Academia prefere dramas humanos a arrasa quarteirões

O Oscar tem regras distintas quando se trata de premiar filme estrangeiro. Enquanto as demais categorias são regidas pelo interesse comercial (ainda que não descaradamente) e privilegiam, portanto, as obras que habitualmente estouram bilheterias (basta lembrar que Titanic, recordista em arrecadação, faturou 11 estatuetas em 1997), os longas não falados em inglês são analisados basicamente por sua qualidade artística. Mais: pelo seu poder de acrescentar culturalmente aos espectadores, independente do país onde vivem. Esse detalhe é importante porque praticamente exclui produções com caráter belicoso ou que apresentam violência excessiva. Exemplo do ano passado, quando as apostas indicava a vitória de Fita Branca, do austríaco Michael Haneke, sobre as raízes do autoritarismo. Mesmo referendado em Berlim, o longa acabou perdendo para o argentino O Segredo dos Seus Olhos, do argentino Juan José Campanella. Filme por filme, o de Haneke foi apontado pela crítica como muito mais completo e complexo. Campanella, porém, venceu amparado em suas virtudes de bom narrador, com uma história mista de thriller e romance. Mais evidente sobre o interesse dos jurados deste Oscar (formado por um comitê que julga apenas esta categoria) foi a premiação de 2007 - novamente, o favorito das apostas eram um filme pacifista, Valsa com Bashir, produção israelense que unia animação e cenas reais. Quando se abriu o envelope, no entanto, o vencedor foi o japonês A Partida, sobre um jovem músico que passa a auxiliar enterros, uma história simples, terna, que arrancou lágrimas onde quer que fosse exibido. Mais sintomática foi a premiação do ano seguinte, quando quase todos acreditavam na consagração de Katyn, do veterano polonês Andrzej Wajda, drama sólido sobre um terrível fato acontecido na 2.ª Guerra Mundial - seria também uma homenagem ao grande cineasta. Novamente o júri contrariou as expectativas e preferiu dar a estatueta para Os Falsários, que acompanha a trajetória de um falsificador judeu que, preso em um campo de concentração, é obrigado pelos nazistas a montar uma gráfica e a produzir dinheiro falso. A guerra está presente, mas em segundo plano - o que interessa é o drama humano, mais universal. Eis o caminho que o Brasil precisa aprender a seguir.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.