Acaso e beleza na Paris de Doisneau

Livro com 300 fotos suas, organizado pelas filhas, reúne imagens clássicas e raras do acervo de 400 mil negativos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2010 | 00h00

Dez anos antes de sua morte, o fotógrafo francês Robert Doisneau (1912-1994), já via Paris como uma cidade habitada por fantasmas. Não os fantasmas dos outros, para ele indiferentes, mas os seus. Doisneau, afinal, fotografou a cidade por meio século, registrando a Paris das boinas e chapéus-coco, a Paris ocupada e humilhada pelos nazistas, a Paris das barricadas, dos resistentes, das prostitutas do Bois-de-Boulogne, das tramoias e também das crianças, seu tema predileto. Todas essas faces da capital francesa estão em Paris Doisneau, um belo livro com 300 imagens que as filhas do fotógrafo, Francine Deroudille e Annete Doisneau, organizaram e que a editora Cosac Naify lança agora.

Dividido em cinco capítulos, o livro não segue a ordem cronológica em que as fotos foram feitas. Agrupadas por temas, essas imagens mostram os pontos turísticos, os tipos, a vida noturna, as celebridades, Paris durante a 2.ª Guerra e a sua transformação quando trocou a tradição pela modernidade, demolindo antigos prédios para construir torres de concreto e vidro. Falando sobre o assunto, Doisneau, em 1984, lembrou a "ingênua" baronesa de Haussmann, a mulher do urbanista que projetou a nova Paris ao assumir, entre 1853 e 1870, a remodelação da cidade. "Com seu jeito afetado, ela dizia: "Como é estranho, cada vez que meu marido compra um imóvel, chegam os demolidores!""

Ruínas. Na época de Doisneau também se demoliu muito, mas ele recusou lamentar-se sobre as ruínas. "A beleza, para ser comovente, tem de ser efêmera", justificou, lembrando que viu desaparecer todos os seus pontos de referência sentimentais, do calçamento em forma de coração do Institut de France ao crucifixo em frente dos gasômetros da Rue de l"Évangile. "O que me incomoda mais é o confisco dos meus oásis", diz Doisneau no livro, provavelmente se referindo às monstruosidades arquitetônicas de Paris, como a passarela da Défense.

A vida diante dos edifícios da Place Pinel dá medo, escreveu, vociferando contra a especulação imobiliária que expulsou os artesãos do Faubourg Saint-Agostine para dar lugar a agências de publicidade. É a última parte do livro e também a mais triste. Nela, um senhor com seu bassê olha desolado para o terraço da Défense e crianças brincam de cabra-cega na paisagem devastada de Beaugrenelle, sufocadas por "próteses de concreto" - como Doisneau chamava esses edifícios com fachadas de espelho que transformaram parte de Paris numa cidade "abstrata".

Na rua. A Paris de Doisneau é aquela que pulsa nas ruas, nos clubes noturnos, nas barracas dos parques de diversão. Os personagens do fotógrafo são os saltimbancos da Place de la Bastille, as strippers do Concert Mayol, as dançarinas de cancã do Tabarin, os frequentadores dos bailes populares na Rue des Canettes e os artistas que desenham a giz sobre o asfalto da Pont des Arts. Estão todos no livro, ao lado de celebridades como Simone de Beauvoir escrevendo no Deux Magots (1944), a cantora Juliette Gréco com seu bassê em Montparnasse (1947), o cineasta norte-americano Orson Welles bebendo antes do Grande Prêmio de Ciclismo (1950), a escritora Collete passeando de cadeira de rodas nos jardins do Palais-Royal (1953), o cineasta espanhol Luis Buñuel diante de um fliperama (1955), o escultor suíço Alberto Giacometti sentado num café da Rue d"Alesia (1958), além de estrelas mais recentes, como Sandrine Bonnaire (1990) e Juliette Binoche, esta num flagrante de rua enquanto filmava com o diretor Leos Carax seu angustiante filme Os Amantes da Pont-Neuf (1991).

No estúdio. Também estão no livro algumas das fotos mais conhecidas do fotógrafo, como o guarda que passa em frente de uma fachada com a boca de um demônio escancarada (O Inferno, 1952), o beijo diante do Hôtel de Ville (1950) e os dois irmãos de ponta-cabeça observados por outros dois gêmeos na rue du Docteur-Lecène (1934). São poucas essas fotos clássicas, pois as filhas do fotógrafo, que administram um legado de 400 mil negativos, queriam um livro abrangente, que mostrasse como Doisneau interagia com os habitantes de Paris, além de revelar sua relação com "o temível fundo branco do estúdio".

Seus dois ou três anos passados na Vogue deixaram apenas recordações nebulosas. Foi um emprego ruim, garante, pois, feitas as contas, "o desejo irresistível de fazer uma imagem é ditado pela busca dos elementos que provocaram uma emoção totalmente nova". E a única coisa nova era que nunca tinha sido testemunha de espetáculos como o casamento da viscondessa d"Harcourt ou os bailes dos aristocratas no Hôtel Lambert.

Há, no entanto, fotos deslumbrantes dos ateliês de costura. Todos os estilistas que importavam no pós-guerra estão lá: Givenchy, Chanel, Dior, Saint-Laurent. E também os mais novos: Gaultier, Lacroix. Nota-se, contudo, que Doisneau não se sentia à vontade com trabalhos de encomenda. Embora tenha começado sua carreira como funcionário da Renault, fotografando modelos de carro e peças publicitárias da empresa, foi na rua que o fotógrafo, órfão de pai aos 4 anos e de mãe aos 7, descobriu seu verdadeiro cenário.

PARIS DOISNEAU

Autor: Robert Doisneau. Tradutor: Celia Euvaldo. Editora: Cosac Naify (400 páginas, R$ 110).

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