Eu havia lido O Quinze, da Rachel de Queiroz, ela descrevia a seca terrível e como a raiz era a última coisa disponível para comer. Levantei o assunto com eles e passaram a me descrever, inclusive com um humor incrível. Mas com emoção. O plano tinha de ser único. Então eu aprendi duas coisas, a questão da forma é fundamental e saber escutar em silêncio também. Ajuda se você souber alguma coisa do assunto. Se eu não falasse sobre raízes talvez eles nunca tivessem tocado no assunto, tão corriqueiro era para eles.

E o Teodorico?

O Teodorico é um filme extraordinário, porque ele toma à frente e se assume como repórter. Todas as entrevistas com os trabalhadores são feitas por ele. Comenta que assim como no galinheiro há dez galinhas e um galo, a natureza manda o homem ser poligâmico. Fala das falcatruas, fala do ginásio que ele pagava para os meninos da fazenda e não paga mais porque iam embora, fala tudo. Foi amigo de todos os governos, de Vargas a JK. Tinha os escravos, 1400 moradores, que eram 1.400 votos. Foi o único cara da classe dominante que eu filmei e não pretendo filmar nenhum outro.

Você tinha em mente terminar o Cabra Marcado Para Morrer, que havia sido interrompido pelo golpe de 1964, ou era um projeto meio arquivado?

Era o que me mantinha vivo. Por causa dessa mudança de filme para vídeo na Globo houve uma interrupção longa, graças a Deus. Então eu pude fazer o Cabra. Montei na moviola da Globo, fiz trucas provisórias, usei a máquina de escrever da emissora, os magnéticos, tudo da TV...e com prazer enorme (risos).

Santo Forte e Jogo de Cena foram divisores de água, não?

O problema na verdade era o que fazer depois do Cabra Marcado para Morrer. Em 1997, eu tinha 64 anos, e quis fazer um filme sobre religião filmado num lugar só. O Escorel me disse: ninguém vai aguentar esse filme. Isso, antes de ir para Gramado, onde foi consagrado, e teve grande apoio crítico.

E Jogo de Cena?

Mulheres que contam histórias, sem esse negócio interpretativo freudiano. Nenhuma delas é atriz ou todas são atrizes. Eu teria um filme de duas horas, com histórias extraordinárias feitas apenas com depoimentos reais. Mas isso eu já fiz. Pensei: vamos botar atrizes. Conhecidas e desconhecidas. No fundo é um filme de uma simplicidade absoluta.

Num balanço de carreira até agora, seriam esses os filmes decisivos?

Sim, Cabra Marcado para Morrer, Santo Forte, que fez minha carreira renascer. E Jogo de Cena. Até Santo Forte eu era o cara que tinha feito único filme que contava. A partir de Santo Forte passo a ter uma carreira. E foi um prazer gigantesco fazer um filme que nada tinha a ver com a história e com a política, diretamente. Cada vez eu tento me afastar mais do meramente político.

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