Abriram a Caixa Preta

Discografia completa de Itamar Assumpção é reunida em projeto que inclui dois álbuns inéditos

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

A fina flor da cena paulistana independente celebrou na quarta-feira, no Sesc Pompeia, o pré-lançamento da Caixa Preta, projeto grandioso realizado pelo Selo Sesc, reunindo todos os álbuns do compositor paulista Itamar Assumpção (1949-2003), entre eles dois inéditos, Pretobrás II - Maldito Vírgula, produzido por Beto Villares, e Pretobrás III - Devia Ser Proibido, com produção, arranjos e direção musical de Paulo Lepetit, baixista, arranjador e fiel parceiro de Itamar. É ali mesmo nessa unidade do Sesc que cada um desses 12 discos serão recriados na íntegra em shows durante todo o mês de outubro (veja a programação completa nesta página), com participação de todo o elenco que abrilhantou os CDs inéditos.

"A gente não inventou nada. Foi tudo ideia do meu pai", disse Anelis Assumpção, que divide com a irmã Serena e Villares a direção artística de um dos CDs. Anelis referia-se tanto à Caixa Preta quanto aos sucessores de Pretobrás - Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes?, que Itamar realizou em 1998.

Genial e genioso, Itamar tinha fama de "maldito" na mídia e de "difícil" no meio musical. A produção de seu último trabalho em vida, Isso Vai Dar Repercussão, com Naná Vasconcelos, foi conturbada. Agora, trabalhar para ele em sua ausência proporcionou a músicos como Lepetit, o guitarrista Luiz Chagas e a cantora Suzana Salles - que fizeram escola com Itamar na antológica banda Isca de Polícia - momentos de maior liberdade. "Pude fazer meus solos à vontade", brinca Chagas. "Ele punha fogo pra gente tocar. Depois, claro, cortava." Para ele, o trabalho fluiu com naturalidade porque a banda não parou, mesmo com a morte do líder. "Nunca paramos para questionar a ausência dele."

Chagas, como Suzana, reconhece o amadurecimento do compositor. "Ele passou o período de ser complicado para outro em que ficou sofisticado e depois simples demais. O barato dele era entrar no estúdio, fazer um loop de dois acordes e compor a letra em cima. Aí a gente complicava. Depois voltou a fazer música com mais acordes", diz o guitarrista. Mas o que é aparentemente simples em Itamar não é fácil para os intérpretes, como se constata, por exemplo, em Grude, interpretada por Ney Matogrosso, e em Elza Soares, com a própria. "Ele vivia em constante renovação. Era aquela água brotando que todo mundo ia lá beber", afirma Suzana.

Linguagem. É reconhecível no Pretobrás III a inconfundível linguagem sonora de Itamar, que para Lepetit foi "uma faculdade", mas a sonoridade é outra. Está mais limpa. "Ele gostava de meter a mão em tudo, inclusive na mixagem, que ele não entendia", diz Suzana. O som dos discos do Itamar nunca conseguiu corresponder ao dos shows. É notório. Itamar ao vivo era outra coisa. Quem não o viu e só ouve os CDs não tem a dimensão do que era o som dele de verdade. Desta vez vai ter não só a dimensão captada adequadamente em estúdio, como também essa história nova do Beto Villares."

Villares e as irmãs Assumpção reuniram expoentes da nova geração da cena independente, como Curumin, Pupillo, Marcelo Jeneci, BNegão, Rodrigo Campos, Bruno Buarque, Antonio Pinto, Thalma de Freitas, Iara Rennó, Céu, o eterno moderno Arnaldo Antunes, Antonio Pinto, e o próprio Villares, fazendo com inteligência a ligação da modernidade do passado com a atual.

Há diferenças evidentes nos dois discos. O de Villares é o que Chagas chamou de "disco de produtor, que Itamar certamente abraçaria" e Anelis avalia o resultado como o ideal pop que seu pai queria para sua música. Não que a produção de Lepetit não seja pop, mas ali é um trabalho de uma banda que evoluiu com o compositor. Não havia sugestões de arranjos nem nada. "A gente trabalhou tanto tempo juntos que as linguagens se confundem, tanto a minha de arranjador como a da banda. É uma coisa que tem uma identidade", diz Lepetit. "Então, foi razoavelmente fácil chegar a esse resultado. É muito natural pra gente."

Isca, Naná e Alice. O músico, que também trabalhou em esquema parecido em Isso Vai Dar Repercussão (2004), com voz, violão e percussão, chamou Naná a princípio para tocar em cinco faixas, mas ele quis mais e deixou sua marca profunda em oito. A maioria deles, a propósito, foi composta no período do trabalho com Naná. "Ele estava muito criativo, a cada dia chegava com duas, três músicas novas", lembra Lepetit.

Ele, porém, queria fazer um disco, "a partir da banda", evitando, no entanto, reunir muitos convidados (leia mais abaixo). "Muita gente passou pela Isca de Polícia, não dava pra chamar todo mundo." Mas, como ele mesmo confirma, a banda está bem representada por Chagas, Suzana, Bocato, Vange Milliet e Marco Costa.

A única letra dos dois álbuns não assinada por Itamar é Devia Ser Proibido (leia no alto da página). Aqui ele é o personagem que inspirou a poeta Alice Ruiz, grande parceira dele em outras canções antológicas. Personagem não é bem o termo para se referir a Itamar no ponto da evolução musical. Suzana lembra que Luiz Tatit já tinha dado o toque num texto no songbook de Itamar a respeito de sua evolução como compositor, quando deixou de representar o "personagem" Nego Dito. O resultado está aí "pra provar pra quem quiser ver e comprovar".

DEVIA SER PROIBIDO

D evia ser proibido uma saudade tão má de uma pessoa tão boa...

Falar, gritar, reclamar

Se a nossa voz não ecoa

Dizer: "Não vou mais voltar!"

Sumir pelo mundo afora

Alguém com tudo pra dar

Tirar o seu corpo fora

Devia ser proibido

Devia ser proibido

Estar do lado de cá

Enquanto a lembrança voa

Reviver, ter que lembrar

E calar por mais que doa

Chorar, não mais respirar

Ar

Dizer adeus, ir embora

Você partir e ficar

Pra outra vida, outra hora

Devia ser proibido

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