Ação entre amigos

Cineastas e produtores se unem para criar um novo polo de criação audiovisual

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2013 | 02h12

Tudo começou com um acaso feliz. Carlos Manga Jr., um dos três melhores diretores de publicidade do País e filho do lendário cineasta, encontrou-se casualmente com José Henrique Fonseca, que tem no currículo filmes como Heleno e O Homem do Ano, além de ostentar uma honrada dinastia (o escritor Rubem Fonseca é seu pai). Do colega, Manga ouviu o desejo de diversificar sua atividade, alternando produção e direção. "Na mesma semana, conversei com (a diretora e DJ) Ivy Abujamra, que confessou ter a mesma vontade", lembra Manga. "Curiosamente, aquilo me fez descobrir que também eu precisava de uma mudança, de uma expansão."

Em pouco tempo, o trio agregou outros profissionais com idêntica visão de flexibilidade artística e, juntos, fundaram uma nova produtora, Zola, com sede no Jardim Botânico, no Rio, e um escritório em São Paulo, na Vila Madalena. E, nem bem nasceu, a produtora já iniciou uma série de projetos para televisão, cinema e publicidade (veja no quadro). "Nosso propósito é que cada um participe do trabalho do outro, revezando funções", comenta Fonseca.

Ele é um bom exemplo - no filme Capitão Gay, inspirado no personagem criado por Jô Soares e que vai ser rodado no segundo semestre, Fonseca vai atuar como produtor para a direção de Otávio Müller (que faz sua estreia no ofício) e Pedro Amorim. "Todos, de alguma maneira, participam de tudo", comenta Fonseca.

O grupo é completado pela atriz Claudia Abreu e os produtores Eduardo Pop e Jimmy Palma, todos com experiência no ramo - há ainda um sétimo sócio, que trabalha no mercado financeiro e prefere o anonimato. Alguns setores terão controle específico, como a área infantojuvenil a ser observada por Claudia. A escolha não foi aleatória: "Nos últimos dez anos, tive quatro filhos, portanto, acompanhei de perto todo tipo de programação audiovisual oferecido para essa faixa etária", explica.

Sua ideia é apostar em histórias nitidamente brasileiras, pois, ao lado dos filhos, percebeu que boa parte da programação oferecida às crianças têm contornos estrangeiros. "Claro que não é possível desconhecer a importância dos desenhos dos estúdios Disney, mas sempre senti falta de algo genuinamente nosso."

Um de seus primeiros projetos já aparece como uma pequena joia: Claudia escolheu um personagem de Ana Maria Machado, o Mico Maneco, e produziu uma animação, que já tem música tema composta por Adriana Calcanhotto. "Buscamos trazer a sofisticação da literatura da Ana Maria para o mundo da animação", conta Claudia, cujo trabalho já está em fase de finalização e deverá ser exibido no Discovery Channel.

Ela negociou ainda os direitos da obra de Maria Clara Machado, autora de um dos clássicos do teatro infantil, Pluft, o Fantasminha, e cuja dramaturgia anda indevidamente esquecida. Claudia também pretende conversar com Ruth Rocha, alargando seu campo de trabalho com a escrita das autênticas rainhas da literatura para jovens no Brasil.

"A ideia de fundar a Zola surgiu da necessidade de uma mesma produtora atender a diferentes nichos do mercado, ou seja, televisão, cinema, publicidade, artes visuais", conta Jimmy Palma, sócia fundadora da Bossa Nova, uma das maiores produtoras do País. "E poderemos firmar parcerias internacionais, atendendo às necessidades de produtoras estrangeiras que estão cada vez mais interessadas no Brasil."

É o que explica, por exemplo, projetos como Sonhadores, encomendado pelo comitê organizador da Olimpíada de 2016 no Rio e que vai acompanhar a preparação de 15 atletas até março daquele ano, exibindo suas dificuldades e conquistas. "Além do cunho social, é um programa para ser exibido em outros países", comenta Jimmy.

A Zola também vai promover trabalhos de artistas como o peruano Gustavo Bockos (também conhecido como Vokos), cuja experimentalismo pop invade as galerias de todo o mundo - atualmente, está em cartaz em Oslo, na Noruega. Ou da ilustradora Elisa Sassi, brasileira que vive nos EUA e cujos delicados personagens vão inspirar uma animação.

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