Abujamra solta o verbo em "O Provocador"

O Boal passou os últimos dias viajando por vários países da Europa e está lépido e fagueiro nos seus 70 anos? "Pois eu passei as últimas semanas viajando por Araraquara, Catanduva, Rio Preto, São Carlos e estou arrebentado, morto de cansado", afirma Antonio Abujamra, com a irreverência que lhe é peculiar. Em suas andanças, Abu esquenta as turbinas para a estréia do espetáculo O Provocador @, no dia 27, na Mostra Oficial do 10.º Festival de Teatro de Curitiba. A estréia para valer é na capital paranaense, mas Abu vem fazendo algumas sessões de pré-estréias em cidades do interior do Estado. Antes de partir para Curitiba, ele ainda faz duas apresentações, na quarta e na quinta-feira, integrando a programação da série Solos de Teatro do Sesc Ipiranga. Como sempre ocorre com os artistas da série, Abu dará ainda uma aula-conferência, na quarta-feira, às 16 horas, com entrada gratuita.Mas ele também atravessa fronteiras. "No dia 3, eu viajo para Lisboa, onde apresento - morram de inveja - poesias de Camões e Fernando Pessoa." De volta ao Brasil, Abu embarca para Pelotas, onde passa seis semanas no set de filmagem de Concerto Campestre, um filme de Henrique Freitas Lima. "Eu interpreto o protagonista, o major Charqueado, um homem que sonhava em criar uma orquestra num lugar em que não existia um único músico. O filme é sobre uma utopia fitzcarraldiana", diz Abu. O história retrata o apogeu econômico da cidade, na metade do século 19, quando tornou-se grande produtora de charque. "Devido à riqueza que o charque trouxe para a cidade, as famílias viajavam para a Europa e, na volta, construíam suas casas inspiradas em castelos europeus. Tanto que Pelotas tem 3.500 imóveis da época imperial, 1.500 deles já tombados pelo Patrimônio Histórico", comenta Abu.Ainda segundo ele, o folclore sobre a concentração de homossexuais em Pelotas surgiu nessa época. "Os pais mandavam os filhos estudarem na França e eles voltavam com vocabulário e gestos muito requintados", conta. Tal requinte, ou "frescura" dependendo do ponto de vista, teria provocado a fama da cidade. Enquanto o filme não chega às telas e o avião não parte para Lisboa, Abu derrama sua irreverência no espetáculo O Provocador @. Ele pouco fala sobre o texto, um roteiro criado a partir de uma eclética seleção de autores: André Sant´Anna, Jacques Lacan, Eurípides, Thomas Jefferson, Hilda Hilst e Patricia Mello."Eu levo para o palco os textos mais pornográficos da Hilda; uma história muito engraçada que a Patricia Melo escreveu para mim. Quanto ao André, esse garoto é um dos autores da antologia dos cem melhores contos do século, ele é genial", diz Abu. O "garoto" André Sant´Anna retribuiu os elogios com um texto para o programa do espetáculo. Bem no espírito do mestre Abu, Sant´Anna escreve: "Ao subir ao palco, sob própria direção, fazendo o que bem entende, sem qualquer respeito pelas criações literárias mais incríveis de seus autores, sem qualquer respeito pelo que costuma se chamar de teatro, sem qualquer respeito por você, pobre platéia, Antonio Abujamra estará cumprindo com a mais respeitável missão do artista: ser livre até as última conseqüências."O Provocador @ - Dramaturgia, direção e interpretação de Antonio Abujamra. Duração 75 minutos. Quarta, às 16 horas, aula-conferência grátis (retirar convites com 1h30 de antecedência). Quarta e quinta, às 21 horas. R$ 12,00. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000.

Agencia Estado,

19 de março de 2001 | 10h34

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