Acabou esse tipo de compositor?

Acabou esse tipo de compositor?

Então, não vai ser mais possível um novo Beethoven, um Bach, um Brahms? Um novo Stravinski, um Villa-Lobos?

GILBERTO MENDES, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Muito se fala, hoje em dia, sobre o fim da música erudita, nome sem dúvida meio pretensioso, esquisito, apesar de inventado pelo grande Mário de Andrade. Mas também se fala no fim da história, dos tempos, do romance, de tudo, enfim. É a moda.

Podemos sentir como pop uma canção cult de um Guillaume de Machaut, de um Dufay, mestres medievais, como outras vezes podemos sentir como cult a canção pop de um jongleur, um gaukler, os menestréis da mesma época. De certo modo, é o que volta a acontecer no século 20, a partir do aparecimento da música popular urbana, inventada pelo escravo negro apenas nas Américas.

Diferente da música popular folclórica, que é praticada pelo campesino e passada de uma geração para outra em toda a sua pureza, a música popular urbana é impura, suja, efêmera, uma música de salão, das cidades. Dance music. É o foxtrote norte-americano, o tango argentino, o chorinho e o samba brasileiros, la habanera, a rumba e o bolero cubanos. Todas essas formas identificadas por uma mesma batida de percussão africana.

Esse desenho rítmico africano e seus desenvolvimentos inspiraram boa parte da moderna música erudita do século 20. O tango, o foxtrote e o timbre da jazz band marcaram o expressionismo musical alemão de Kurt Weill, Hanns Eisler, Paul Dessau, e mesmo certo expressionismo eslavo de Stravinski e Shostakovich.

Se tivemos no século 20 admiráveis vanguardas musicais europeias, não menos importante, na mesma época, foi essa invenção musical afro-americana. Sobretudo o jazz, que Theodor Adorno, morrendo de inveja e preocupação, pichou o mais que pôde, para preservar a hegemonia da música alemã. A presença de uma neue musik negra estava em evidência. Os alemães consideram a música uma arte alemã. Os preconceitos de sempre, bem europeus.

Há um forte teor de seriedade, alta cultura, no João Ninguém, de Noel Rosa, na interpretação de Aracy de Almeida, arranjo magistral do qual participa o maravilhoso pianista "Fats" Elpídio. Nada mais música de cabaré, mais Moulin Rouge do que Le Papillon et la Fleur, de Gabriel Fauré, e Seligkeit, de Schubert.

O que é, portanto, música erudita? O que é música popular? A gente se perde ao tentar uma classificação. O mais intrigante, Bartok percebeu em suas pesquisas de campo: a música folclórica é a própria erudita transfigurada em popular. O que podemos perceber inversamente: a música popular eruditizada, muitas vezes pelas big bands de Duke Ellington, Stan Kenton, Woody Herman, depois pelos Beatles, David Byrne, Frank Zappa. Lembro-me bem de Zappa em Darmstadt, 1962, discutindo a neue musik nos debates durante os famosos ferienkurse. Boulez regia sua música!

Mais intrigante, ainda, e até paradoxal, é que a música erudita e a popular são duas artes totalmente diferentes uma da outra. Villa-Lobos não tem absolutamente nada a ver com Pixinguinha. A beleza é uma coisa terrível e misteriosa!...

Como explicar aquele balanço, o amor e o mar, que sentimos em Esse Cara, do velho Caetano Veloso?! Oh Look at me Now, cantada pelo Frank Sinatra e os Pied Pipers, que música mais de praia, mocidade, alegria !! O sprechgesang do Pierrot Lunaire, de Schoenberg, que nos faz até pensar em Tom Waits! O pai que interroga o destino em Les Noces, de Stravinski! A impressionante plasticidade estrutural dos Kontra-Puncte, de Stockhausen! O flutuar na profunda transparência dos Reflets dans l"Eau, de Debussy, quase um Oscar Peterson! E a emoção de, num longínquo sábado à noite!, dançar Looking for Yesterday, de Jimmy Van Heusen - disco de Tommy Dorsey, 78 rotações - cheek to cheek com uma deliciosa jovem perfumada, no embalo de uma festinha íntima de seus 18 anos!!!

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E DOUTOR PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. AUTOR DO LIVRO "UMA ODISSEIA MUSICAL" E MEMBRO HONORÁRIO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE MÚSICA.

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