Abujamra mostra sua versão de Adão e Eva

Marilia Pêra e Marco Nanini estavam entre os espectadores que lotaram o Teatro Leblon ontem à noite na sessão especial de pré-estréia da comédia Diário Secreto de Adão e Eva, com Ana Paula Arósio e Marcos Palmeira, dirigida por Abujamra. O público - integrado por funcionários e convidados da Embratel, empresa patrocinadora do espetáculo - riu em alguns momentos, mas fez silêncio em muitos outros. Quem esperava um comédia rasgada certamente saiu surpreso depois de ouvir e ver, por exemplo, um delicado e triste diálogo entre sobrinha e tio, extraído da última cena da peça Tio Vânia, de Chekhov. "Gostei de ver; é uma idéia interessante essa mistura de textos", falou Nanini à reportagem logo após o término do espetáculo e pouco antes de abraçar carinhosamente o casal de atores. Namorados no palco e fora dele, Ana Paula e Palmeira foram flagrados num beijo carinhoso no saguão do teatro após o término da longa sessão de cumprimentos dos amigos. O diretor Antônio Abujamra criou o espetáculo especialmente para a dupla com a qual há muito desejava trabalhar. Com a liberdade e a irreverência que lhe são peculiares, Abu adaptou o conto de Mark Twain Diário de Adão e Eva, ponto de partida para a criação da dramaturgia do espetáculo. "Adaptei suavemente o maravilhoso texto de Twain", afirma Abu. O fio condutor da peça é a tradicional visão bíblica da criação do homem, desde o surgimento do primeiro casal, passando pela expulsão do paraíso até o nascimento de Caim e Abel. A essa cosmogonia católica, o diretor enxertou trechos de diálogos de peças como Romeu e Julieta, de Shakespeare, A Serpente, de Nélson Rodrigues e Senhorita Júlia,, Strindberg, entre outros. Cada um desses textos reforça a idéia que perpassa todo o espetáculo: ao criar o homem e a mulher, Deus parece ter criado junto a impossibilidade de compreensão entre eles. Deus cria a mulher a partir da costela de Adão para que o mesmo não se sinta só. Juntos, eles devem descobrir o mundo e nomear as coisas. O problema é que o todo-poderoso esqueceu de contar aos dois qual o objetivo da criação da mulher. E tudo o que Adão sente, de início, é o incômodo pela interrupção de sua paz edênica. Fruto proibido - Na visão de Abu/Twain, a mulher é um ser curioso demais, que fala sem parar. Mas antes que as feministas estrilem, Eva é inteligente e perspicaz. Isso a leva a experimentar a árvore do fruto proibido e acrescentar ao ser humano a certeza de seu inexorável fim, a morte. E sobre essa certeza, a da morte, Abu cria os dois monólogos que encerram a peça, na única cena em que ambos estão no palco como estariam Adão e Eva: inteiramente nus. Abu fez questão de não ceder nem mesmo à tradicional imagem católica da folha de parreira. "É uma cena de nudez muito bonita; eles são de uma beleza!", comenta Abu. O diretor desejava voltar a trabalhar com Ana Paula desde que ela atuou em sua montagem de Fedra. "Além de linda, ela é uma atriz muito talentosa." E também vinha namorando a idéia de dirigir o amigo Palmeira. Finalmente, surgiu a oportunidade e o diretor resolveu mesclar várias cenas que falam a um só tempo da atração, do amor e da impossibilidade de compreensão que fazem a química da união homem/mulher. Na sua visão bem-humorada, a mulher é bem mais perspicaz que o homem, um ser vaidoso, que custa bastante a amadurecer. "Ele não é inteligente, coitado", diz uma Eva entre consternada e apaixonada num dado momento do espetáculo. Na verdade, "as fichas custam a cair" para Adão. Ainda no paraíso por exemplo, Eva acolhe animais em seu colo para esquentá-los. Quando, já na Terra, ela faz o mesmo com seu filho Caim, Adão não consegue perceber de onde saiu aquela criatura que, confunde com uma nova espécie de peixe. A incompreensão não impede a atração e o amor entre ambos. Daí a forte cor vermelha do painel que toma do o fundo do palco no cenário criado por Gringo Cardia. Ele criou ainda duas esculturas de 3,5 metros: um rosto e um pé, pedaços desses seres recém-criados e já fendidos em sua irremediável solidão. O rosto de Ana Paula e o pé de Palmeira serviram de modelo para a criação das esculturas colocadas na duas extremidades laterais do palco. "Quando vi a escultura do rosto pela primeira vez, achei tão bonito, que imediatamente lembrei da minha amiga e bela atriz Lílian Lemmertz", comentou Belinha, mulher do diretor Abujamra, com quem está casada há 39 anos. Ainda no palco, entre as esculturas, um pequeno tablado é utilizado pelos atores para interpretar os outros personagens, "fora do paraíso". A iluminação de Maneco Quinderé também destaca o trânsito entre o conto de Twain e os outros textos. André Abujamra foi o responsável pela criação da trilha sonora e Kalma Murtinho pelo figurino, que remete ao usado pelos personagens Tarzã e Jane no cinema.

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