Abujamra festeja 50 anos de teatro com Pirandello

Antonio Abujamra comemora 50 anos de teatro encenando Pirandello no Rio. A estréia de Esta Noite se Improvisa, nesta quinta-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil, marca ainda o início das comemorações de dez anos do grupo teatral Os Privilegiados, formado pelo diretor. A companhia, que teve Vera Holtz e Cláudia Abreu na primeira formação, nasceu com a cara de seu criador: apresentando novas formas de fazer teatro e revelando novas caras no cenário artístico carioca. Ele volta ao palco como protagonista da peça.Abujamra não quer saber de muitas badalações. E não é para menos. Aos 69 anos, o diretor e ator montou cinco peças só este ano e ainda está com três delas em cartaz no Rio. A maratona começou em São Paulo com Crimes Delicados, veio para o Rio com Louca Turbulência, Michelângelo e Diário Íntimo de Adão e Eva. Agora ele escolheu Pirandello, em Esta Noite se Improvisa, para comemorar seus 50 anos de teatro e os dez da companhia que formou no Rio de Janeiro, assim que terminou as gravações da novela Que Rei Sou Eu, em 1991, sua estréia na TV. "Os Privilegiados queriam fazer um teatro que não se preocupasse com o retorno do mercado", explica o assistente de direção, João Fonseca. Este ano, ele anunciou seu desligamento da companhia: quer que os pupilos sigam por suas próprias pernas. O grupo ficou um bom tempo sem atuar assim que Abujamra voltou a São Paulo, depois do fim da novela. A grande retomada foi em 1995, aí sim com uma formação radicalmente nova, com atores ainda desconhecidos do público e apostando nas variações. "Era o espaço para quem queria arriscar", explica Fonseca. Na reestréia, eles montaram o grandioso Exorbitâncias, com 55 atores em cena.Na primeira vez que ele se aventurou como ator nos palcos, na peça Contrabaixo, Abujamra foi muito elogiado e recebeu vários prêmios. A cobrança era grande por já ser um diretor reconhecido. Foi assim também com sua estréia como ator de cinema, no filme Festa, de Ugo Giorgetti, onde foi agraciado com prêmio de melhor ator em Gramado. Até na primeira aparição em novelas de TV, ele recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos. A mística em torno de Abujamra acabou envolvendo o grupo que ele ajudou a formar e eles começaram uma produção intensa e consagrada. Com O Casamento, de Nelson Rodrigues, eles levaram o prêmio Shell de 1997 nas categorias de Melhor Direção e Figurino. No ano seguinte, com o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, ganharam o Shell de melhor trilha sonora. Este ano, eles participaram do Festival Ibero-americano de Teatro em Bogotá, na Colômbia, e do Festival Internacional de Teatro, em Belo Horizonte, com Tudo no Timing, de David Ives.Agora é a vez de Pirandello. "É um prêmio apresentar este espetáculo para um público popular. Estamos precisando de Pirandello nos palcos e não só como nome de rua e restaurante. É hora de Pirandello", diz o diretor, que também foi responsável pela adaptação do texto e atua no espetáculo. O autor, que revolucionou a dramaturgia por falar dela mesma de forma crítica, põe em jogo os diferentes graus de realidade que compõem a vida. Pirandello confronta personagens e público, autor, diretores e atores em sua famosa Trilogia do Teatro que começou com Seis Personagens À Procura De Um Autor, de 1921 , seguida de Cada Qual a Seu Modo, 1924. Esta Noite se Improvisa é a terceira peça, de 1929, e traz a história de um diretor que pretende que os atores improvisem e construam o espetáculo, que ele depois vai moldar conforme sua percepção. O conflito começa quando os atores se sentem incapazes de criar seus personagens e, ao mesmo tempo, ficam atentos ao conjunto do espetáculo.Abujamra quis trazer o texto o mais próximo possível do público brasileiro e retirar qualquer traço de temporalidade. "A idéia é fazer uma tradução e adaptação que não deixe a peça com uma leitura européia, mas sim, uma visão crítica do movimento do mundo. A mim não interessa a época e o local, mas sim a história", explica. Para participar da comemoração, ele chama ao palco, ainda que só textualmente, alguns de seus companheiros de trajetória. No espetáculo ele cita Paulo José, Renata Sorrah e Fernanda Montenegro, entre outros nomes do teatro brasileiro contemporâneo. O cenário é o próprio improviso: uma reunião de materiais reciclados, painéis fotográficos, cordas, etc. Marcos Abujamra assina a trilha sonora, criada sobre a ópera Il Travattore, de Verdi.Esta Noite Se Improvisa - Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, Rua 1º de Março 66 -Centro. Tel. 808-2020 De 21 de setembro a 17 de dezembro. De quarta a domingo às 19h30. Ingresso R$ 10,00.

Agencia Estado,

20 de setembro de 2000 | 22h52

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